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Educação e cultura

Foto: Valter Campanato/ Agência Brasil
Apenas 1,4% dos indígenas diz seguir suas crenças tradicionais.

Por quase meio milênio, a intolerância forçou o índio a abandonar suas crenças e costumes e adotar o estilo de vida do homem branco. Somente com a Constituição de 1988, os direitos e a cultura indígenas foram reconhecidos como legítimos, mas, mesmo assim, continuam sendo desrespeitados. A voz da experiência vem do líder indígena Renato Matos: “Por causa do contato com o homem branco, com o tempo, o índio foi deixando de lado os próprios costumes. As crianças que vivem na cidade adquirem a cultura dos brancos e imitam o que vêem na televisão. Aliás, a televisão é a maior inimiga do folclore indígena, pois leva nossos pequenos índios a consumirem demais as coisas que vêm de fora”.

No último censo do IBGE, apenas 1,4% das pessoas disse seguir as crenças indígenas. A pergunta feita na pesquisa foi “Qual é a sua religião?”. Vale lembrar que muitos nativos não reconhecem suas crenças como religiões e, portanto, podem ter dito não seguir nenhuma religião — resposta que atingiu 14,4%. Mesmo assim, é um número muito baixo, que mostra o quanto a cultura indígena perdeu sua força.

A estrutura de educação também não é suficiente para atender os povos. Na maioria das aldeias, as escolas só oferecem ensino até a 4.a série. Algumas disponibilizam o ensino fundamental completo. Pouquíssimas têm o Ensino Médio.

Crianças e adolescentes indígenas na escola

fonte: IBGE — Censo 2000

• Há 2.324 escolas indígenas no Brasil;
• Em 2005, 128.824 crianças estavam matriculadas no Ensino Fundamental, mas apenas 4.749 no Ensino Médio. Isso acontece porque faltam escolas que ofereçam Ensino Médio nas aldeias. Essa é uma das principais causas que leva tantos adolescentes a abandonarem seus povos após terem cursado a 8.ª série.
Fonte: MEC/SECAD.

O preconceito contra o índio também é muito forte. Para o professor Brand, parte da culpa é da imprensa, pelo menos no Mato Grosso do Sul. “O que a imprensa diz dos índios? Que eles invadem terras de fazendeiros, que as mães não cuidam das crianças, que eles vendem as cestas básicas, bebem e cometem suicídio. Mas a mídia não indica o que está por trás dessas manchetes. Não fala das dificuldades que eles enfrentam nem lembra do violento processo de colonização da região”.

A situação vem chamando a atenção do governo, das instituições de ensino, das organizações indígenas e da própria comunidade, que já dá sinais de um retorno da valorização de seus costumes, contam Renato Mendes, do Amazonas, e Antonio Brand, do Mato Grosso do Sul.

Renato: “Aqui, os jovens do interior estão tomando um novo rumo e valorizando a própria cultura. Para isso, estão sendo trabalhados alguns projetos piloto de educação indígena diferenciada. Eles visam a formar os futuros cidadãos indígenas, para que aprendam a viver na cidade ou na aldeia sem sofrer muito com influências externas”.


Brand: “Nos últimos anos, vem acontecendo por aqui, principalmente entre os guaranis, um processo de afirmação étnica. Os indígenas estão percebendo que assumir a própria identidade é um fator politicamente relevante, que aumenta a união entre eles e lhes garante o apoio da lei. Sem falar nos projetos de ensino diferenciado”.

O próprio professor Brand participa de um projeto desse tipo, chamado Araverá, que é desenvolvido pela Secretaria de Educação do Mato Grosso do Sul em parceria com a Universidade Católica Dom Bosco e a Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. É um programa de formação diferenciada de professores índios do Ensino Médio, que dá ênfase ao estudo da língua e da história guaranis, juntamente com os conteúdos tradicionais que são ensinados a qualquer outro adolescente no Brasil. “Os professores formados pelo projeto têm cumprido um papel muito importante no debate dos problemas em suas comunidades”, conta ele. “E, agora, estão lutando para que haja um programa semelhante voltado ao Ensino Superior. Vamos montar, em parceria com os governos estadual e federal, um bacharelado em Agroecologia em Terras Indígenas, voltado exclusivamente à formação de técnicos índios, que possam ajudar na melhoria da qualidade de vida de suas comunidades”. Para Brand, são esses grupos que estão assumindo a luta por uma vida melhor que, um dia, vão pressionar o governo para que enfrente de vez o problema da terra.

O fato de ser índio nem sempre basta para que o professor possa oferecer um ensino voltado à valorização da própria cultura. “Na maioria das vezes, ele cursa o magistério convencional e volta para a aldeia com o olhar do não-índio. Então, ensina a criança a desenhar carros, aviões, coisas que, provavelmente, ela nunca verá na vida”, conta Maria Izaura, do Cimi.

O estado de Roraima manteve, entre 1993 e 2001, o programa Tami’Kan de magistério indígena, formando 470 professores nesse período. O projeto foi reativado em 2004.


 

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