Hiroshima — o primeiro ataque atômico da história
05/08/2005
Priscila Pugsley Grahl

     
 

Em 6 de agosto de 1945 um ataque nuclear devastou as cidades de Hiroshima e Nagasaki. A Segunda Guerra Mundial chegava ao fim com a utilização de uma arma com um potencial de destruição até então desconhecido e incomparável.

Nara — US National Archives and Records Administration
Uma densa coluna de fumaça elevando-se a mais de 60 mil pés de altitude sobre o porto japonês de Nagasaki. Era a segunda vez que se utilizava uma bomba atômica durante a Segunda Guerra Mundial.

Em junho de 1945, os cientistas do Projeto Manhattan trabalharam duro com o objetivo de testar os resultados de aproximadamente três anos de trabalho exaustivo. O local escolhido para o teste da primeira bomba atômica foi o Deserto de Alamogordo, no Novo México, numa área batizada de “Trinity”. Na madrugada do dia 16 de julho de 1945, ocorreu o primeiro teste nuclear da história. O deserto ficou iluminado com a claridade de mil sóis. Quem presenciou os testes, principalmente os cientistas envolvidos, ficou perplexo. Openheimer, o pai da bomba atômica, comentou o evento com as seguintes palavras: “Algo nos dizia que, a partir daquele instante, a vida não seria a mesma. Recordo que nesse momento pensei em um texto sânscrito que havia lido certa vez em Berkeley: ‘Agora, converti-me em companheiro da morte, em destruidor de mundos’”. (A Segunda Guerra Mundial. vol. XII. p. 256)

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O dispositivo atômico sendo posicionado para o primeiro teste nuclear em Alamogordo, Novo México, 1945. Explosão em Los Alamos, no Deserto de Alamogordo, Novo México, no dia 16 de julho de 1945.

Em meados de 1945, depois de os testes no Novo México terem sido bem-sucedidos, os EUA tornaram-se o país detentor do monopólio da produção da bomba atômica. Não demorou muito para que essa arma fosse testada em uma situação real, em uma cidade de verdade. Em 25 de julho de 1945, o presidente norte-americano Harry Truman ordenou o ataque ao Japão. Em 6 de agosto de 1945, a cidade de Hiroshima entraria para a história de maneira trágica: seria a primeira do mundo a sofrer um ataque atômico contra uma população civil.

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Coronel Paul W. Tibbets Junior, piloto do Enola Gay, o avião que soltou a bomba atômica em Hiroshima, acenando da cabine antes da decolagem, em 6 de agosto de 1945. Little Boy, a bomba que foi lançada sobre Hiroshima, provocando a destruição da cidade, em agosto de 1945.
   
O B-29 Enola Gay depois do ataque a Hiroshima, em 8 de junho de 1945.
Crédito: Nara — US National Archives and Records Administration

A bomba lançada sobre Hiroshima recebeu o nome de Little Boy (“Garotinho”, em português). Ela media 4 metros e 25 centímetros de comprimento e pesava 4.500 quilos. Sua carga nuclear era composta de urânio e devia explodir ao chegar a aproximadamente 565 metros do solo. A energia liberada pela bomba era semelhante a uma carga de 20 mil toneladas de TNT. Quando atingiu seu alvo, um furacão de fogo arrasou a cidade, e o que se seguiu foi o caos: a cidade destruída, centenas de milhares de pessoas feridas, cobertas de vidro e madeira ou com seus corpos queimados. Elas não tinham a quem recorrer, já que suas casas foram destruídas, bem como a de seus conhecidos, e mesmo os hospitais haviam sido danificados e não tinham condições para atender à população. Faltavam médicos, enfermeiros e remédios. Mortos também jaziam pelas ruas, e o cheiro da cidade era insuportável. Era a visão do apocalipse!

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Foto aérea de Hiroshima antes do ataque. Foto aérea de Hiroshima depois do ataque.
   
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Vítimas no hospital, em setembro de 1945. Um soldado japonês caminha entre as ruínas resultantes da explosão atômica em Hiroshima, Japão, setembro de 1945.

Como se não bastasse o horror de Hiroshima, essa mesma experiência foi repetida três dias depois na cidade de Nagasaki, que foi atingida por uma bomba com carga atômica de plutônio. Novamente, o desastre se repetiu.

Ainda hoje os sobreviventes da maior catástrofe da história trazem marcas físicas e psicológicas do terror vivido em Hiroshima e Nagasaki. Os dias 6 e 9 de agosto são relembrados, há 60 anos, com muito sofrimento e provavelmente jamais serão esquecidos.

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O que restou da Catedral Católica Romana em Nagasaki, 1945. Em Nagasaki, depois da meia-noite do dia 10 de agosto de 1945, uma mãe e seu filho recebendo um bolinho de arroz cozido de um grupo de socorro de emergência.
   
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Um portal xintoísta ainda resistiu em pé na cidade de Nagasaki. Já as estruturas ao redor não escaparam da destruição. Outubro de 1945. Sobreviventes caminhando ao longo da estrada depois do ataque atômico de Nagasaki, Japão, agosto de 1945.
   
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Vítima da explosão atômica em Nagasaki, 1945. Bomba nuclear do tipo Fat Man, o mesmo da que foi lançada sobre a cidade de Nagasaki.
   
Truman Library
Famílias japonesas acampando nas ruínas do que um dia foi sua cidade, vivendo em abrigos temporários construídos com pedaços de metal e madeira retirados das ruínas do que antes fora uma colina repleta de casas. Em Nagasaki, Japão, julho de 1946.

 


O Projeto Manhattan para a construção da bomba atômica

Em agosto de 1939, o físico Albert Einstein, convencido por outros colegas cientistas, enviou uma carta ao presidente dos EUA, Franklin D. Roosevelt, alertando-o sobre a possibilidade de se construírem bombas de grande magnitude, até então nunca vistas, e sobre o risco que o país corria de perder a corrida armamentista disputada com a Alemanha se não as produzisse. Assim, dava-se o passo inicial para a criação da arma mais letal que já foi utilizada em uma guerra, em que os EUA seriam pioneiros.

Enquanto a Segunda Guerra Mundial se desenvolvia nas suas mais diversas frentes, em laboratórios secretos localizados em territórios das principais potências envolvidas no conflito, outra guerra estava sendo travada: era a corrida tecnológica e armamentista. Cientistas dos EUA, sob o comando de militares, em um laboratório no Deserto de Los Alamos, trabalhavam fervorosamente para desenvolver a bomba atômica antes dos pesquisadores alemães. Eles faziam parte do Projeto Manhattan, iniciado em setembro de 1942, talvez o maior projeto científico do século XX, que custou mais de 20 bilhões de dólares aos cofres públicos norte-americanos e reuniu grandes cérebros, como Niels Bohr, Enrico Fermi e Robert Oppenheimer.

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Robert Oppenheimer, físico nuclear e cabeça do Projeto Manhattan. Em 2 de dezembro de 1942, o prêmio Nobel Enrico Fermi, físico ítalo-americano, foi o primeiro a conseguir uma reação em cadeia controlada da fissão nuclear e integrou o grupo que pesquisou sobre a bomba atômica.

Por que a bomba atômica foi lançada sobre Hiroshima e Nagasaki?

Desde que ocorreu o bem-sucedido teste em Los Alamos, o presidente dos EUA — na época, Truman —, acreditava ter uma arma que poderia acelerar o fim da guerra. E realmente tinha.

As campanhas no Pacífico já haviam gerado um grande número de baixas de soldados americanos, e as chances de uma vitória rápida utilizando os meios até então conhecidos eram poucas. O conflito prometia ser longo e difícil: a resistência dos soldados japoneses era grande, pois não abririam mão de seu território, mesmo que isso custasse suas vidas. A guerra já se arrastava por quase seis anos, e era necessário acalmar também a opinião pública estadunidense, que já estava farta de guerra.

Em 25 de julho de 1945, o presidente dos EUA, Harry Truman, ordenou o ataque ao Japão. Ele pretendia forçar uma rendição testando sua mais nova arma. As cidades escolhidas para a ação foram Hiroshima e Nagasaki, pois ambas não haviam sido bombardeadas pelos famosos B-29 em nenhum momento da guerra, diferentemente de Tóquio, que tinha sido arrasada. Os habitantes das duas cidades até mesmo viviam na expectativa de um bombardeio, mas não esperavam servir de cobaias para a arma mais letal inventada até então.

Depois desses terríveis bombardeios; em 2 de setembro de 1945 foi assinada a rendição do Império do Sol Nascente. Era o fim da Segunda Guerra Mundial. Depois de seis anos de guerra, chegava-se à paz, mas a um preço muito alto. Em Hiroshima, cerca de 68 mil pessoas morreram na hora da explosão; e 70 mil, nos anos seguintes. Em Nagasaki, foram mortas 38 mil pessoas; e 35 mil, nos dias subseqüentes.

Os efeitos da bomba atômica nos seres humanos

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Paciente que sobreviveu ao ataque atômico mostrando a pele queimada, que apresenta o desenho do quimono que ela usava na hora da explosão. Efeitos do calor e da radiação nas pessoas. Japão, 1945.
   
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Efeitos do calor e da radiação nas pessoas. Japão, 1945.

O pós-guerra

Durante a Segunda Guerra Mundial, URSS e EUA foram aliados no combate ao nazismo e ao fascismo. Essa aliança, mesmo que delicada, perdurou até o fim da guerra. O término do conflito acabou colocando socialistas e capitalistas em campos opostos, dando início a um período que ficou conhecido como Guerra Fria. No mundo bipolar do pós-guerra, EUA e URSS disputavam a supremacia econômica, ideológica, política e bélica. A bomba atômica passou a ser um símbolo de poder que a URSS também precisava possuir. Enquanto os EUA, em julho de 1946, realizavam novos testes visando a aperfeiçoar suas armas nucleares; em agosto, a URSS explodia sua primeira bomba atômica no Casaquistão. As informações para a construção dessa arma haviam sido roubadas dos EUA pelo cientista alemão Klaus Fuchs.

Na década de 1950, o governo norte-americano autorizou a realização de novas pesquisas; dessa vez para o desenvolvimento da bomba de hidrogênio, com um poder muito maior de destruição que as lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki. Em 1952, os EUA fizeram o primeiro teste desse tipo de bomba, nas Ilhas Marshall, no Pacífico. Três anos depois, era a vez da URSS testar sua primeira bomba de hidrogênio. As pesquisas continuaram de ambos os lados e, em 1962, a chamada “crise dos mísseis” (que envolveu URSS, Cuba e EUA) quase gerou um conflito nuclear. Era hora de frear o ritmo da corrida atômica, que poderia levar o mundo à destruição.

Um dos maiores freios ao avanço nuclear foi a assinatura do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, em 1968, que contou com a adesão de cinco potências atômicas (EUA, URSS, Reino Unido, França e China) e também de países que não possuíam arsenal nuclear. Estes, para firmar o tratado, receberam algumas garantias: as grandes potências começariam o desarmamento, não iriam transferir armas atômicas para nações desnuclearizadas e, também, partilhariam a tecnologia do uso civil da energia nuclear. Hoje, fazem parte do acordo 188 países. Entre as nações que não assinaram esse tratado, estão Israel, Paquistão, Índia e Coréia do Norte. Outro acordo marcante foi realizado em julho de 1991 entre o presidente H. W. Bush e Mikhail Gorbatchev: o Tratado de Redução de Armas Estratégicas (Start-1), em que EUA e URSS se comprometeram a remover metade das ogivas estratégicas.

Com esses e outros acordos, os arsenais norte-americano e russo foram aos poucos diminuindo. Os EUA, no auge da Guerra Fria, possuíam 32 mil ogivas nucleares; hoje têm 10 mil. Já a antiga URSS, que naquela época possuía cerca de 45 mil ogivas; hoje, como Rússia, tem cerca de 16 mil.

Atualmente, quando se pensa em ameaça nuclear, há temores quanto à situação de dois países: Coréia do Norte (que se acredita possuir um arsenal de seis a oito ogivas) e Irã (que se suspeita estar produzindo armas atômicas). Mas esse não é o pior dos riscos; um mal maior que nações conseguirem um arsenal nuclear está em terroristas obterem matéria-prima suficiente — 15 quilos de urânio enriquecido ou 4 quilos de plutônio — para construírem uma bomba atômica. Espera-se que qualquer tentativa vinda da parte deles seja malsucedida. Infelizmente, a “Caixa de Pandora” aberta em 1945 ainda assusta pelos males que causou.

Bibliografia consultada:

HERSEY, John. Hiroshima. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
REVISTA National Geografhic Brasil. O fantasma da bomba. Ago. 2005.
A SEGUNDA Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Codex S.A., 1996.

Site:
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Para ir mais longe

A evolução dos modelos atômicos: Conheça a trajetória das teorias sobre o modelo atômico, de 400 a.C. até o século XX.
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Para conhecer mais sobre a história dos sobreviventes do primeiro ataque atômico da história, leia o livro Hiroshima, de John Hersey.
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