
São Paulo inaugurou, em setembro de 2008, a ciclovia Caminho Verde, que segue paralela a uma linha de metrô. Nas estações pelas quais essa ciclovia passa, há bicicletários em que qualquer pessoa pode tomar uma bicicleta emprestada de graça por uma hora. Ao ser concluído, o Caminho Verde terá 12 quilômetros de extensão. Tudo bem, ainda são ciclovias, e 12 quilômetros ainda é muito pouco, mas já é um começo, um sinal de que as autoridades estão acordando para o crescimento do número de bicicletas nas cidades brasileiras. Um levantamento feito pela Bike Brasil mostra que, só em São Paulo, há hoje 250 mil delas.
Vamos torcer para que a iniciativa da capital paulista um dia atinja patamares parecidos com os de Paris, que, desde julho de 2007, conta com o Vélib’, sistema de aluguel de bicicletas que virou modelo para o mundo. Você assina o serviço por um período determinado (o programa anual custa 29 euros) e, durante esse tempo, pode livremente tomar emprestada uma das 20 mil bicicletas disponíveis em 1.450 estações espalhadas pela cidade. A única regra é que você pode andar, no máximo, meia hora com cada bicicleta (se passar disso, é cobrada uma taxa extra). Terminado o prazo, troca-se essa bicicleta por outra e anda-se mais meia hora, e assim por diante. Isso garante que haja sempre uma bicicleta disponível em cada ponto. A ideia, que partiu da prefeitura da cidade, contou com farto apoio da iniciativa privada, que comprou todas as bicicletas e se comprometeu com a manutenção do sistema por dez anos, em troca de espaços publicitários. É a prova de que existem pessoas interessadas em investir na bicicleta como um meio de transporte.
O Vélib’ funciona muito bem, mas dois problemas têm preocupado a população: o alto número de bicicletas roubadas (3 mil só no primeiro ano de funcionamento do projeto) e os acidentes por imprudência dos motoristas, dos ciclistas e, às vezes, dos dois. “É preciso que haja educação tanto por parte do motorista quanto por parte do ciclista”, conta Bill Presada, presidente da Bike Brasil. “Um dos maiores problemas do trânsito hoje é o próprio ciclista. Muitos, em vez de andarem em linha reta, andam em zigue-zague no vão dos carros parados. Da mesma forma, o motorista também precisa estar alerta. Aqui em São Paulo, existe uma avenida em que eu sempre subo e na qual os ônibus mantêm 10 metros de distância de mim. Não me xingam, sabem conviver.”
O roubo de bicicletas chama a atenção para outro problema: a falta de segurança pública. Tecnicamente, a bicicleta é um meio de transporte mais seguro que outros, se usada corretamente e com todos os equipamentos de segurança. Mas, ao mesmo tempo, deixa o usuário mais exposto à violência das grandes cidades. “Lembro que, em São Paulo, trabalhava a 3 quilômetros de casa e pensava: ‘Nossa, seria tão bom se eu pudesse ir de bicicleta’. Mas não ia, pois tinha medo da violência. Tinha receio até de andar a pé depois que anoitecesse”, diz Carla Duc, que hoje mora em Amsterdã. Ela conta que, na Holanda, há muito roubo de bicicleta, mas quando ela está estacionada. “Quando falo em segurança pública, refiro-me à violência contra as pessoas, ao risco de você ser abordado por alguém armado enquanto anda de bicicleta. A segurança pública que protege a vida do ciclista, dos cidadãos, é que precisaria existir.”