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Mas vocês prometeram... 

Onze anos após a Cúpula Mundial pela Criança, em que chefes de Estado se comprometeram a assegurar uma infância mais feliz às crianças do mundo, a maioria das 26 metas assumidas ou não foi cumprida ou foi atingida pela metade.

Capa do relatório do UNICEF

Quem nunca assistiu a essa cena? O pai ou a mãe promete um baita presente à criança que arrumar o quarto, fizer a lição ou raspar tudinho que tem no prato. Quando os pais caem na armadilha de combinar uma recompensa, a meninada logo alimenta a esperança de, quem sabe, ganhar o brinquedo dos sonhos. Já pensou a choradeira que seria se, na hora de cobrar o que foi combinado, todas as crianças descobrissem que a promessa era grande demais, que ela foi dita da boca pra fora ou, por algum motivo, não seria cumprida?

Mal comparando, é mais ou menos isso que as crianças do mundo inteiro vem sentindo nos últimos dez anos. Uma imensa frustração. Tudo porque, em setembro de 1990, chefes de Estado dos cinco continentes assumiram metas ambiciosas para os anos 90 e encheram o mundo de otimismo. Disseram que iriam reduzir drasticamente a subnutrição, a mortalidade materna e infantil, que todas as crianças teriam acesso à escola e à água potável. Falaram também que iriam melhorar a vida de crianças portadoras de deficiência, trabalhadoras, refugiadas ou envolvidas em conflitos armados, vítimas de abuso sexual ou das mais variadas formas de violência.

Mas basta ler um pouquinho do relatório assinado por Carol Bellamy, diretora-executiva do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) para ver que não foi bem isso que aconteceu. O livro se chama Situação mundial da infância 2002. Ela conta que houve progressos, sim, na defesa dos direitos da criança. O principal deles foram os milhões de vidas salvas graças à distribuição da vacina tríplice e à erradicação da pólio em 175 países. Por outro lado, ela dá um merecido puxão de orelha nos líderes nacionais que ainda permitem que mais de 600 milhões de crianças vivam na pobreza e que 100 milhões delas, a maioria meninas, estejam fora da escola.

Carol Bellamy: crianças foram "traídas".

Para mostrar como certas coisas continuam na mesma, a autora inventou uma historinha triste. Ela imaginou que uma garotinha chamada Ayodele tinha nascido bem naquele setembro de 1990, em algum vilarejo da África Ocidental. No texto, Bellamy explica por que a menina, agora com 11 anos, foi "traída". Ela diz que, se Ayodele sobreviveu aos primeiros cinco anos de vida, dois de seus irmãos morreram prematuramente, vítimas de doenças infantis que poderiam ser prevenidas ou tratadas facilmente, e que não houve incentivo algum ao seu potencial de aprendizagem. Ayodele continua sem saber ler, escrever ou fazer as operações básicas. No vilarejo em que mora, sequer faz idéia dos seus direitos.

Leia também a entrevista dada por Wanderson Oliveira, 15,
que fez parte de um júri internacional que elegeu
um projeto de defesa dos direitos da criança ->>