Amazônia pode virar savana
13/08/2004
Por Diogo Dreyer com agências de notícias

     
 

O alerta foi dado em uma conferência científica em Brasília: se o desmatamento e as queimadas continuarem, uma grande parte da Floresta Amazônica vai se transformar, dentro de meio século, em savana.

Crédito: LBA  
Queimada na Amazônia

Imagine um passeio de jipe por savanas, no melhor estilo safári: a vegetação rala e escassa, animais correndo em bando, turistas curiosos, sol a pino. E tudo isso na... Amazônia!

Pois é. Esse ambiente, típico das savanas africanas, pode ser o futuro de grande parte da floresta tropical caso as queimadas e o desmatamento continuem. O alerta foi dado durante a III Conferência Científica do LBA (sigla, em inglês, para Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia), que aconteceu no último mês de julho.

O LBA é um projeto internacional que estuda o ecossistema da Amazônia. Os pesquisadores envolvidos no experimento se reúnem a cada dois anos para divulgar suas descobertas e debater a melhor maneira de aplicar os resultados dos estudos na formulação de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável da região.

De acordo com os pesquisadores que fazem parte do projeto, o desmatamento e as queimadas na Amazônia estão modificando o clima e ampliando o efeito estufa no planeta. As queimadas e o aquecimento global poderão transformar de 20 a 30% da Floresta Amazônica em savana, em um período de 50 a 100 anos; ou, sob uma perspectiva ainda mais pessimista, dentro desse mesmo período, 60% da Amazônia poderá estar transformada em savana.

O estudo foi feito com base em simulações e uso de modelos matemáticos e só levou em conta o aquecimento global. De acordo com os dados coletados, o fogo das queimadas já atingiu uma faixa de cerca de 250 quilômetros de largura nas “bordas” da Amazônia, que está transformando-se em uma savana.

Crédito: LBA  
Área queimada

Os estudos também mostram que as queimadas podem estar relacionadas às mudanças no regime das chuvas no Sul e Sudeste do país e podem ocasionar alterações climáticas até mesmo na Europa. Outro efeito negativo é a “exportação da fumaça” proveniente da queima da biomassa nas estações secas (com as queimadas na Amazônia, está aumentando a emissão de partículas no ar, que têm sido levadas para outras regiões do planeta, causando efeitos como, por exemplo, a diminuição da radiação solar).


[ notícia comentada ]

Por Patrícia Martinelli, especialista do portal em Biologia

A Floresta Amazônica vem sendo alvo de interesses distintos. Madeireiros e fazendeiros têm agido de forma indiscriminada, retirando madeira para comercialização ou abrindo grandes clareiras para pastagem. Os seringueiros fazem associações para definir a melhor forma de extrativismo na floresta, o qual nem sempre é realizado de modo sustentável. Pesquisadores tentam avaliar os danos causados até agora pelo homem e prever o que acontecerá se medidas contra o desmatamento e as queimadas não forem tomadas imediatamente, pois se trata de problemas que atingem a maior floresta equatorial contínua do planeta.

Crédito: Paulo Artaxo  
Vista aérea de queimada na Amazônia

O LBA (Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera da Amazônia) é o maior e mais completo experimento científico sobre a relação floresta-atmosfera que já foi realizado na região da Amazônia.

No planeta, existe o que conhecemos como ciclo do carbono, que ocorre da seguinte maneira: seres vivos em decomposição, processos respiratórios e a queima de matéria orgânica liberam carbono na forma de CO2, que é reabsorvido pelas plantas por meio da fotossíntese, constituindo assim um ciclo. No entanto, a queima de combustíveis fósseis e as queimadas têm liberado muito mais carbono do que as plantas podem absorver. Essa ação do homem desequilibra o ciclo, pois faz com que haja muito carbono dissolvido na atmosfera, favorecendo o efeito estufa e o aumento da temperatura no planeta.

Pesquisadores do LBA colocaram torres dispersas na Amazônia para verificar o que está acontecendo com o excesso de CO2 existente na natureza e, assim, descobriram que a Floresta Amazônica retira mais CO2 do que libera; portanto, poderia estar auxiliando na redução do excesso de CO2 na atmosfera.

Entretanto, as coisas não são tão simples assim: eles observaram que, em determinadas regiões, está acontecendo um crescimento exagerado das plantas, pois elas têm mais CO2 disponível (aumentando o processo fotossintético). Os estudiosos verificaram também que algumas plantas, como os cipós, estão tendo um crescimento acelerado em relação a outras espécies; ao passo que algumas vêm apresentando curto período de vida e estão sendo substituídas por plantas mais jovens com muita rapidez.

Esses problemas podem afetar a biodiversidade da floresta como um todo, embora cada parte dela reaja de forma diferente por possuir características genéticas, fisiológicas e morfológicas diversas. Regiões já desmatadas, com solos expostos ao sol e temperaturas elevadas, em decorrência do efeito estufa, poderiam gerar plantas com características de cerrado, extinguindo assim as espécies típicas da região.

As queimadas e desmatamentos praticados na Amazônia têm efeitos que se alastram por todo o planeta, podendo gerar um desequilíbrio do qual ainda não temos conhecimento, pois o que a LBA mostrou na conferência foram hipóteses baseadas em algumas experiências; ainda não temos idéia do problema como um todo. Preservar e manter a floresta é o mínimo que podemos fazer. É um ato de manutenção da vida no planeta.

 
     
 

Para ir mais longe

Conheça mais sobre o Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia e sobre os estudos e descobertas dessa iniciativa.
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Será que o desmatamento vem diminuindo? Aparentemente, não. A área desmatada na Amazônia no período de 2002 a 2003 é a segunda maior já registrada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe): 23.750 km2. O recorde continua sendo o de 1994 a 1995: 29.059 km2.
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Você se lembra do El Niño? Esse fenômeno continua causando preocupação: a seca cada vez mais rigorosa que ele provoca na região amazônica também é um fator que colabora com as queimadas.
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