As crianças na "guerra" do tráfico
O pessoal da Associação dos Órfãos
Chefes de Família (AOCM) oferece amor, amizade
e cuidados às crianças que perderam seus
pais no genocídio de Ruanda, em 1994. Foi uma
verdadeira guerra, motivada por questões étnicas,
na qual mais de 1 milhão de pessoas morreram
em cerca de 100 dias (a maioria morta pelos próprios
vizinhos).
E, no Brasil, existe guerra? A resposta é sim.
Aqui, as crianças sofrem as conseqüências
da “guerra” da violência urbana, que
domina as grandes cidades do país. Um dos maiores
e mais tristes exemplos dessa guerra está nas
favelas do Rio de Janeiro, onde as pessoas vivem com
medo de traficantes de drogas e policiais corruptos,
dois lados que “mandam e desmandam” na população
pobre, matando muitas vezes pessoas inocentes —
em sua maioria, pais de família.
 |
 |
 |
 |
Como a situação
chegou a esse ponto?
O tráfico já é,
naturalmente, uma atividade relacionada
com a violência. Mas, de acordo
com Mariana Olinger, da ONG Children
in Organized Armed Violence (Coav),
a situação piorou bastante
no final dos anos 70. “Foi nessa
época que a cocaína
chegou ao Brasil, aumentando muito
o volume de dinheiro em circulação
no tráfico. Com isso, acirraram-se
as disputas entre gangues rivais,
que passaram a se armar ainda mais.
E aumentou não só a
quantidade de armas, mas também
o calibre delas. Aqui, no Rio de Janeiro,
há uma combinação
de fatores que faz com que o tráfico
seja mais violento que em outras partes
do mundo. Um deles é a geografia,
que potencializa os efeitos da desigualdade
social. Encontramos casas luxuosíssimas
ao lado de comunidades extremamente
pobres; ou seja, a desproporção
é gritante e agride a todos”,
explica.
|
|
 |
 |
 |
 |
|
| Foto: © International Labour Organization/Classet |
 |
| Sem os pais, muitas crianças
vão parar nas ruas. |
Não há dados oficiais sobre os órfãos
da violência, mas uma grande pesquisa feita pelo
jornal O Globo revelou que, somente em 2003,
pelo menos 3.415 pessoas foram assassinadas na cidade
do Rio de Janeiro: a maioria eram homens, e metade deles
deixou filhos. Desses filhos, 83% tinham menos de 17
anos. O total registrado foi de 2.985 órfãos.
Além disso, constatou-se que 52% das vítimas
morreram perto de casa.
Jailson de Souza, um dos idealizadores da ONG Observatório
de Favelas, explica que 40% das pessoas que morrem vítimas
da violência no Brasil são homens na faixa
dos 15 aos 24 anos. Levando em conta que os jovens estão
tendo filhos cada vez mais cedo, pode-se concluir que
esse é o motivo que faz com que o perfil de grande
parte das vítimas da violência seja de
pais de família. “Conheci vários
meninos na favela que infelizmente passaram a fazer
parte dessa estatística. Quase todos já
tinham filhos quando foram mortos. Muitas vezes, um
menino que é irresponsável e agressivo
acaba amadurecendo quando tem um filho. E é uma
pena que, justamente quando ele está descobrindo
o que é ser pai, acaba sendo assassinado”,
opina. Com a morte do pai, a família perde a
maior fonte de seu sustento, diminuindo assim sua qualidade
de vida.
Quando ouvimos a expressão “órfãos
da violência”, a primeira impressão
que temos é de que se trata de meninos e meninas
que ficaram nessa situação depois da morte
do pai ou da mãe. Mas, na verdade, em inúmeras
famílias — principalmente as mais pobres,
que não têm acesso a escola e saúde
— a ausência do pai é sentida desde
cedo. Diversas crianças, mesmo tendo o pai vivo,
crescem sem que ele esteja por perto (dos filhos de
“empregados” do tráfico de drogas,
por exemplo, pode-se dizer que a maioria convive com
esse trauma).
Seja por terem o pai morto ou apenas ausente, essas
crianças ficam sem chão e sem amparo.
E, vale lembrar, sem nenhum tipo de amparo, conforme
explica Mariana Olinger, da Coav. Ela diz que as escolas
não estão preparadas para acolher esses
jovens, pois nelas não há psicólogos
— muitas vezes, nem mesmo nas comunidades —,
e que os professores da rede pública atualmente
não têm estrutura para lidar com adolescentes
que apresentam traumas. “Mas não se pode
culpar os professores, porque não lhes é
dado nenhum recurso nesse sentido e, além disso,
lidam com turmas de 50 alunos, o que dificulta dar uma
assistência de qualidade“, afirma.
|