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Respeitável circo

A sina da família Orfei é tamanha que Orlando só esteve distante do picadeiro uma vez. Um derrame cerebral afastou-o por um ano da brilhante carreira de domador e o manteve longe de rugidos, garras e dentes afiados. Ele foi palhaço, malabarista, ciclista acrobático e mágico antes de entrar na jaula das feras. "Eu me sinto orgulhoso de ter dedicado a vida a essa diversão pura", gaba-se.

Se as feras lhe trouxeram glórias em todo o mundo, foram elas também que o levaram 63 vezes ao hospital e o cobriram de cicatrizes. As centenas de pontos no corpo não o impedem de admitir: "O número mais difícil que existe é o malabarismo. Passei cinco anos ensaiando todo dia, todo dia, todo dia."

Melancólico, fala dos filhos que seguiram outra profissão, da ausência de adolescentes nos espetáculos, da proliferação de trupes circenses, da crise do circo clássico e queixa-se de quem insinua que o circo maltrata seus animais. Entusiasta, lembra a alegria que é ver brotar um sorriso no rosto de uma criança e sentencia: "O Circo é imortal! O Circo foi a primeira forma de expressão artística que existiu no mundo."


O Circo Orlando Orfei é um dos mais tradicionais do mundo. O senhor poderia contar um pouco dessa história?
Vou contar brevemente a história. Em 1822, um padre católico italiano deixou a batina e se pôs a ser concertista, porque era um grande músico. No conservatório da cidade de Ferrara, encontrou uma jovem de uma grande família da cidade, a família Massari.
Os dois se apaixonaram, ele pediu a mão da moça em casamento, mas a família disse não, porque ele era um ex-padre. Então os dois fugiram, como acontece quando duas pessoas se amam, e se refugiaram em um bando de ciganos que estava viajando pela Itália naquele momento.
Três anos depois, em 1825, nasceu o primeiro Circo Orfei. Os ciganos passaram a paixão do circo, que foi repassada de pai para filho até a quinta geração, que sou eu.

Qual foi o primeiro número que o senhor apresentou no picadeiro?
No primeiro número, eu tinha 5 anos. Fui o palhacinho. Lembro que meu irmão me punha dentro de uma calça grande e fazia uma barrigona. Parecia grávido. Quando subíamos ao picadeiro, ele punha a mão dentro da barriga e me tirava para fora. E assim eu surgia, muito parecido com ele, vestido como ele, mas bem pequenininho. Esse foi o primeiro número da minha carreira: tirar um palhaço da barriga de outro. (risos)
Depois — dos 9 aos 14, 15 anos — veio o estudo para ser malabarista, que é o número mais trabalhoso sempre, sempre, sempre. Mais tarde, aprendi a andar de bicicleta e me tornei ciclista acrobático. Depois do ciclista, fiz o mágico, porque o mágico bom que tínhamos na casa foi-se embora. Então fui mágico aos 18 anos. Em 1956, um domador alemão se foi e eu entrei na jaula. Iniciei a minha carreira não sabendo que tinha tanto talento com os animais e fiz coisas que os outros não conseguiam. Domador foi a minha última profissão e me fez ficar famoso em todo o mundo.

Pelo que o senhor diz, ser malabarista é mais difícil que ser domador?
Sim. Comecei aos 9 anos e só estreei aos 14. Passei cinco anos ensaiando, todo dia, todo dia, todo dia. O número mais difícil que existe é o malabarismo. O bom malabarismo, não é? No circo, como em tudo, você será um bom artista se começar antes dos 20 anos. Mas um grande artista, não. O grande artista tem que ser como a ginasta romena Nadia Comaneci, que começou quando tinha 4 anos e conseguiu, nas Olimpíadas, fazer uma coisa nova. É assim no circo também. Se você não inicia cedo, não faz nada.

"Agradeço aos meus pais por terem me feito nascer em um circo, porque vi milhões de crianças sorridentes e pais felizes."

Não é muito duro para uma criança dedicar-se anos a fio, talvez durante toda a sua infância, para aprender uma profissão difícil como a de malabarista?
Não é duro, não. É um estudo como qualquer outro. A única coisa um pouco dura para a criança é conciliar a escola — a formação do homem — com a formação de artista, porque essas duas coisas são contemporâneas: são iniciadas aos 5, 6 anos de idade. O ideal é como na Itália, onde o Ministério da Cultura e da Educação oferece um professor pago pelo governo [que acompanha o circo]. E nós oferecemos uma carreta-escola. O menino primeiro estuda na carreta-escola e, depois, o número que vai apresentar no futuro.
Aqui, não. É preciso mandar os meninos à escola. A cada 8, 10 dias, tem que trocar de professor, de professora. É duro. Mais ou menos no último mês do ano, a gente pára em uma cidade e as crianças fazem os exames. Isso é o mais duro do circo para a criança.

Não há qualquer apoio do Ministério da Educação brasileiro aos artistas de circo em idade escolar?
Não, ele não dá nada. O único apoio que dá, eu acho que é uma lei tácita, não escrita. Em todo o mundo, os filhos do circo podem entrar na escola pública. Isso é obrigatório.

E as crianças nunca pensam em desistir do circo porque têm sempre que viajar?
É a força do nomadismo viajar. Quem viaja não pára mais. Uma senhora um dia me perguntou: "Como vocês fazem para, a cada semana ou duas, mudar de cidade?" Eu respondi: "E como você faz para ficar sempre parada no mesmo lugar?" (risos) É uma questão de costume.

É comum o senhor receber crianças e jovens interessados em se juntar ao circo porque viram um espetáculo e se encantaram?
É normal (risos). Todo menino se encanta. Só que os tempos modernos nos tiraram os adolescentes. Os adolescentes, de 14, 15 anos, não entendem mais tanto o circo. Pensam que o circo é uma diversão para as crianças - é também para as crianças porque é puro!
Eles não entendem que o circo está baseado na habilidade e na beleza de nossos filhos, que estudaram 10, 15 anos para fazer um número que, na frente do nosso respeitável público, durará cinco minutos. Dez anos de sacrifício por cinco minutos de trabalho. Isso é o circo.
O circo é feito por pessoas inteligentes, que compreendem nossos sacrifícios. Passam os anos e o adolescente, quando vira adulto, volta ao circo para trazer as crianças. E sairá mais entusiasmado que as crianças e voltará sempre, até que, um certo dia virá junto com seus netos àquele circo onde, no passado, transcorreram momentos de alegria.

É esse o maior prazer do artista de circo, despertar a criança que há em cada espectador?
Quando o público aplaude, quando ri, isso dinheiro nenhum no mundo pode pagar. Só os artistas provam essa experiência de dar alguma coisa, alguma alegria ao público. Charles Chaplin disse que os momentos mais felizes de sua vida eram aqueles em que via surgir um sorriso nos lábios de uma criança. Eu, Orlando Orfei, agradeço aos meus pais por terem me feito nascer em um circo, porque vi milhões de crianças sorridentes e pais felizes pela alegria despertada nos filhos. O Papa João XXIII disse que o circo é um apostolado de paz. Eu me sinto orgulhoso de ter dedicado a minha vida a essa diversão pura.

E seus filhos e netos também se tornaram artistas de circo?
Mais ou menos. Eles começaram no circo e depois abriram um parque de diversões no Rio de Janeiro. Eu tenho seis filhos, só uma trabalha comigo. O restante está fora. Um é engenheiro em eletrônica, outra faz diversos trabalhos... Eu tenho netos também no circo. São sete gerações dedicadas ao circo.

O senhor trouxe o Circo Orfei ao Brasil. Outras pessoas da sua família o levaram a outros países?
Eu tenho vários parentes que têm circo na Itália. Meus filhos sempre estiveram comigo, mas os filhos do meu irmão têm circos que viajam para a Europa.

A propósito, um de seus sobrinhos, Orfeu Orfei, faz um espetáculo diferente dos tradicionais. É semelhante ao que se chama Novo Circo, mais teatral, acrobático e sem animais...
Já faliu em Belo Horizonte e em outra praça. Ele trabalhou 50 anos comigo. Agora ele quer um outro circo, desgraçadamente para mim, porque fui eu que fiz grande o nome Orfei. O nome já existia, mas quem o fez grande fui eu... Eu coloquei o nome da família no circo, mas foi um grande erro. Como Orfeu é da família Orfei, ele me prejudica porque, se eu vou a uma cidade fazer cinco meses de show, as pessoas dizem: "Ah! Orfei já veio." É um grande dano para mim. Estão usando o meu nome. Não é o primeiro. Na Itália, os meus sobrinhos também fizeram isso. Ah! Deus é grande, vamos ver.

O senhor acabou não comentando essa nova proposta de espetáculo circense. O senhor acha que o circo deve continuar usando animais?
Não era Orfeu que queria isso, eram os outros. São sonhadores, porque um circo sem animais não é circo. Salve o Cirque du Soleil, que, com a ajuda do governo canadense, gasta milhões para fazer um número que não é nada. É um show de fantasia que dura vinte minutos. Minha mulher foi ver o Soleil, uma coisa grandiosa em termos de figurino, mas adormeceu. Você foi ver o meu circo? Isso é que é circo: veloz, rápido. O restante para mim é um show da moda, que pode continuar ou desaparecer. O circo clássico, como o meu, é eterno, nunca morrerá.

O senhor acabou de falar no Canadá, maior representante do Novo Circo. Há algum país com maior tradição no circo clássico?
Os países são todos iguais. Diz um provérbio italiano: "Todo mundo se parece." Quando você tem um bom espetáculo, em qualquer lugar que for, o público ri. Mas tem um inimigo que se chama proliferação dos circos. Aqui no Brasil, muita gente que não tinha circo, hoje tem. Beto Carrero, por exemplo, tem cinco. Beto Pinheiro era um vendedor de sorvete no circo e hoje tem dois circos. O ator... Como ele se chama?

Marcos Frota.
Frota também tem um circo. Surgiram 20 ou 30 que não eram circos, e os circenses brasileiros se engrandeceram. Com a proliferação dos circos, não há uma cidade para a qual você vá onde não passou um circo dois, três meses na sua frente. Antes se dizia: "Chegou o circo!" Hoje se diz: "Ah, não! Outro circo!" Esse é o dano. Essa gente que entrou está fazendo de tudo! E quem nasceu dentro do circo, que sabe tudo, não anda mais para frente, como o Vostok, que tinha dois circos e muita bilheteria. Um já fechou.

O senhor acha que essa "proliferação" está causando danos à imagem dos circos tradicionais. Já se falou, por exemplo, em maus-tratos aos animais. Qual a sua opinião de domador de feras?
Essa história de animais maltratados é uma estupidez que existe em todo o mundo. Querem retirar os animais e o fascínio dos meninos pelo circo. As pessoas são enganadas por uma mentira de gente que quer se promover. Os jornais e as televisões falam desses indivíduos e eles se sentem pessoas importantes. Você está me procurando. Não fui eu que o procurei para falar do circo. Eles, não. Eles procuram a imprensa para falar mal do circo e dos animais para se sentirem valorizados ou politizados.

Orlando Orfei mostra a pontinha do dedo médio amputada: um dos troféus dos seus 40 anos de domador.

E por que essas pessoas que querem se promover estão enganadas?
Eu digo porque estão enganadas: não se sofre por uma coisa que não se conhece. Quando eu era menino, não tinha geladeira e não sofria; não tinha forno elétrico e não me interessava. Quero dizer com isso que você não sofre por uma coisa que não conhece. Duvido que Júlio César sofresse porque não tinha carro. Os nossos animais não são presos na selva, onde os animais se massacram todo dia, um come o outro. Nossos animais comem a carne morta pelos homens no açougue. Eles não são capturados na selva, onde estavam livres, e postos na prisão, que seria a jaula. Nossos animais são de gerações e gerações que nascem no circo. Sua jaula não é a prisão, é a toca onde comem, bebem, brincam, fazem amor, têm amigos. Eles não conhecem a falta de liberdade, pois nasceram na jaula. Não é verdade que sofram pela falta da liberdade, porque não se sofre por aquilo que não se conhece. Os nossos animais não conhecem a liberdade. Um pássaro que você pega e põe na gaiola, esse, sim, sofre.

O senhor acabou de comentar que há muitas pessoas que querem se aproveitar do circo. O senhor acha que aquele mágico, o Mister M, é uma dessas pessoas?
O Mister M é um pobre coitado que pensou em ganhar dinheiro prejudicando o símbolo de fantasia dos magos. O que ele fez, a gente esquece. E com a propaganda que foi feita talvez se tenha falado de mágicos mais do que em qualquer outro momento. Mas Mister M não é nada. Ganhou dinheiro prejudicando uma categoria e, por isso, para mim, não é um bom homem. Deveria fazer dinheiro com sua habilidade de mágico, não desvendando truques inteligentes. Conhece o truque da pantera? É uma coisa interessantíssima: a mulher entra dentro de uma jaula e, ao se levantar o manto, em vez da mulher, está um leopardo. Se eu digo para você como se faz, acaba tudo, acaba todo o fascínio... Porque milagre não é, não é Cristo a fazer milagres, é um truque feito tão bem que o público gosta e se pergunta: "Mas como? Como é feito? Que fantástico!"

Com todas essas dificuldades, o senhor não se inquieta pelo futuro do circo?
Olha, as despesas são grandes, imensas... E eu estou em crise. Pode morrer um circo, mas não o Circo. Este é imortal! O circo foi a primeira forma de diversão artística que existiu no mundo. Ele se perde na noite dos tempos. Nem se sabe quando o circo nasceu. Os vestígios mais antigos são desenhos de malabaristas e mulheres sobre um cavalo ou um touro - não se sabe - que encontraram em grutas, no baixo Egito. Esses desenhos datam de 3700 a.C.
Quem sabe quando nasceu o circo? Se um artista da época pintou no muro esse desenho, é porque o circo já era desenvolvido. Não se sabe. Eu penso que o circo é a arte mais antiga de todas porque é espontâneo. O teatro, não. Precisa de alguém que escreva a peça, outro que sirva de diretor e monte o espetáculo. É muito complicado e sofisticado. O circo, não. Um menino põe a cabeça no chão, levanta os pés e, aos seis meses, já está fazendo cambalhotas. É espontâneo. Então, essa é a impressão de Orlando Orfei: o circo é o espetáculo mais antigo da humanidade. Ele deve ter nascido antes dos outros, pois é mais simples, é uma criação individual, e não coletiva como o teatro.

No passado, o circo atravessou outras crises. No Império Romano, ele foi usado com outros fins, para fazer uma política conhecida como "pão e circo"...
Tivemos um período triste em Roma. O romano, ao receber toda a cultura grega, recebeu também o circo. No início, era um circo que prezava a habilidade, mas depois degenerou e transformou-se em um espetáculo de violência que não tem nada a ver com o circo. O verdadeiro circense era aquele mambembe que trabalhava com animais, com saltos mortais e malabarismos.
No Império Romano, os mambembes foram trabalhar para os nobres, na Corte, porque o circo tinha virado uma luta de animais contra animais, homens contra animais e, depois, homens contra homens. Esse circo romano não tem nada a ver com a poesia do circo nascido em praça pública e que resistiu ao Império Romano.
Um dia o inglês Astley, um sargento da cavalaria britânica, teve a idéia de juntar, no mesmo espetáculo, os números com cavalos que ele preparava para a nobreza britânica e os saltimbancos que trabalhavam na praça pública. Em 1770 — não estou bem certo — nasceu o primeiro circo moderno, com artistas e animais. Depois, veio o alemão Hagenberg, que foi o primeiro a entrar numa jaula com animais ferozes.

Por falar em animais ferozes, tem uma coisa que eu estou reparando: o senhor tem parte do dedo amputada. Isso foi algum acidente que o senhor sofreu no circo?
Eu fui parar 63 vezes no hospital em 40 anos de carreira de domador. Geralmente, depois de dois ou três acidentes, um domador não trabalha mais. Eu continuei a trabalhar mesmo depois de 63 acidentes...

Algum deles muito grave?
Um foi. No total, me deram 180 pontos em todo o corpo, na mão, no dedo quebrado. Por que eu voltava a trabalhar? Porque eu sempre "fazia um processo" —é assim que se diz em português? — eu ficava pensando: "Por que aconteceu? Eu fiz isso, fiz aquilo outro." No final, via que a culpa era sempre minha, eu não podia dar a culpa aos animais. Eu continuei trabalhando até nas 63 vezes que fui parar no hospital, cinco em estado grave, e outras vezes com ferimentos mais leves. É o meu trabalho...
Fui o único do mundo a trabalhar com hienas. Tive que aturar aquela hiena que se vê no cinema. Eu na jaula com um chicote. Fui o único no mundo, agora já passou. Era rápido, agora estou velho, tenho 81 anos e meio, hein? Tive um derrame cerebral, que me paralisou totalmente, mas consegui sair do buraco e trabalhar de novo com as feras.
A primeira vez que entrei na jaula, um ano depois do derrame, eu disse para o público: "Desculpem-me se os movimentos não estão perfeitos, um derrame me paralisou. Foram meses na cama e na cadeira de rodas." É quando a vida de um homem parece não interessar mais. Mas comigo não foi assim. Foram horas e horas de ginástica, o que demonstra que a derrota de um homem está só na entrega. Se não se entrega, não está derrotado.