

A frase acima é do presidente da Bike Brasil, Bill Presada, no artigo “Como deixar o carro”, disponível no site da instituição. Nesse texto, ele comenta sobre como a cultura do carro como símbolo de status está presente em nosso dia a dia. Segundo Bill, a maioria da população hoje vê o ciclista de três formas: é pobre, porque não tem dinheiro para comprar um carro; se tem dinheiro, é burro: por que não compra um carro?; é “excêntrico”.
“Eu já fui chamado de tudo isso”, conta ele. “Nossa vida moderna gira em torno do carro. Você não é ninguém se não tiver carro.” Quem não gostaria de ganhar um carro ao passar no vestibular? Essa é uma prática comum na família brasileira, vista como um rito de passagem para a fase adulta. A mensagem costuma ser: “Agora você tem carro, tem autonomia”. Mal sabemos que, ao adquirirmos um carro, estamos justamente nos comprometendo com um círculo vicioso que envolve a nossa dependência de combustíveis fósseis, a piora do trânsito e o aumento da poluição das cidades em que vivemos. Não é que os carros deveriam deixar de existir. Afinal, há quem precise mesmo de um. Para um deficiente físico, seu carro adaptado pode ser a única forma de locomoção entre grandes distâncias. E o que fazer quando você precisa chegar àquela reunião todo arrumadinho? Pega o carro, é claro. Mas ele é realmente necessário em todos os dias da sua vida? “Eu ando de bicicleta, sou ciclista, mas gosto do carro também. Mas eu consigo sobreviver dentro do contexto urbano com a bicicleta, mesmo com todas essas pressões que a gente sofre.”
As pressões de que Bill fala vêm de todos os lados. Da falta de infraestrutura, da violência urbana, da falta de educação para o trânsito, mas vêm também dos nossos próprios valores, de tudo aquilo que aprendemos desde pequenos vivendo nessa sociedade regrada pelo automóvel. “Se você vai adotar a bicicleta como meio de transporte ou tentar usá-la em conjunto com outros meios, isso requer uma mudança de valores, uma mudança de vida. A bicicleta vai mudar sua vida radicalmente. A percepção de tempo muda. Você vai sofrer muita pressão da sociedade, que achará que você é burro, pobre ou excêntrico. Então, é preciso ter uma personalidade forte. Em compensação, você vai ganhar qualidade de vida.”
Tem programa, mas não tem verba
Desde 2004, o programa Bicicleta Brasil visa sensibilizar a sociedade e os governos para o uso da bicicleta como meio de transporte. Mas, como explica Paula Nogueira, da Secretaria de Transportes e Mobilidade do Ministério das Cidades, órgão responsável pelo programa, ele oferece apenas um apoio indireto. “Não temos uma verba específica para o programa. Conseguimos verba por meio de outros programas, como o Pró-Mobilidade Urbana e o Pró-Transporte.”
Uma forma de transformar a opinião pública tem sido as bicicletadas, megaeventos que ocorrem simultaneamente em mais de 200 cidades do mundo e já contagiam o Brasil. A jornalista Mariana Sanchez é uma das pioneiras nesse sentido. Em 2005, ela promoveu, junto com amigos, a primeira edição da Bicicletada Curitiba, que hoje conta com mais de 200 participantes e é uma das mais expressivas do país.
“Do ponto de vista do ativismo político, o Brasil vai bem, obrigado. Em São Paulo, Curitiba, Brasília, Maceió, Vitória, Campo Grande e outras cidades brasileiras, ciclistas organizados têm feito manifestações constantes para sensibilizar a comunidade. Já do ponto de vista da esfera pública, vamos muito mal”, lamenta. “Em setembro de 2007, no Dia Mundial sem Carro, um grupo de 50 ciclistas e moradores de um certo bairro de Curitiba decidiu pintar uma ciclofaixa simbólica por conta própria em uma via da cidade. Era um ato a favor da mobilidade sustentável e também uma maneira de chamar a atenção do governo e da sociedade para o problema da falta de segurança para os usuários da bicicleta, que se arriscam diariamente na capital. Resultado: a Guarda Municipal deteve 3 pessoas, que foram escoltadas até a Delegacia do Meio Ambiente sob a acusação de crime ambiental. A ciclofaixa foi apagada e refeita pela galera no mês seguinte e, no final do ano passado, os ativistas receberam da Prefeitura de Curitiba uma multa de 750 reais, além de ficarem impedidos de participar de concurso público por dois anos.”
Crime ambiental? Crime ambiental é continuar entupindo nossas ruas de carros e mais carros. O exemplo citado por Mariana mostra que, se por um lado a população brasileira está começando a mudar a sua concepção sobre a bicicleta, por outro ainda temos um longo caminho no sentido de conscientizar as autoridades. “Muitos brasileiros já foram contagiados pelo vírus do veículo limpo e alguns já estão vendo a bicicleta com outros olhos. Mas somente quando o poder público proporcionar melhores condições de infraestrutura e segurança para os ciclistas é que essas pessoas passarão a usar massivamente a bike.“