"Soldados" do tráfico
À medida que vão perdendo as perspectivas
e os vínculos com a família, a escola
e a sociedade, as crianças ficam cada vez mais
vulneráveis. Muitas entram para o caminho das
drogas, como usuárias ou “mão-de-obra”,
explica Jailson. “Principalmente as crianças
que têm parentesco ou proximidade com pessoas
que trabalham no tráfico apresentam grande chance
de ingressar nessa atividade também. Isso acontece
porque elas fazem parte de uma rede social que proporciona
o contato com pessoas ligadas ao crime. E só
10% dos meninos e meninas que hoje estão “empregados”
no tráfico tiveram a presença dos pais
em casa. A maioria teve somente o pai ou a mãe”,
relata.
| Foto: © International Labour
Organization/ Deloche P. |
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| Excluída de tudo,
a criança envolve-se no tráfico. |
Pesquisas feitas pela ONG Coav, da qual participa Mariana,
confirmam as palavras de Jailson e apresentam outros
dados. “Perguntamos aos jovens entrevistados por
que eles achavam que os adolescentes se envolviam com
o tráfico. Uma das principais respostas foi a
falta de emprego, motivada, muitas vezes, pelo preconceito
que as pessoas têm contra quem mora na favela”,
conta ela. “Muitos disseram o seguinte: ‘eu
não consigo emprego porque, quando falo que moro
na favela, o cara acha que sou bandido’. E, além
de sofrer preconceito, esses jovens tiveram uma educação
tão deficitária que às vezes nem
conseguem falar corretamente ou se expressar direito
em uma entrevista de emprego”, completa. A pesquisa
identificou ainda que apresentam mais chances de entrar
para o tráfico as crianças que tiveram
algum parente ou amigo próximo morto pela polícia
ou por uma gangue rival (facção do tráfico
que não é a da sua comunidade). Mariana
explica que elas fazem isso por dois motivos: vingança
ou para ter proteção: “Ingressar
no tráfico dá a esses garotos a falsa
sensação de que estão protegidos”.
Outro motivo que leva esses adolescentes a se tornarem
traficantes é a vontade de ganhar dinheiro para
comprar coisas. Eles têm os mesmos sonhos que
qualquer outro jovem: querem o tênis da moda,
CDs, roupas legais, celular com câmera e MP3...
E o único meio que encontram para conseguir isso
é o crime. Além disso, esse é também
um jeito de fazerem parte de uma turma com a qual possam
se identificar e se afirmar. Mas o que eles não
sabem é que vão morrer muito cedo, exatamente
como aconteceu com seus pais. A rotatividade dos “empregos”
no tráfico ocorre porque muitos garotos morrem
ou são presos. É por isso que sempre há
novas vagas nesse tipo de atividade. Acredita-se que
esse também seja o motivo por que as crianças
estão se envolvendo com o tráfico cada
vez mais cedo.
Quando um líder traficante morre, a tendência
é que a “boca” seja assumida pelo
subordinado direto dele, que, normalmente, é
um pouco mais novo. Mariana exemplifica: “Morre
o líder, de 30 anos, e assume o subordinado,
que tem 28. De repente, este também é
morto, e assume seu subalterno, ainda mais novo. Como
os conflitos não páram, esses garotos
vão morrendo, e o líder passa a ter a
ter 26, 25, 24 anos. Quando você vê, o líder
é um garoto de 18 anos”. Antigamente, alguns
traficantes não permitiam o trabalho de crianças
em suas gangues. Acontece que as crianças normalmente
são muito ágeis, principalmente as que
estão na faixa dos 12. À medida que os
mais velhos começaram a morrer, os traficantes
passaram a aceitar o trabalho infantil. “Esse
é um longo processo, que vem acontecendo há
uns 15 anos”, ela completa.
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Na pesquisa que
deu origem ao documento “Crianças
no narcotráfico: um diagnóstico
rápido”, produzido por
pesquisadores do Ministério
do Trabalho, da Organização
Internacional do Trabalho e de ONGs
cariocas, foi entrevistado um grupo
de menores que trabalham para o tráfico.
Os resultados são alarmantes:
• 36,7% estudaram, no máximo,
quatro anos. Para se ter uma idéia,
a média de estudo no Rio de
Janeiro é de oito anos e, no
Brasil, de seis anos e meio.

• Estas são
as razões pelas quais elas
se envolveram no crime:
1.a - Identificação
com o grupo;
2.a - Busca por adrenalina;
3.a - Ajudar a família financeiramente;
4.a - Ganhar dinheiro;
5.a - Desejo de ter prestígio
e poder;
6.a - Limitação profissional
e salarial;
7.a - Defender a comunidade;
8.a - Escapar da violência familiar;
9.a - Vingança/revolta;
10.a - Dificuldades na escola;
11.a - Dependência de drogas.
• As drogas mais usadas por
essas crianças são:
- Maconha: 90%;
- Cocaína: 15%;
- Haxixe: 25%;
- Álcool: 22,5%.
Apenas 10% responderam que não
usam nenhum tipo de droga.
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A importância
dos projetos sociais
Em suas pesquisas, a Coav identificou
um grupo de jovens que estavam expostos
a todos os fatores negativos citados
anteriormente — como falta de
acesso a escola e emprego decente,
rompimento de laços, morte
de parentes etc. —, mas, mesmo
assim, não ingressaram no tráfico.
“Perguntamos a eles por que
não fizeram isso. A maioria
disse que foi por causa da família,
porque se tornaram pais ou, ainda,
por participarem de projetos sociais”,
revela Mariana. “Nesses projetos,
eles conheceram pessoas e realidades
diferentes e perceberam que há
outras oportunidades na vida. Não
estou dizendo que os projetos sociais
são a solução
— até porque eles apresentam
limites —, mas, sim, que eles
têm um impacto muito grande
na vida daqueles adolescentes”.
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