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  3. Vida e morte no coração da Amazônia

Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza.
Terra adorada...

Sem dúvida, os versos do Hino Nacional Brasileiro caem como uma luva para descrever a Floresta Amazônica. A sensação é de que, em 1909, quando Joaquim Osório Duque Estrada escreveu essa bela poesia, ele devia estar cruzando um dos rios da Bacia Amazônica ou passeando por uma região de natureza tão exuberante quanto esta que encontramos em nossa viagem pelo Rio Amazonas e pelo Rio Negro. Afinal, no início do século passado, ainda existiam muitas áreas de florestas preservadas no Brasil.

Com 7,6 milhões de quilômetros quadrados, a mata se alastra por diferentes países. No Brasil (nosso país abriga 68% de sua área), a floresta está presente em nove estados. Esse ecossistema de dimensões continentais abriga o rio mais caudaloso do mundo e possui nada menos que 40 mil espécies de árvores catalogadas, das quais 30 mil são endêmicas, ou seja, só existem aqui.

Em um primeiro momento, pode parecer estranho que, em um site ligado ao Projeto Água, uma matéria como essa comece dando atenção principalmente à floresta e ainda se detenha por tanto tempo na importância das árvores. Mas o motivo é simples. “Você já notou como as nuvens ficam sempre em cima da mata? É raro ver nuvens sobre os rios.” Quem nos disse isso foi Edson, um companheiro de viagem, nos primeiros dias de travessia pelo Rio Amazonas. A partir desse momento, passamos a prestar mais atenção ao céu e constatamos que, realmente, o matuto tinha razão. O céu sobre a floresta está sempre bem mais carregado que acima dos rios. Bastou chegarmos a Manaus para que fôssemos pesquisar o porquê disso. A reposta veio através do livro As Aventuras de uma Gota D’Água, da editora Moderna.

Em um ecossistema tão complexo e delicado como o da Floresta Amazônica, árvores, animais e água fazem parte de uma frágil simbiose, e fica muito difícil pensar em como ficaria a região se algum dia o verde desaparecesse e nas conseqüências disso para a raça humana.

Cortar as árvores, mais do que matar a floresta e prejudicar o ciclo da água, significa impedir que o resto do mundo e gerações futuras conheçam essa riqueza ou, no mínimo, desfrutem direta ou indiretamente de seus benefícios.

Para se ter noção da importância da flora local para o planeta e, principalmente, para os seres humanos, basta ver o exemplo da nativa Iracema Gonçalves de Souza, 55, que não compra um medicamento sequer. Tudo de que precisa para cuidar da saúde dela e da família ela retira da mata. Para facilitar — evitar caminhadas em momentos de crise —, muitas das ervas medicinais, que aprendeu a cultivar e preparar, ela transferiu da floresta para o quintal de sua casa.

“Aqui, há mais de cem remédios diferentes. A mata cura as doenças do corpo e também as da alma”, diz dona Iracema, enquanto nos mostra o pau-d’alho. “Esta planta serve para tirar o Coisa Ruim”, diz. “Coisa Ruim?”, pergunto. “É! Os espíritos que deixam a cabeça das pessoas embaralhadas”, completa.

Atento à nossa curiosidade, Rui, nosso guia na floresta, chama-nos a atenção para outros “remédios naturais” que a mata guarda para gerações futuras. Navegando entre rios e igarapés da Bacia Amazônica, ele nos mostra algumas plantas medicinais.

“Esta aqui é a erva-de-passarinho, que é usada para curar o câncer de próstata. Já curou até mesmo um primo meu e, agora, está sendo estudada por cientistas do Empoa (Instituto de Pesquisas da Amazônia). Já a resina do brejeiro, quando é queimada, produz uma fumaça que é utilizada pelos índios para afastar o mosquito da dengue, a onça e o porco-do-mato. A água do cipó-ambé não deixa que o veneno de cobra se alastre pelo corpo, dando à vítima mais tempo para buscar socorro”, diz Rui.

Nosso passeio pelo interior da Floresta Amazônia durou apenas uma tarde, e a quantidade de informações que acumulamos nesse curto período me impressionou. Além de remédios naturais, os dois guias que nos acompanharam em diferentes momentos de nosso passeio pela floresta falaram sobre o Rio Negro, as estações de chuva e a importância desta para a mata, o equilíbrio da natureza e os animais e conseguiram até esclarecer dúvidas que me acompanhavam há muitos anos, como, por exemplo: por que as águas do Rio Negro têm cor de Coca-Cola?

“A água morna (28ºC) faz com que as folhas secas e as árvores que caem no rio sofram um processo de decomposição mais rápido. Esse processo libera o ácido tânico, que é o mesmo do chá em saquinho. Quando isso acontece em um grande volume, como no rio, a água fica com a cor preta”, diz Sardes Fernandes, 33, guia de floresta.

"E por que a temperatura do rio é tão elevada, a ponto de provocar transformações dessa natureza?", pergunto.

“Porque ele é quase plano e seu movimento se deve principalmente ao volume de água”, explica o guia. Enquanto o Amazonas corre entre 8 e 10 km/h em direção ao mar, o Negro segue seu curso a apenas 1,3 km/h. Segundo o guia, é também a baixa velocidade de escoamento que permite que o rio suba mais de oito metros de altura e invada boa parte da mata na época das chuvas. “As árvores, quando brotam e ainda são jovens ou pequenas, são obrigadas a sobreviver pelo menos por seis meses embaixo d’água. Isso exigiu toda uma adaptação”, diz Rui.

O volume de informações e tesouros que a floresta, a bacia e o complexo ecossistema da região guardam é tão expressivo e importante que o Massachusetts Institute of Technology (MIT), uma universidade americana especializada na formação de engenheiros e cientistas, levou 45 de seus alunos para uma excursão de seis dias pela floresta. “Além de manter contato com esse ecossistema rico e único, eles tiveram a oportunidade de ver cientistas realizando o trabalho de campo. É também um trabalho que ajuda a criar uma consciência ambiental sobre o mundo”, diz o professor Rafael Bras, 52, um dos responsáveis pelo projeto universitário.

Para os alunos, a experiência funciona como uma porta de entrada para a vida de pesquisas e projetos. Em semestres futuros, eles vão optar por uma área de atuação entre diferentes temas e, a partir daí, desenvolver projetos e teses sobre a Amazônia. “Eles podem escolher entre fazer trabalhos sobre a vida nos rios, comparar a vida de pessoas da idade deles que moram em Manaus com a de jovens de Boston, focalizar sua tese no modo de vida dos povos indígenas ou nos níveis da floresta, ou abordar outros temas”, diz Bras. Segundo o professor, devido ao sistema de cooperação que existe entre a universidade e diferentes museus americanos, é provável que muitos dos trabalhos desenvolvidos pelos alunos sejam utilizados pelos museus.

Apesar de toda essa riqueza ser capaz de manter a saúde dos nativos, ocupar museus de diferentes países e chamar a atenção de boa parte da comunidade científica mundial, a cada ano, graças à força das madeireiras, 22 mil quilômetros quadrados de floresta desaparecem do mapa brasileiro.

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