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Faltam terras

No início de 2005, jornais de todo o mundo trouxeram à tona um problema gravíssimo constatado no Mato Grosso do Sul, onde se encontra a segunda maior concentração indígena do país: as crianças guarani-kaiowá da região de Dourados estavam morrendo de fome. Os noticiários seguiram tratando do problema por mais seis meses e, hoje, não tocam mais no assunto. Isso quer dizer que o problema acabou? E como a situação chegou a esse ponto?

“As mortes não acabaram, apenas deixaram de ser do interesse da imprensa”, alerta o professor Antonio Brand, que coordena o Programa Guarani-Kaiowá, da Universidade Católica Dom Bosco, do Mato Grosso do Sul. A desnutrição é uma constante na região e está ligada à falta de terras. O índio precisa de espaço para produzir seu próprio alimento e preservar seus ritos e hábitos, como sempre fez, desde antes da chegada dos europeus.

Maria Izaura, do Cimi, explica que isso acontece porque as terras dos índios estão sendo tomadas por grandes fazendeiros. “No Mato Grosso do Sul, quem manda é a ‘pata do gado’. Estima-se que cada boi tenha para si um mínimo de 3 mil hectares de terra”. E o povo guarani-kaiowá de Dourados concentra 2 mil famílias em apenas 3.500 hectares. Essa tribo tem os maiores índices de desnutrição e mortalidade infantil entre os índios no Brasil. “A invasão das terras começou na época da produção da erva-mate. Depois, veio a pecuária e, agora, nos últimos anos, a soja. Do norte do estado até o Paraguai, só vemos grandes propriedades. Não há terras para os índios e os pequenos produtores rurais. Nunca vi tanta miséria”.

Renato Matos diz que a situação é parecida na região de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. Ele, que é um dos líderes da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), conta que, mesmo lá, a terra, embora abundante, nem sempre é fértil o suficiente. “Então, de vez em quando, é preciso fazer um novo roçado, enquanto o terreno antigo descansa, o que pode levar de oito a dez anos”.


Não se pode dizer que o governo não tem tomado medidas para amenizar a miséria. “Já faz uns 5 anos que os índios daqui recebem cestas básicas. E elas são boas”, diz Brand. O problema é que o índio não tem costumes alimentares iguais aos do resto da população. Nem quanto ao tipo de alimento (os não-índios geralmente consomem produtos industrializados), nem quanto à quantidade: “Num dia, os indígenas se alimentam pouco; no outro, bastante; e chamam outras pessoas para comerem junto. É o jeito deles e deve ser respeitado”, completa o professor, reafirmando que a questão é mais complexa. “Pelo menos em nosso estado (MS), não haverá solução para a desnutrição ou para qualquer outro problema, sem a ampliação das terras. É óbvio que os grandes proprietários sempre serão contrários a isso, mas não há outra saída. O resto é paliativo”, continua ele.

Outro caso grave ocorrido em 2005 foi o do povo que vivia na reserva Ñande Ru Marangatu (MS). Ele mostra que o governo não está levando o problema das terras indígenas a sério. Depois de todo o processo de homologação ter sido concluído, o Poder Judiciário reintegrou a posse a fazendeiros. Resta saber onde vão se instalar as mais de 500 pessoas que moravam lá. Dias depois da expulsão, Dorvalino Rocha, um dos líderes desse povo, foi executado por três homens que seriam, de acordo com testemunhas, capangas de fazendeiros da região. “O Estado brasileiro é perverso. As autoridades fecham os olhos para a realidade”, denuncia Maria Izaura.

Mais que um problema de desnutrição, a questão da saúde do índio é preocupante como um todo. Ao ter sua terra invadida ou ao ter que fugir para a cidade (após ser expulso de sua reserva), ele passa a ter um contato intenso com o homem branco, o que facilita sua contaminação por doenças. A que mais assusta atualmente é a aids.

Os números oficiais da aids à primeira vista parecem pouco alarmantes: 120 casos nos últimos 10 anos, sendo 43 em gestantes. A maioria está no Maranhão, Tocantins e Mato Grosso do Sul (neste último, devido ao avanço da agroindústria na região). Mas as estatísticas não refletem a realidade.

Os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) não estão bem equipados (faltam médicos, remédios e estrutura) para detectar e tratar pacientes portadores de HIV com eficácia. Além disso, é muito complicado controlar a doença entre os povos indígenas. Seus aspectos culturais dificultam a compreensão e o uso dos métodos preventivos. “Já existe grande resistência aos métodos de prevenção entre nós, não-índios. Imagine, então, em uma outra cultura, que concebe as relações de maneira completamente diferente”, explica Maria Izaura.

Foto: Rodolfo Figueiredo/Agência Brasil
A mortalidade infantil indígena é de 50,1/mil, quase o dobro do índice nacional.

 


A saída encontrada em algumas regiões foi treinar pessoas das próprias aldeias para difundir a prevenção — assim, fica mais fácil para todos compreenderem a mensagem. Para Izaura, “os programas de saúde são até muito interessantes e corretamente elaborados, mas há muito problema na hora da implementação”. Segundo ela, isso acontece principalmente por causa da terceirização da saúde indígena. A Fundação Nacional de Saúde — Funasa —, que antes era responsável por todas as ações de saúde indígena, agora é mera repassadora de recursos, entregando as ações nas mãos de outras organizações. “Acreditamos que a Funasa também precisa trazer para si a implementação das ações. Seus dirigentes dizem que não têm pessoal suficiente, mas não importa: que abram concursos específicos para saúde indígena! Aí, sim, poderá haver uma melhora”.

 

 

• As doenças mais comuns entre crianças indígenas são as infecto-parasitárias (35,8%) — como a diarréia — e as respiratórias (29,8%);
• A que mais mata é a pneumonia (82,5% entre os menores de 5 anos e 48,2% entre os menores de 1 ano);
• São freqüentes os casos de doenças consideradas antigas e controladas — como tuberculose, malária e varicela.

Fonte: Fundação Nacional de Saúde (Funasa).

 

 

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