Morre Leonel Brizola
 

Polêmico e sempre influente, o ex-governador Leonel Brizola ajudou a escrever a recente história do Brasil, principalmente na reconstrução da democracia no país. Lula decretou luto de três dias em razão de sua morte.

Crédito: Arquivo/ABr
Ex-governador Leonel Brizola, em foto nos anos 80.

Faleceu na noite desta segunda-feira (21), no Rio de Janeiro, o presidente nacional do PDT e ex-governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola. Ele morreu por causa de um infarto decorrente de complicações infecciosas.

O ex-governador estava internado desde a tarde de segunda no hospital São Lucas, em Copacabana. Brizola foi submetido a uma série de exames, em que foi detectado um coágulo em seus pulmões, inicialmente interpretado como insuficiência respiratória aguda. Uma das causas dessa insuficiência pode ter sido um infarto. No entanto, ele foi internado para realizar uma série de exames por causa de uma forte gripe.

Brizola estava em sua fazenda no Uruguai quando começou a passar mal, na semana passada. O ex-governador chegou ao hospital São Lucas no início da tarde de segunda para fazer exames por causa de febres, dores no corpo e diarréia. No início da noite, ele foi removido para o CTI (centro de tratamento intensivo) do hospital, vindo a falecer.

Neste ano, o PDT chegou a cogitar o lançamento de Brizola à Prefeitura do Rio de Janeiro. Ele rompeu em 2003 com Lula por considerar que o atual governo era uma continuidade do de Fernando Henrique Cardoso.

Leonel de Moura Brizola nasceu em 22 de janeiro de 1922, no povoado de Cruzinha, que pertenceu a Passo Fundo (RS) até 1931, quando passou à jurisdição de Carazinho (RS). Foi governador do Rio de Janeiro duas vezes (1983-1987 e 1991-1995). Antes do golpe de 1964, foi governador do Rio Grande do Sul e deputado federal pelo Rio de Janeiro. O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, que estava de relações cortadas com Brizola, decretou luto oficial no país por três dias.


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O silêncio do Velho Caudilho — morre Leonel Brizola
Por Ederson Prestes

Crédito: Ana Nascimento/ABr
O ex-governador Leonel Brizola e presidente do PDT, no Congresso Nacional

Carreira política

A longa carreira política de Leonel Brizola teve início aproximadamente em 1945, quando esse político participou da fundação do PTB. Logo em seguida, ele se elegeu deputado estadual, no ano de 1947. Em 1949, Brizola formou-se em Engenharia Civil, mas não abandonou a política e, em 1950, reelegeu-se deputado estadual.

Em 1951, concorreu à Prefeitura de Porto Alegre, mas foi derrotado por menos de 1% de votos. Foi convidado a ser secretário estadual de Obras Públicas, cargo em que permaneceu até ser eleito deputado federal, em 1954, e prefeito de Porto Alegre, em 1955.

Em 1958, sua carreira política já deslanchara, e ele elegeu-se governador do Rio Grande do Sul, onde deflagrou a Rede da Legalidade, que lhe deu projeção nacional no ano de 1961. Em 1962, conseguiu eleger-se deputado federal pelo então estado da Guanabara, cargo que exerceu até ser cassado pelos militares, durante o golpe de 1964.

Depois de 15 anos no exílio, Brizola voltou ao país e conseguiu se eleger governador do Rio de Janeiro por duas vezes (1982-1986 e 1990-1994).

Participou ainda de três campanhas presidenciais: em 1989 e em 1994 como presidente e em 1998 como vice-presidente na chapa com Lula, do Partido dos Trabalhadores.

Campanha da Legalidade

Crédito: Partido Democrático Trabalhista
Campanha pela legalidade, deflagrada em 1961.

A liderança exercida por Leonel Brizola na Campanha da Legalidade em 1961 foi uma das ousadas lutas travadas a favor da democracia e da permanência das instituições públicas.

A Campanha da Legalidade surgiu logo após a renúncia do ex-presidente Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961, e tinha por objetivo garantir a posse do vice-presidente como presidente da República.

Crédito: Partido Democrático Trabalhista do Rio de Janeiro
O ex-presidente João Goulart em discurso.

Com a renúncia do presidente, os militares não queriam aceitar a posse do vice-presidente João Goulart, cunhado de Leonel Brizola (que era casado com a irmã do vice-presidente). Mas, nesse momento, formou-se uma grande rede de apoio a João Goulart: UNE — União Nacional de Estudantes —, partidos políticos (UDN — União Democrática Nacional —, PSD — Partido Social Democrático —, PTB — Partido Trabalhista Brasileiro), além de governadores e da população em geral.

No Rio Grande do Sul, dois dias após a renúncia, o governador Leonel Brizola liderou a chamada Rede da Legalidade. Para isso, requisitou os transmissores da maior rádio do estado, a Rádio Guaíba de Porto Alegre, que, utilizando ondas médias e curtas, atingia todo o país durante 24 horas por dia defendendo a legalidade do país e a posse de Jango, como era chamado João Goulart. Em seguida, várias outras rádios se uniram à Guaíba e passaram a transmitir a Rede da Legalidade.

A transmissão ocorria no porão do Palácio do Piratini, sede do governo do Rio Grande do Sul, e, no auge da campanha, chegou a ser feita por meio de 104 rádios, a atingir altíssimos índices de audiência e até mesmo a ser feita em inglês, espanhol e alemão.

Este foi sem dúvida um dos atos marcantes na carreira do então governador Leonel Brizola, pois contribuiu de forma decisiva para a posse de João Goulart.

O golpe militar e o exílio

Crédito: Partido Democrático Trabalhista
Leonel Brizola (à esquerda) e seu cunhado João Goulart

Em 1964, com o golpe militar, que retirou do poder o presidente João Goulart, teve início uma caçada àqueles que defendiam as reformas de base (reforma agrária, tributária, educacional, entre outras), o trabalhismo e o socialismo. E Leonel Brizola encabeçava todas as listas de procurados pelos militares, pois, além de ser cunhado do presidente cassado, era árduo defensor das reformas de base.

Apesar de ter defendido uma resistência armada ao golpe militar, Leonel Brizola não encontrou apoio no presidente Goulart e, então, teve de exilar-se no Uruguai para não ser preso pelos militares. Entre 1965 e 1970, o ex-governador ficou cercado na praia de Atlântida, no Uruguai, sob pedido do Exército brasileiro. Em 1977, em virtude do golpe militar no Uruguai, Brizola foi expulso desse país, tendo de ir para os EUA, com apoio do então presidente norte-americano Jimmy Carter, que tinha forte presença na defesa dos direitos humanos.

Crédito: Partido Democrático Trabalhista do Rio de Janeiro
Cartaz do Encontro de Trabalhistas no Brasil e no Exílio

Em 1979, Brizola foi para Lisboa, onde entrou em contato com socialistas europeus como Mário Soares (de Portugal), François Miterrand (da França) e Felipe González (da Espanha). Lisboa também foi a sede de uma reunião de caráter internacional, o Encontro de Trabalhistas no Brasil e no Exílio. Desse evento, resultou a Carta de Lisboa, que foi um marco na luta dos trabalhistas e a base do Partido Democrático Trabalhista — PDT.

Em 6 de setembro de 1979, chegaram ao fim os 15 anos de exílio de Brizola, que desembarcou no aeroporto de Foz do Iguaçu e seguiu para Porto Alegre.

 

A fundação do Partido Democrático Trabalhista — PDT

Partido Democrático Trabalhista
Símbolo do Partido Democrático Trabalhista — PDT

Ao voltar ao Brasil, Brizola tinha a intenção de recriar o antigo Partido Trabalhista Brasileiro, o PTB, fundado por Getúlio Vargas e João Goulart e que era a sigla mais importante para os trabalhadores brasileiros. Mas, por pressão dos militares, que não desejavam ver a tradicional sigla partidária sob o comando de Brizola, este foi dado para outro grupo político, liderado por Ivete Vargas. Então, Leonel Brizola fundou outro partido, o Partido Democrático Trabalhista — PDT—, obtendo seu registro em novembro de 1981.

 

 

Crédito: Partido Democrático Brasileiro
Brizola em comício
Crédito: Fundação Perseu Abramo / Ziraldo
Charge de Ziraldo sobre a briga política para o domínio da sigla PTB

 

Caudilho: termo de origem espanhola que possui diversos significados, em especial na área política. Entre os vários aspectos que podem ser identificados num caudilho, está o carisma e a eficácia com que este conduz seus comandados. Um caudilho exerce seu poder de forma autoritária, exigindo de seus seguidores fidelidade total. Na América Latina, caudilho também pode designar um líder político regional.

 

Para ir mais longe

Conheça um pouco mais sobre a história do político na Enciclopédia do portal.
http://www.educacional.com.br/enciclopedia/enciclopesq.asp?query=brizola

Confira a repercussão da morte de Brizola na opinião de alguns políticos atuais no site Folha Online.
http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u61841.shtml

 

 
 
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