25/08/2006 Por César Munhoz
Comentários de Josemara Boiko e Júlio Cezar Winkler (Geografia) e Sandro
Ferreira (Física)
Foto:
NASA, ESA, H. Weaver (JHU/APL), A. Stern (SwRI), and the HST Pluto Companion
Search Team
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de Plutão e suas luas, feita pelo telescópio Hubble.
Até o dia 24 de agosto, a definição de planeta vigente era: “Corpo celeste
compacto, sem luz própria, relativamente frio, que gira em torno de uma estrela
em órbita quase sempre elíptica. São nove os planetas que giram em torno do
Sol: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão.”
(Fonte: MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. In: Dicionário enciclopédico
de astronomia e astronáutica. [Rio de Janeiro]:[Editora Nova Fronteira],
[1987].)
Conforme anunciou a União Astronômica Internacional (UAI), esse conceito
acaba de cair por terra. Em decisão tomada na 26.ª assembléia geral dessa
instituição, em Praga, na República Tcheca, ficou estabelecido que o Sistema
Solar agora tem apenas oito planetas — Plutão não se enquadra mais nessa categoria.
A reunião envolveu mais de 2.500 especialistas de 75 países, que concluíram
que, por não ser o objeto dominante em sua vizinhança, Plutão não deve ser
considerado um dos principais astros do Sistema Solar, mas um "planeta-anão".
Entenda a nova classificação dos
astros do Sistema Solar
A União Astronômica Internacional (IAU) decidiu classificar
os planetas e outros objetos celestes do Sistema Solar em três categorias:
planeta, planeta-anão e pequenos corpos.
De acordo com a nova resolução, um planeta é um
corpo celeste que:
- orbita em torno do Sol;
- tem massa suficientemente grande a ponto de sua gravidade superar suas
forças internas de resistência e o manter em equilíbrio
hidrostático, o que lhe dá uma forma quase esférica;
- é o objeto dominante na vizinhança de sua órbita;
- não é um satélite.
Plutão não se enquadra nessa definição porque
o objeto dominante na vizinhança de sua órbita é
Netuno. Ele passa agora à nova categoria de planeta-anão,
bem como Ceres e 2003UB313, que está sendo chamado provisoriamente
de Xena. Além disso, Plutão é o protótipo
de uma nova categoria de objetos transnetunianos (isto é, que se
encontram além de Netuno), que será chamada de “objetos
plutonianos”. Um planeta-anão é um corpo celeste que
orbita em torno do Sol, tem massa suficiente para que a gravidade o mantenha
em equilíbrio hidrostático e não é o objeto
dominante na vizinhança de sua órbita nem um satélite.
Todos os demais objetos que orbitam em torno do Sol são chamados
de “pequenos corpos do Sistema Solar”.
Além disso, IAU resolveu acrescentar o termo clássico
à palavra planeta. Dessa forma, os planetas clássicos
são Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter,
Saturno, Urano e Netuno.
A polêmica sobre a classificação de Plutão começou logo depois de sua descoberta,
em 1930, pelo norte-americano Clyde Tombaugh. Uma das principais dúvidas recaía
sobre seu tamanho. Nas últimas décadas, praticamente todos os anos, os astrônomos
descobriam que ele era cada vez menor. Hoje, imagina-se que tenha 2.300 quilômetros
de diâmetro (sendo menor que a Lua terrestre, que tem 3.480 quilômetros).
Histórico da descoberta dos planetas
Em 1610, o astrônomo Galileu Galilei (1564-1642), usando uma luneta
que ele mesmo construiu baseando-se na notícia da invenção
de um instrumento similar na Holanda, fez diversas observações
do céu que levaram a importantes descobertas sobre os corpos do Sistema
Solar.
O planeta Mercúrio já era conhecido desde a época dos sumérios
(3000 a.C.), entretanto, alguns estudiosos creditam sua descoberta a Galileu,
uma vez que foi ele quem fez as primeiras observações telescópicas desse
astro. Mercúrio recebeu esse nome provavelmente pelo fato de mover-se
rapidamente no espaço, sendo o planeta mais próximo do Sol e o oitavo
em tamanho.
Vênus é conhecido desde os tempos pré-históricos, mas não se
sabe ao certo quem o descobriu, e talvez tenha esse nome por ser o mais
brilhante de todos os astros conhecidos na Antiguidade. Em tamanho é o
sexto maior, e o segundo planeta desde o Sol.
A Terra é o único planeta cujo nome em inglês não tem raízes
na mitologia grega ou romana. Foi somente no século XVI, por meio dos
estudos de Nicolau Copérnico, que se compreendeu que a Terra era apenas
mais um planeta e não o centro do Universo. É o terceiro planeta em relação
ao Sol e o quinto em tamanho.
Marte já era conhecido desde os tempos pré-históricos. Seu nome
se deve a sua cor vermelha, por isso, também é chamado de Planeta Vermelho.
É o quarto desde o Sol e o sétimo em tamanho.
Júpiter é o quarto objeto mais brilhante no céu depois do Sol,
da Lua e de Vênus. Em alguns períodos, Marte é que adquire mais brilho.
Júpiter é conhecido desde os tempos pré-históricos, mas sua descoberta
também é creditada a Galileu, que em 1610 fez relatos sobre as quatro
luas de Júpiter: Io, Europa, Ganimedes e Calisto. Ocupa a quinta posição
em relação ao Sol, sendo o maior de todos os planetas.
Saturno também é conhecido desde os tempos pré-históricos. Galileu
foi o primeiro a observá-lo com um telescópio, em 1610. E foi somente
em 1659 que Christiaan Huygens determinou corretamente a geometria de
seus anéis, que permaneceram como fenômeno único no Sistema Solar até
1977, quando anéis de fraca intensidade foram descobertos ao redor de
Urano e, pouco depois, em torno de Júpiter e Netuno. É o sexto planeta
desde o Sol e o segundo em tamanho.
Urano foi o primeiro planeta descoberto nos tempos modernos por
William Herschel, enquanto este observava o céu com um telescópio, em
1781. Herschel deu-lhe o nome de Georgium Sidus ou Planeta Georgian,
em homenagem a seu patrono, o rei George III da Inglaterra. O nome Urano
foi primeiramente proposto em conformidade com os outros nomes dos planetas
da mitologia clássica, mas não caiu no uso comum até 1850. Ocupa a sexta
posição em relação ao Sol e é o terceiro maior em tamanho.
Netuno foi observado inicialmente por Galle, em 1846, exatamente
no ponto previsto anteriormente por Adams e Le Verrier com cálculos baseados
nas posições de Júpiter, Saturno e Urano. Uma disputa internacional surgiu
entre Adams e Le Verrier em torno da prioridade da descoberta e do direito
à escolha de um nome para o novo planeta. Hoje, credita-se a ambos o mérito
da descoberta de Netuno. É o oitavo planeta desde o Sol e o quarto em
tamanho.
E, por fim, Plutão foi descoberto em 1930, ao acaso, por Clyde
W. Tombaugh, no laboratório Lowell, no Arizona, quando este fazia um cuidadoso
levantamento do céu. Talvez Plutão tenha recebido esse nome por estar
muito longe do Sol, imerso em perpétua escuridão, ou porque as letras
PL sejam as iniciais de Percival Lowell, o dono do laboratório astronômico.
Além de ser o mais distante do Sol, é de longe o menor de todos, e tem
em sua órbita três luas: Charon ou Caronte, Nix (S/2005 P1) e Hydra (S/2005
P2), as duas últimas descobertas em 2005.
O próprio conceito de planeta sempre gerou controvérsia. Outra proposta
apresentada durante o encontro da UAI sugeriu que a denominação de planeta
continuasse sendo aplicada a Plutão e ainda fosse adaptada para abranger astros
como Caronte (Charon), Ceres e Xena, mas ela não obteve a maioria dos votos.
Planeta, o astro que erra
Para entendermos a origem do termo planeta, devemos fazer uma longa
viagem no tempo, retornando à época dos primeiros astrônomos, que observavam
o céu na Grécia Antiga desprovidos de qualquer objeto óptico de aumento.
Olhando o céu profundo cravejado de pontos, eles perceberam que as estrelas
eram imóveis umas em relação às outras (ou seja, sempre mantinham as distâncias
entre elas) e que cinco pontos luminosos se movimentavam em relação ao
fundo de estrelas: ora estavam a oeste, ora a leste, ora no ponto mais
alto do céu, e algumas vezes até realizavam movimentos retrógrados, ou
seja, moviam-se para trás.
Esses pequenos pontos foram chamados de planetas, palavra derivada
do verbo grego equivalente a errar, de “errante, que se move, que
se desloca”, e nada mais eram que Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.
Foi nesse contexto que surgiu a palavra planeta: para designar
corpos celestes que se movimentam em relação ao fundo de estrelas. Além
disso, estava lançado um grande desafio, que só teve uma explicação satisfatória
no século II d.C., com o trabalho de Ptolomeu.
O tempo foi passando e a classificação de “planeta” enraizou-se cada
vez mais. Parecia claro e perfeito que os astros errantes eram planetas.
E as técnicas de observação foram melhorando. Com a invenção do telescópio,
o homem passou a ver o céu com novos olhos, que enxergavam mais longe
no espaço. Nesse momento, descobriu-se que a Terra não era o centro do
Universo, mas um astro errante, ou seja, um planeta que girava ao redor
do Sol, assim como Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.
Os aparelhos de observação continuaram sendo aprimorados e, em 1871,
Urano foi o primeiro planeta a ser descoberto com o auxílio de telescópios.
Em 1846, o planeta Netuno foi “encontrado” graças a uma meticulosa investigação
matemática, observando-se as influências de sua gravidade sobre a órbita
de Urano. E, finalmente, em 1930, foi descoberto o “planeta” Plutão. Até
o final do século XX, não havia problemas com essa classificação.
Mas questionamentos começaram a surgir com a descoberta de novos corpos
celestes, como Sedna, que fica além da órbita de Plutão. Além disso, passou-se
a buscar planetas extra-solares, ou seja, que orbitam ao redor de outras
estrelas. Foi nesse momento que a classificação de planeta exigiu uma
reformulação, pois os astrônomos não podiam classificar os novos corpos
sem um parâmetro claro.
Muita discussão entre astrônomos do mundo inteiro aconteceu, vários
tipos de classificação foram propostas e, agora, temos uma definição clara
do que é um planeta e sabemos que Plutão é um planeta-anão. Dessa forma,
o Sistema Solar passa a ter oito planetas clássicos.