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A questão da ocupação humana


Antes de começar a discorrer sobre a culpa do ser humano em tudo o que aconteceu, me veio a mente um pensamento: Será que uma chuva como essas em tempos pré cabralinos teria causado danos a região. É um exercício de imaginação, mas acredito que os índios já deviam sofrer com fenômenos como esse, com lavouras inundadas e até mesmo mortes. Se considerarmos apenas o meio físico e animal, com certeza grandes árvores seriam arrancadas, encostas desceriam e animais seriam mortos diante de tanta violência. Por isso, devemos considerar que somos elementos componentes da natureza e que por isso estamos sujeitos a seus efeitos devastadores, porém, a maneira como tratamos o meio em que vivemos acaba por amplificar os desastres naturais.

A pavimentação excessiva do solo faz com que a infiltração das águas das chuvas, que já é naturalmente deficiente, se torne ainda menor. O solo atua como um grande reservatório de água, que libera lentamente o volume líquido para abastecer nascentes e rios. Com a pavimentação, a água das chuvas não infiltra no solo, escorre superficialmente, chegando rapidamente as porções mais baixas do terreno causando alagamento.

O sistema de galerias pluviais, que foi citado anteriormente, poderia reduzir os alagamentos, entretanto o descaso da população, que ainda joga muito lixo nas ruas é um dos fatores que ampliam ainda mais o desastre. O lixo se acumula e quando carregado pelas enxurradas acaba por obstruir a entrada dos bueiros, impedindo que a água flua pelo sistema e chegue rapidamente ao mar.

Crédito: Carolina Gonçalves / Agência Brasil

Toneladas de lama se espalharam pelas ruas da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Os rios da cidade, na sua grande maioria foram enterrados por vias de circulação e quando estão expostos tem seu leito pavimentado para evitar a erosão, causada pela falta da mata ciliar. Isso faz com que a capacidade de drenagem dos rios seja reduzida, aumentando o risco de alagamentos tornando a água contaminada e disseminando um grande número de doenças, tendo em vista que os rios se tornaram cursos para o esgoto doméstico.

A ocupação de áreas de risco, como as íngremes encostas dos morros que cercam a região, também aumenta as proporções do desastre. Com a retirada da mata, que atua no sentido de conter a fina camada de solo sobre a rocha matriz, a possibilidade de deslizamentos cresce muito e o que vemos em cidades como Rio de Janeiro e Niterói são encostas totalmente ocupadas, por moradias irregulares, autoconstruídas, sem uma fiscalização mais intensa do poder público que deveria coibir a ocupação dessas áreas.

Crédito: Carolina Gonçalves / Agência Brasil

Desmoronamento de encosta de morro, Rio de Janeiro.

Os governos não apresentam projetos consistentes para a desocupação das encostas e quando o fazem, em número reduzido, enfrentam dificuldade com relação a relutância da população em deixar essas áreas deslocando-se para outras indicadas pela prefeitura. Acredito que é natural do ser humano enfrentar os perigos e habitar regiões de risco aparente em troca de benesses como a proximidade da fonte de seu sustento, como exemplo temos milhares de pessoas que vivem em encostas de vulcões ativos ou em áreas sujeitas a grandes terremotos em várias regiões do planeta.

Sendo assim, mas do que oferecer uma casa segura, livre de deslizamentos, é necessário oferecer para as pessoas que vivem em regiões de riscos, além de moradia, condições de vida para realizar os seus anseios e desejos, pois muitas vezes, as áreas oferecidas são distantes e carentes de possibilidade de trabalho e renda.

Um dos fatores que contribuem para isso é que as novas tecnologias de comunicação em uma sociedade em rede pedem maior transparência das ações das instituições em diversos setores como o político, empresarial e social, que ficam agora na mira da população. A transparência nestas ações é vista de forma positiva pela sociedade, e aqueles setores que se empenham em estabelecer uma conversa direta com o cidadão tendem a ser bem vistos. Por outro lado, não oferecer este diálogo com as pessoas é uma atitude condenável nos dias de hoje, tanto do ponto de vista social quanto mercadológico. 

Outro fator, ainda que se observem apenas alguns passos discretos neste sentido, é a criação de sites e portais por meio dos quais os cidadãos podem recorrer a serviços sem precisar se dirigir a vários órgãos públicos.
A quantidade de geração, circulação e publicação de conhecimentos no mundo virtual, para Lévy, faz com que se criem novos modelos de organização das cidades em que há integração de redes sociais. As pessoas hoje têm acesso a milhares de dados e informações, mas não só isso. Pensar em rede social hoje é associar diretamente a possibilidade de compartilhar informações de maneira rápida e muito abrangente.