A lenda de Sete Cidades
 

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Lendas de princesas e príncipes que viraram pedra, histórias de feitiçarias, assombrações e até de óvnis e extraterrestres, tudo isso no meio de uma imensa obra de arte esculpida pela chuva e pelo vento ao longo de 150 milhões de anos e dividida por Sete Cidades.

Ao percorrer os quase 12 km de trilhas e caminhos do Parque Nacional de Sete Cidades, o turista pode ver bem de perto as maravilhas que o tempo e a erosão podem fazer. Basta se distanciar um pouco de um morro para ver um lindo e gigantesco elefante cinza adormecido. Mais alguns passos e é a vez de apreciar um cachorro. Já o casco da tartaruga totalmente desenhado fica para trás há alguns metros.

À medida que caminhamos, imagens como a Esfinge, o perfil de Dom Pedro I, o Galo de Briga, os Reis Magos, o Boi Adormecido e a Biblioteca vão se descortinando bem em frente aos nossos olhos, tudo em pedra, como manda a lenda e o feitiço local. Aos poucos, meio contaminados, meio encantados, vamos nos envolvendo com esse mundo de formas e imaginação. "Aqui se costuma dizer que não se deve olhar, mas ver, ver com a criatividade e imaginar. Assim, o passeio fica bem mais atraente", diz o condutor de visitantes, Islando Gomes de Brito, 23 anos.

Mesmo os mais céticos, que não gostam de "ver" nem imaginar, não conseguem ficar alheios à capacidade da natureza em esculpir placas poligonais perfeitas nas encostas das montanhas de arenito erudito (nome da rocha que compõe as esculturas naturais). Alguns desses polígonos lembram escamas de peixes, outros fazem o desenho quase perfeito dos cascos das tartarugas. Já no topo dos morros, predominam pequenas crateras onde os pingos da chuva provocam o mesmo efeito que os pequenos meteoros provocaram na superfície da Lua.

Como se não bastasse tanta beleza e curiosidades para todos os lados que se olhe, o visitante mais atento poderá viajar também a um passado não tão longínquo quanto ao das formas nas pedras ao deparar com as pinturas rupestres feitas pelos índios tabajaras entre 5 e 10 mil anos atrás.

Assim como a obra da natureza, os desenhos do homem também trazem maravilhas, cultura e curiosidades inexplicáveis. "Segundo os estudiosos que vêm aqui, neste sítio o pajé e o lagarto foram desenhados próximos porque os índios acreditavam que ao desenhar o animal seria mais fácil caçá-lo", explica nosso guia. Mas, quando perguntamos sobre o desenho que lembra um avião, feito há mais de 5 mil anos, não há resposta. "Outra coisa que chama a atenção são aqueles riscos ali. Alguns pesquisadores dizem se tratar de hieróglifos fenícios. Dizem que eles passaram por aqui há muitos e muitos anos", diz Islando.

Alguns passos a mais e a conversa novamente desvirtua e voltamos a caminhar entre as lendas locais. Não fosse termos sorte de o dia estar nublado, arriscaria dizer que era obra do Sol, fervendo nossos miolos. Afinal, já estamos escalando e caminhando há mais de três horas em um clima "frio", que "não deve passar dos 33 graus. Sorte de vocês pegar um dia frio assim", diz Islando com aparência de quem não está brincando. E realmente não está. Em Sete Cidades, em dias de céu limpo e pouco vento, a temperatura pode chegar a 43 graus.

O Arco do Triunfo e a Cobra Gigante

"Dizem que antes de passar pelo Arco do Triunfo, se você fizer três pedidos, eles serão atendidos", afirma nosso guia. Assim que chegamos ao outro lado do arco, a surpresa: "Olhem bem para o arco, prestem atenção no que pediram, pois aqui começa a mais importante das lendas de Sete Cidades".

Apesar do dia frio com seus 33 graus, o final da manhã pede um rápido descanso e alguns goles de água e abre espaço para outras histórias de potes de ouro e assombrações locais. Mas cuidado para durante a conversa não tomar muita água, porque ela fará falta nos 8 km que ainda restam.

Estamos novamente na trilha e, quando os sinais de cansaço começam a se fazer presentes e minha filha Mayara, 8 anos, pede que eu a carregue nas costas pela primeira vez, novas curiosidades servem para animar a equipe. Algumas atrações, agora, chegam na tradução da flora e fauna locais. Mais do que pedra, Sete Cidades tem também veados, preás, cotias, mocós, tatus e onças e uma flora que abrange o cerrado e a caatinga. "Esta é a sambaíba. Suas folhas são tão ásperas que, no passado, antes de Sete Cidades virar parque nacional, eram usadas pelos moradores daqui para arear as panelas. Outro exemplo de árvore que ajudava no dia-a-dia da comunidade é o bartimão. Sua casca, rica em tanino, era usada para ajudar a cicatrizar feridas profundas".

Andamos mais alguns metros e estamos novamente em contato com outra lenda regional ao depararmos com uma imensa rocha em formato de cobra. "Esta cobra petrificada era a rainha feiticeira que tentou encantar a princesa da cidade 4. Mas sua maldade e seu poder eram tantos, que o feitiço acabou petrificando todas as sete cidades da região", diz Islando.

Por coincidência, logo abaixo da cobra/feiticeira está a biblioteca (paredões onde a água esculpiu traços e fissuras que lembram antigos pergaminhos), símbolo do conhecimento das antigas feiticeiras.
Cinco horas de caminhada e chegamos à cidade 3, onde o místico dá lugar à religiosidade cristã. No passado, antes de Sete Cidades virar Parque Nacional, era aqui que a comunidade se reunia para cultos, missas e rezas. Não é para menos, afinal, o pequeno descampado que servia como salão está localizado exatamente entre O Dedo de Deus, Os Reis Magos e o Morro do Oratório.

É aqui também que natureza e homem se juntam para mais um acontecimento no mínimo curioso. Nos solstícios de inverno e verão (22/06 e 22/12), os primeiros raios de sol entram por um buraco que há na rocha e incidem sobre pinturas rupestres feitas no topo de outro paredão. Um conhecimento dos povos antigos que, até hoje, ocupa pesquisadores de diferentes regiões do planeta.

Vencidos oito quilômetros de trilhas, o cansaço se faz definitivamente presente. A vontade é de que o passeio termine ali, mesmo que ainda falte ver a sétima cidade. Mas não adianta desistir, ainda faltam 3.900 metros a vencer. O jeito é relaxar e desfrutar ao máximo da piscina natural, conhecida como Olho D'água dos Milagres. Segundo nosso guia, esse nome se deve ao fato de, no passado, um pequeno poço que existia no local ter salvado a vida de um grupo de pessoas que passava por ali e que já estava quase morrendo de sede e também porque, independente da seca que aflija a região, esse poço jamais seca. Já para o nosso grupo, o milagre está no seu poder de regeneração. Bastaram alguns minutos imersos na água fria e natural, para que o cansaço do corpo e o desânimo arrefecessem e nossa curiosidade e vontade de continuar o passeio voltassem a nos dominar. Um ânimo que, para Mayara, durou apenas 500 metros. A partir daí, tive de carregar minha corajosa e pequena companheira de aventuras nas costas.

Em cinco anos de viagens pelo litoral brasileiro com minha família, poucos foram os passeios em que estivessem envolvidos tantos sentidos e sensações. Para quem gosta de aventura, trekking e esoterismo, esse é um roteiro quase obrigatório.

 

O Arco do Triunfo - o fim do feitiço das cidades de pedra

Como destacou nosso guia durante o passeio, ao visitar Sete Cidades e cruzar o Arco do Triunfo, muito cuidado com seus desejos! Eles podem ser a chave de uma outra maneira de quebrar o encanto e permitir que os moradores de Sete Cidades voltem à vida. O que ninguém sabe é se por esse caminho as outras cidades estariam condenadas à petrificação.

No dia em que um turista forte, valente, de coração puro e sensível o suficiente para perceber os encantamentos que envolvem as Sete Cidades passar por baixo do Arco do Triunfo, o feitiço que mantém as cidades petrificadas poderá ser quebrado.

Para que isso ocorra, basta que, em vez de realizar pedidos voltados para os desejos pessoais, ligados ao seu mundo real, ele deseje libertar a princesa e seus seguidores. Com um pouco de amor, determinação e as palavras certas, a vida pode voltar a todos os seres de pedra que habitam a região. "O primeiro pedido que deve ser feito é a capacidade de ver e entender a magia realizada pela rainha feiticeira. No segundo, o turista deve pedir a arma certa para matar o dragão que está petrificado próximo ao caminho das cidades e, por último, deve pedir que a princesa seja desencantada. Aí, o turista deve enfrentar o dragão e, se conseguir vencê-lo, poderá escolher entre deixar a princesa comandar as cidades com seu príncipe ou se casar com ela e passar a ser o novo rei da região", diz nosso guia. (volta)

 

Potes de ouro, fantasmas e outras assombrações

Conta a lenda que, ao cair da tarde, logo após a passagem pelo Arco do Triunfo, é muito comum aparecerem clarões azuis, como um fogo que não queima. Cada clarão simboliza um espírito perdido que enterrou um pote de ouro e que agora busca alguém que o desenterre para que sua alma possa descansar em paz. Enquanto o ouro permanecer enterrado, a alma do proprietário ficará vagando pela terra.
"Uma vez, uma alma disse para minha mãe, em sonho, onde havia enterrado as jóias de sua família. Minha mãe não deu atenção, então a alma foi até o Raimundo Elias e disse a ele. Raimundo foi até o local e realmente achou o pote cheio de coisas preciosas. Só que, para ficar com as riquezas, tinha uma condição: precisava ir embora da região. Raimundo virou fazendeiro e viveu por alguns anos em outras partes do Piauí. Mas sentiu saudade de casa e, como já havia passado um tempo desde que tinha achado o ouro, decidiu voltar. Assim que voltou, morreu do coração. O povo diz que isso é por causa da maldição que vem acompanhada por esse tipo de tesouro", diz Islando.

O condutor de turistas, José Carlos Ferreira de Souza, 26 anos, que há 13 trabalha no Parque, lembra que numa tarde foi tirar fotos das pinturas rupestres no sítio da Mão dos Seis Dedos. Como o clima estava ameno, decidiu descansar um pouco. O tempo passou e, no final da tarde, começou a ouvir alguns barulhos que vinham das lixeiras. "Pensei que fosse algum animal, uma onça mexendo nas tampas, mas, quando cheguei perto, parou. Não havia nada em volta. Quando dei as costas, as tampas começaram a levantar e cair, fazendo o maior barulho. O medo foi tanto que nem olhei para trás. Comecei a correr o mais rápido possível e só parei três quilômetros depois, quando cheguei à sede do Ibama, no parque", lembra o condutor de turistas, que nem pensa em andar pelo parque após o cair da tarde. "Outro dia, um veado pulou na minha frente e eu andava tão assustado que corri para um lado e ele para o outro", lembra. (volta)

 

A lenda

Sete Cidades são sete conjuntos de grandes estruturas de pedra no meio da caatinga. Eles receberam esse nome porque uma das estruturas, quando vista de cima do mirante, o ponto mais alto do lugar, parece a ruína de um castelo.

Conta a lenda que cada um desses conjuntos, em tempos muito antigos, era realmente uma cidade. Mas, um dia, o príncipe da cidade 2 - da qual faz parte o castelo -, que era a mais rica da região, apaixonou-se pela princesa da cidade 4, que era bem menor e pobre. Essa diferença dos reinos fez com que a rainha, mãe do príncipe, fosse contra o namoro. Como o casal continuou se encontrando, ela apelou para o sobrenatural e jogou na princesa uma maldição, transformando-a em lagarto e, depois, em pedra. Mas sua maldade era tão grande que a maldição recaiu sobre toda a região, transformando as sete cidades em pedra. O príncipe e a princesa têm a forma de lagartos de frente um para o outro, bem próximos, quase se beijando. Segundo a lenda, no dia em que os lábios dos dois lagartos se encontrarem, a maldição será quebrada e as sete cidades voltarão à vida. O poder do amor do príncipe e da princesa é tanto que até mesmo a rainha feiticeira, que hoje é uma gigantesca cobra de pedra, nesse dia, também voltará a viver.

A quebra do encanto, que promete ser festejada por todos os seres das sete cidades, apavora alguns moradores dos municípios vizinhos. De acordo com a lenda, no dia em que isso acontecer, as sete cidades vizinhas e seus moradores serão transformados em pedra. "Essa crença é tão forte que, às vezes, a gente tem que segurar alguns visitantes que tentam quebrar a cabeça dos lagartos. Eles dizem que, com o passar dos anos, os lagartos de pedra estão se aproximando e não querem correr o risco de que a profecia se cumpra", diz Islando, o condutor de visitantes que nos acompanhou.

Mas... quando vocês visitarem Sete Cidades e cruzarem o Arco do Triunfo, atenção aos seus desejos! Eles podem ser a chave de uma outra maneira de quebrar o encanto e permitir que os moradores de Sete Cidades voltem à vida. O que ninguém sabe é se por esse caminho as outras cidades estariam condenadas à petrificação. (volta)

Escravidão ambiental

"Aqui se costuma dizer que não se deve olhar, mas ver, ver com criatividade e imaginar". A frase, que soa como um convite para imaginar as formas nas pedras, ganhou contornos tão fortes entre os guias, ou melhor, "condutores de turistas", que até o pagamento mensal pelo trabalho exige desses trabalhadores muita imaginação.
Para receber e orientar os turistas em passeios pelo parque, ajudar na conservação do patrimônio histórico local, evitar que visitantes mal-educados danifiquem as pinturas rupestres, alertar a brigada de incêndios e tantos outros serviços de manutenção do Parque Nacional, cada um dos 31 integrantes da Associação Eco-turismo do Meio Norte, que reúne os condutores de turistas de Sete Cidades, ganha cerca de R$40 por mês. Às vezes, um pouco mais, outras menos do que isso. Mesmo em julho, mês de maior número de visitações ao parque, o pagamento chega a um salário mínimo.

Ao invés de apoiar a associação, ou mesmo garantir uma ajuda de custo a esses trabalhadores, como acontecia no passado, o Ibama ainda obriga os condutores a comprar e usar uniformes e a fazer a faxina da sede, sem oferecer nem mesmo os produtos de limpeza. No parque, até o botijão de gás fica por conta da associação.

"Antigamente, a gente conseguia um pouco de dinheiro com a venda de camisetas, mas, agora, até isso somos proibidos de fazer. Hoje, qualquer venda só pode ser feita pela empresa que ganhou a concorrência. Tentamos vender alguns artesanatos para essa empresa, mas ela não aceitou", diz um dos condutores. Sem muitas opções na região, alguns desses trabalhadores já vivem desse subemprego há mais de treze anos. E pior: sem perspectivas de melhora.

Os doze quilômetros de caminhada num sol de rachar, com temperaturas que podem chegar a 43 graus Celsius, pedem, no meio do caminho, uma barraca onde os visitantes possam comprar água ou suco. Um filão que os "guias" gostariam de explorar, mas também estão proibidos de fazê-lo. "Desse jeito, perde o turista e perdemos nós", diz um dos condutores, que pede para não ser identificado por temer possíveis represálias.

Diante da necessidade e da falta de estrutura local, idéias não faltam, mas a maioria morre no papel. Às vezes, pela simples proibição; outras tantas, pela escassez de apoio. Esse comportamento dos coordenadores do Ibama quase inviabiliza até mesmo o trabalho que os condutores podem fazer. "Uma vez, conseguimos a promessa de um curso de inglês, mas ficou quase que só na promessa, pois foi dado o primeiro módulo e os professores não voltaram mais", lembra outro condutor.

Sem dinheiro para pagar aulas particulares, os trabalhadores, muitas vezes, após quatro ou cinco horas de caminhada, não recebem nem mesmo a taxa mínima dos turistas estrangeiros. "Eles dizem que, como não sabemos falar inglês, eles não entendem o que estamos falando e saem sem pagar. Outras vezes, por não deixarmos as pessoas passarem a mão nas pinturas rupestres, elas se zangam, nos xingam e não pagam a taxa de R$ 20,00. Mesmo tendo trabalhado o dia todo, como a ordem é de que o turista tem sempre razão, não podemos exigir o pagamento e aí temos mais um dia perdido".

Após doze quilômetros de caminhada, do contato com as lendas locais, com as histórias de assombrações e feitiços que envolvem as Sete Cidades, fica no ar a impressão de que a maior magia mesmo é feita por esses trabalhadores, que têm de sustentar suas famílias com mirrados R$ 40 por mês. Fica também uma sensação de que pior do que transformar príncipes e princesas em pedras e lagartos é a falta de sensibilidade administrativa que permite a um órgão público explorar de tal forma a falta de condições de uma comunidade carente como a das cercanias do Parque Nacional das Sete Cidades.

 
 
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