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O “pré” virou 1.º ano
17/02/2006
Por César Munhoz

     
 

As escolas brasileiras têm até 2010 para se adaptar ao novo formato do Ensino Fundamental, que agora passa a durar nove anos: a Pré-Escola será o novo 1.º ano. A medida busca minimizar diferenças entre o ensino público e o particular, além de diminuir a defasagem do sistema educacional brasileiro em relação a padrões internacionais. Educadores de todo o país perguntam-se: quais são as reais vantagens dessa mudança? Como aproveitar isso da melhor maneira possível?

Foto: Vimo - Moacir Francisco / Positivo imagens
E agora, professor? Alfabetizar desde os 6 anos ou fazer um trabalho mais lúdico?

Confirmado: a partir de agora, o Ensino Fundamental no Brasil terá duração de nove anos. Um projeto aprovado pela Câmara em novembro de 2005 e sancionado no último dia 6 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez com que o “pré” fosse agregado ao Ensino Fundamental, passando a ser o “novo” 1.º ano, e tornou obrigatório o ingresso na escola aos 6 anos de idade. A lei não se aplica a alunos que já cursavam o Ensino Fundamental em 2005.

Apesar de ter sido colocada em prática apenas agora, a idéia de incluir um ano a mais no Ensino Fundamental é discutida há aproximadamente 15 anos e já é realidade para 8,1 milhões de estudantes em mais de mil cidades brasileiras. Uma das principais razões de expandi-la para o país inteiro seria a busca de um equilíbrio entre a preparação dos estudantes de escolas públicas e particulares. Além disso, procura-se diminuir a defasagem do Brasil em relação a padrões internacionais. Em outros países do Mercosul, o Ensino Fundamental dura nove anos.

De acordo com a lei sancionada pelo presidente, as escolas têm até 2010 para se adaptar ao novo formato de ensino. Com esse prazo, o governo federal espera dar tempo para que os estados e municípios possam fazer seu planejamento financeiro e se posicionar quanto a detalhes como currículo e material didático.

Como era de se esperar, uma mudança dessa dimensão está gerando discussões acaloradas entre educadores e escolas de todo o Brasil. Será que ela realmente vai trazer uma melhoria significativa para o ensino público brasileiro? O que fazer para aproveitá-la da melhor forma e minimizar possíveis contratempos?


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O que você acha da nova regulamentação do Ensino Fundamental, que estende a duração dele para nove anos? Como está o processo de adaptação à lei em sua região?

O portal fez essa pergunta a representantes de instituições educacionais de todo o Brasil. Veja, a seguir, o que eles disseram.

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Foto: Divulgação
Maria América Teixeira
Secretária municipal de Educação
São José dos Campos - SP



“É importante destacar que agora os alunos terão dois anos para cumprir a fase de alfabetização, o que é fundamental para o bom desempenho nos anos seguintes.”

“No momento, estamos discutindo alguns pontos, como data-base de nascimento da criança para o acesso desde o nível I de Educação Infantil, adequação dos prédios e alinhamento curricular entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental. Mas já estamos aplicando a mudança gradativamente, admitindo no 1.º ano do Ensino Fundamental crianças que completaram 6 anos até 31/12/05. Em 2007, será implantado definitivamente o Ensino Fundamental com nove anos de duração.”

 

Foto: Divulgação
Marta Alice Kaminski
Diretora-geral da Escola Pirâmide do Saber
Curitiba - PR



“Com essa mudança, a Educação Infantil passará a ter muito mais o papel de promover a socialização e a preparação para a alfabetização, ou seja, trabalhar a motricidade, lateralidade, dimensão espacial e tantos outros quesitos importantes para que ocorra uma boa alfabetização posteriormente. Acredito que, ainda na Educação Infantil, seja possível trabalhar a alfabetização de forma oral, sem a escrita.”

“Algo que me preocupa especialmente é saber como será feita a inclusão desse novo 1.º ano na escola pública, pois não se trata apenas de adicionar mais um ano, mas, sim, de promover uma mudança de mentalidade. Deve-se fazer uma reciclagem dos professores e processos da escola pública para que possam trabalhar corretamente essa fase inicial de alfabetização.”

“De certa forma, essa mudança também vai trazer benefícios à escola particular, pois, mesmo nesta, muitas crianças chegam à 7.ª série sem uma preparação prévia e não conseguem acompanhar as aulas. Isso vai diminuir o déficit escolar e a evasão.”


 

Foto: Divulgação
Wilma Lima
Diretora pedagógica do Colégio Dom Bosco
Manaus - AM



“Eu tenho experiência tanto em escola particular quanto na rede pública. Nesta última, 80% das crianças chegam à 1.ª série sem escolaridade alguma e enfrentam muita dificuldade no restante do Ensino Fundamental e, conseqüentemente, no Ensino Médio. Há realmente índices muito altos de reprovação e evasão porque as crianças não se sentem aptas a acompanhar as aulas e desistem. Se essa mudança for promovida juntamente com um trabalho organizado, a educação vai melhorar muito.”

“Na minha opinião, para a escola particular essa medida não acrescenta muita coisa. Nós vamos somente transferir a nomenclatura.”

“No Colégio Dom Bosco, ainda estamos trabalhando com a seriação. Somente no ano que vem vamos introduzir as mudanças. Usaremos 2006 apenas para a fazer as adaptações necessárias, como orientar professores e pais. O Conselho Estadual de Educação do Amazonas distribuiu um parecer orientando como tudo deve ser feito, com os prazos que as escolas têm para se adaptar. Temos até o mês de agosto. E estamos começando a fazer esse trabalho por meio de reuniões, fóruns, palestras, etc. Na escola pública onde trabalho, participamos de fóruns desde 13 de fevereiro.”

 

Foto: Divulgação
Rosane Leite Carolo
Grupo Integrado
Campo Mourão - PR



“Trabalhamos com uma proposta e um material didático para a Educação Infantil que equivale à atual 1.ª série do Ensino Fundamental de algumas escolas. Trabalhamos o conteúdo e as partes cognitiva, psicomotora, lúdica etc. Acredito que a criança já pode e deve conviver com o mundo letrado na Educação Infantil. Aqui, ela já começa a ler nessa época, mas não somente a ‘decodificar o código’, pois é estimulada a entender o que aquilo quer dizer. Se fizermos um trabalho puramente lúdico nessa primeira etapa, haverá um grande choque no momento em que tivermos de repassar os conteúdos a ela.”

 

“Nosso 1.º ano do Ensino Fundamental será o ‘pré’. Não vamos alfabetizar crianças de 6 anos. A questão não é o fato de elas terem ou não capacidade para serem alfabetizadas, mas, sim, que tipo de alfabetização seria oferecida a elas. Alfabetização é um processo. Se eu tentar simplesmente alfabetizar uma criança de 6 anos da maneira tradicional, estarei roubando sua infância.”

“O valor de oferecer Pré-Escola para todos é possibilitar às crianças chegarem aos 7 anos com um desenvolvimento melhor e já tendo passado pelo processo de inserção no ambiente alfabetizador. Nós, de certa forma, faremos uma espécie de preparação para a alfabetização, mas não vamos ‘usar cadernos’. Será muito mais um trabalho lúdico, que vai possibilitar a elas adquirir prazer pelo mundo letrado.”

“A Prefeitura de Esteio está universalizando o acesso ao 1.º ano do Ensino Fundamental, a antiga Pré-Escola, já neste ano. Temos 30 turmas abertas.”

“O maior desafio é a formação dos educadores. Estamos trabalhando nisso desde o segundo semestre do ano passado. E, no primeiro encontro que tivemos com os professores em 2006, tratamos de questões relacionadas à infância, o que, na minha opinião, é o mais importante. Discutimos também a questão da alfabetização, sobre o que cabe ao 1.º e ao 2.º anos. Fizemos encontros, oficinas e estimulamos a troca de experiências entre os educadores, por meio de reuniões pedagógicas semanais.”

Magela Lidner Formiga
Secretária municipal de Educação e Esportes
Esteio - RS

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