Meu Professor Inesquecível
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Patricia Melo


Patricia Melo"Branca de Neve

Não ingressei na escola com alegria. Deixar a barulhenta casa dos meus pais para freqüentar um severo colégio pareceu-me uma troca desnecessária e infeliz.

Na pré-escola deram-me algumas regalias que permitiram que eu suportasse a rotina de estudante. Na primeira série, no entanto, tudo transformou-se num pesadelo. Era obrigada a usar um uniforme cinza, quente, e a professora, muito ativa e impaciente, gritava com os alunos com bastante freqüência. Isso me apavorava de tal maneira que passei a resistir à idéia de ir à escola e a preocupar seriamente meus pais.

Decidiram me mudar de turma. Foi então que conheci a professora Maria Arão. Ainda hoje me lembro dela como uma espécie de Branca de Neve madura. Cabelos muito negros, pele muito branca, uma doçura infinita e uma paciência infindável.

Usava blusas de seda branca e saias longas, exalava um perfume doce, delicado, e era amada por todas as crianças da classe.

Com ela, fazíamos em classe o mesmo tipo de atividade adotado pela outra professora, a brava, as mesmas lições, os mesmos ditados, os mesmos deveres de casa. No entanto, o bê-á-bá de Maria Arão era agradável e estimulante. Maria Arão fazia tudo com amor e assim nos tornava melhores.

Adolescente, mudei de cidade. Nunca mais encontrei-me com Maria Arão. Nunca tive a oportunidade de dizer o quanto lhe sou grata. Ainda hoje penso nela com enorme carinho. Gostaria muito que ela soubesse que não foi apenas a pessoa que me alfabetizou, mas foi principalmente a mulher admirável que me ensinou a amar os estudos e a escola e que me mostrou como é importante termos paixão pelo nosso ofício.

Muito obrigada, Maria Arão."




Patrícia Melo é paulistana e é uma das mais respeitadas escritoras do Brasil. Sua obra já foi lançada em nove países e, em seus três primeiros romances, Acqua Toffana (1994), Matador (1995) e Elogio da Mentira (1998), dedicou-se a investigar a mente de criminosos.

Inferno, é o livro mais denso e arrojado da autora. Em 376 páginas, ela traça um rico painel de personagens do Rio de Janeiro. O protagonista da epopéia carioca é Reizinho, um moleque de 11 anos ex-viciado em crack que se torna traficante no Morro do Berimbau. No olhar que lança sobre a metrópole injusta — do apartamento em bairro famoso aos barracos na favela —, ela exibe a violência em suas várias faces e disfarces.

Patrícia Melo estreou como autora teatral com a peça Duas Mulheres e um Cadáver (2000), com Fernanda Torres e Débora Bloch no elenco e, como roteirista, já transformou literatura em cinema. Alguns de seus roteiros são: O Xangô de Baker Street, de Jô Soares e O Caso Morel e Bufo & Spallanzani, que são baseados em obras de Rubem Fonseca.

A admiração de Patrícia por Rubem Fonseca é recíproca. É ele quem assina a adaptação do livro Matador para o cinema.