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No lugar errado

É comum que algumas espécies naturalmente transitem de um ecossistema a outro, sem causar danos aos ambientes em que se instalam, já que isso se dá de forma lenta e eventual. Mas quando causadas pela ação do homem, esse trânsito pode causar distorções irreparáveis, alterando ou simplesmente eliminando o hábitat natural de algumas espécies. É o que acontece nos casos que veremos abaixo. Entenda, a seguir, a diferença entre eles, e como estas alterações no ambiente podem afetar o processo de perda de biodiversidade.

Exóticas e indesejáveis

Foto: Guia do Meio Ambiente — Litoral de Alagoas  
O sapo-cururu (Bufo marinus), espécie muito comum no Brasil, virou praga na Austrália.

Segundo a ONU, em sua Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), é caracterizada como espécie “exótica” uma variedade que ocorre fora de sua área de distribuição natural, e como espécie “exótica invasora”, aquela que ameaça um ecossistema, um hábitat ou outra espécie. As “invasoras” podem comprometer seriamente o equilíbrio dos ecossistemas que invadem, pois alteram a dinâmica das cadeias alimentares, reproduzem-se e realizam uma competição desleal com as espécies nativas.

Existem também espécies exóticas invasoras de fungos, bactérias e até mesmo vírus. Nas espécies animais, nos casos da relação predador/presa, o grande número de predadores é razoavelmente compensado pelo número também grande de presas. Já no caso das plantas, é perfeitamente possível que uma exótica invasora acabe por destruir completamente uma comunidade de espécies nativas, conduzindo-as à extinção.

No mês de março de 2006, a cidade de Curitiba sediou a Oitava Conferência sobre Diversidade Biológica (COP8). No evento, foram discutidas medidas de controle e combate das espécies invasoras. Segundo a coordenadora do Programa Global de Espécies Invasoras (Gisp) para a América do Sul, Sílvia Ziller, da organização não-governamental The Nature Conservancy, algumas medidas simples ajudariam a evitar a invasão de espécies exóticas. Uma delas seria trocar a água de lastro dos navios em alto-mar e não nas regiões portuárias. Esse procedimento poderia ter evitado, por exemplo, a invasão do mexilhão dourado (Limnoperna fortunei), um molusco de água doce de origem asiática que tem causado sérios problemas econômicos e ambientais aos países da Bacia do Rio Paraná.

Foto: Courtesy of the U.S. Geological Survey.  
Embora muito comum em nossa culinária, o mexilhão é uma espécie invasora trazida, provavelmente, pelos navios negreiros.

Outras medidas, de acordo com Ziller, incluem aplicar spray desinfetante em aviões para matar possíveis insetos, tratar a madeira usada na fabricação de caixotes, ampliar o controle nas fronteiras e, principalmente, disseminar informações sobre espécies invasoras entre os países.

Só o Brasil identificou e catalogou cerca de 400 espécies exóticas invasoras encontradas em todo o seu território e, com base nesse relatório, será elaborado um plano de controle e combate para cada espécie em particular. A meta do COP8 é criar uma legislação internacional para definir, por exemplo, de quem é a responsabilidade e quem paga a conta em casos de invasão de espécies exóticas quando a espécie sai de um país e invade outro. É necessário também que se identifiquem e monitorem as rotas de invasão das diferentes espécies e se criem mecanismos para que os países lutem contra elas.

Animais sinantrópicos: as pragas urbanas

Ao longo da História, o homem desenvolveu técnicas de criação de animais, tanto para o fornecimento de alimentos e matéria-prima (bois, carneiros, porcos, galinhas, etc.) como para servir de transporte e companhia doméstica (cavalos, mulas, cães, gatos, aves ornamentais...). Mas o desenvolvimento humano em sociedades acabou atraindo outro grupo de animais, que embora também convivam com as pessoas, são indesejáveis e podem acarretar sérios problemas de saúde pública: os chamados animais sinantrópicos, cujas características são descritas a seguir.

Foto: Corel Stock Photos.  
Os pombos vivem nas grandes cidades, alimentados pelos próprios seres humanos, e podem transmitir doenças como a histoplasmose, que causa uma séria infecção pulmonar.

A associação dos animais sinantrópicos com o homem é desfavorável, pois eles transmitem zoonoses e contaminam alimentos e o meio ambiente. Os principais exemplos são ratos, baratas, formigas, moscas, mosquitos, aranhas, escorpiões, pulgas e piolhos.

Mas o que atrai essas espécies para o convívio humano?

Como sabemos, todo ser vivo necessita de três fatores para sobreviver: água, alimento e abrigo. A água pode ser encontrada com facilidade em nosso meio, mas o alimento e o abrigo realmente fazem com que esses animais indesejáveis se instalem ao nosso redor. Portanto, essas pragas são um produto do próprio homem, que adota hábitos incorretos de higiene, de armazenagem de alimentos e de limpeza de seus locais de residência e trabalho. Não devemos encará-los como seres que precisam ser exterminados a qualquer custo, mas como uma ameaça à saúde pública que pode ser evitada se forem adotadas medidas de prevenção.

Segundo especialistas do Centro de Controle de Zoonoses do município de São Paulo, com a chegada do verão, as pragas urbanas começam a proliferar, por isso, o melhor é se prevenir durante o inverno, época em que os filhotes são gerados. Limpeza e armazenamento dos alimentos são itens importantes para a definição de uma estratégia de combate a cupins, baratas, formigas, ratos, pombos, abelhas, pernilongos, moscas e até mesmo escorpiões. Desta forma, conhecer o que serve de alimento e abrigo para cada espécie que se pretende controlar é fundamental e facilita a adoção de medidas preventivas, mantendo os ambientes mais saudáveis e evitando o uso de produtos químicos, que podem eliminar espécies nativas e contaminar a água e o solo, provocando desequilíbrios ainda maiores.

Nas escolas, podem-se desenvolver projetos sobre animais sinantrópicos, analisando o comportamento desses seres e as maneiras mais eficazes de prevenção. Vale ressaltar que o trabalho deve sempre se concentrar em espécies sinantrópicas que podem transmitir doenças e causar danos à saúde da população presentes em sua cidade. É importante saber que não se trata de uma proposta de extermínio de animais, mas, sim, de Educação ambiental com caráter preventivo.

Como exemplo de análise que pode ser feita com este grupo de animais, vemos a seguir as características do pombo: seu modo de vida, sua alimentação e o tipo de abrigo que prefere.

Pombo (Columba palumbus)

Alimentação: Os pombos são atraídos por qualquer tipo de alimento, principalmente aqueles dados pelas pessoas. São uma espécie exótica trazida da Europa e não possuem inimigos naturais, reproduzindo-se em grande quantidade.
Abrigo: Fazem seus ninhos em telhados, torres, beirais de prédios, parques, etc.
Doenças: As fezes e a poeira dos ninhos podem causar:

    - Ornitose: infecção pulmonar;
    - Histoplasmose: infecção pulmonar;
    - Criptococose: inflamação no cérebro — meninges;
    - Salmonelose: infecção intestinal causada por alimentos contaminados;
    - Alergias: os piolhos e as penas, além de incomodarem, podem causar sérias alergias.
Danos materiais: As fezes dos pombos são muito ácidas, por isso estragam todo tipo de material (monumentos históricos, madeiras, vigas de telhados, forros, etc.) e mancham a pintura de carros e outras superfícies metálicas. Além disso, suas penas entopem ralos e calhas.
Prevenção: Antes de limpar as fezes dos pombos, molhe com água o local e proteja o nariz e a boca com um pano ou máscara. Jamais alimente os pombos (deixe que eles encontrem a própria comida) e proteja com telas os locais onde eles possam fazer seus ninhos, fazendo-os procurar outros lugares.

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