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O trabalho infantil no Brasil

Craig Kielburger e sua organização Free The Children, do Canadá, lutam para libertar as crianças de todo tipo de violência. Um dos principais objetivos dele e de seus companheiros é ajudar a acabar com o trabalho infantil, que “aprisiona” milhões de garotos e garotas em todo o mundo e os mantém longe da escola.

No Brasil, o trabalho infantil é proibido por lei. Só pode trabalhar quem tem mais de 14 anos, na condição de aprendiz e durante poucas horas por dia, para que isso não atrapalhe seus estudos. Antes de completar 18 anos, ninguém pode trabalhar depois das 10 horas da noite, muito menos em lugares perigosos.

Saiba mais sobre os tipos de contrato de trabalho que podem ser feitos com adolescentes no Brasil na reportagem ‘Quase adultos’.

Infelizmente, a lei está longe de refletir a realidade do Brasil. Um relatório recente da Organização Internacional do Trabalho (OIT) revelou que há mais de 5 milhões de jovens trabalhando no país, sendo quase 3 milhões em situação irregular: muitos deles trabalham como escravos ou para pagar dívidas assumidas pelos pais. O mesmo relatório indica que esses números vêm caindo desde o início da década de 1990, mas o trabalho infantil não deve acabar até 2015.

Crianças de 10 a 17 anos trabalhando no Brasil (em milhões)

Na década de 1990, o governo "acordou" para a realidade do trabalho infantil e passou a tomar medidas legais (como a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente, em 1990) e a instituir políticas públicas na tentativa de solucionar o problema.

Conheça os principais programas governamentais criados com esse objetivo:

• Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), fundado em 1996: concede aos pais um benefício mensal de R$ 25 a R$ 40 por criança;

• Bolsa Escola, instituído em 2001: paga uma quantia mínima de R$ 15 por mês para cada criança matriculada na escola;

• Programas Estaduais e Municipais de Renda Mínima, elaborados a partir de 1995: conferem benefícios diversos;

• Bolsa Família, fundado em 2003: integra vários programas, como o Bolsa Escola, Vale-Gás etc.;

• Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef), criado em 1998: redistribui as verbas do orçamento destinadas à educação, priorizando o Ensino Fundamental.

A boa notícia é que, pelo menos entre as crianças de 5 a 9 anos, o trabalho pode ser erradicado ainda nesta década. “As ações sociais desenvolvidas nos últimos anos envolvendo trabalho infantil priorizaram a criança abaixo dos 10 anos e têm funcionado bem na zona rural. Se os esforços continuarem assim, possivelmente teremos uma redução quase que total dos números”, explica o coordenador do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) da OIT, Renato Mendes. Segundo ele, esses programas não têm funcionado corretamente para quem tem 10 anos ou mais porque:

- a maioria das crianças e adolescentes dessa faixa etária está nas cidades, trabalhando no mercado informal: “Na zona rural, depois das 18 horas, tudo pára e todos vão para casa. Na cidade, não: a vida continua e há mais ofertas de atividades produtivas para a criança e o adolescente”, completa;

- principalmente entre os adolescentes que trabalham para ajudar no sustento da casa, as quantias oferecidas pelos programas de complementação de renda são insuficientes para compensar a perda do salário: “40 reais por mês bastam para libertar uma criança de 5 anos do trabalho, mas não são suficientes para um adolescente de 17 anos envolvido numa atividade perigosa, como extração de cal ou reciclagem. Eles ganham muito mais”. Além disso, Renato explica que programas que simplesmente complementam a renda da família acabam por gerar uma relação de dependência, o que, na prática, resolve uma parte do problema, mas não combate sua causa.

Quase metade das crianças e adolescentes que trabalham no Brasil não recebe qualquer remuneração. E, entre os que são remunerados, praticamente 50% recebe menos de meio salário mínimo por mês.

Segundo a OIT, é preciso que os governos e a iniciativa privada:
- reavaliem e intensifiquem os programas de complementação de renda para beneficiar os adolescentes maiores que moram nas cidades;
- invistam mais nas comunidades, gerando oportunidades de emprego aos pais;
- apliquem recursos em programas de primeiro emprego, que gerem oportunidades de trabalho decente para esses jovens.

Trabalho precoce, futuro mais pobre

Quanto mais cedo a criança começa a trabalhar, menor é seu rendimento médio durante a vida. Não se pode citar uma causa específica, mas imagina-se que isso ocorra porque, ao trabalhar, a criança fica com menos tempo e disposição para estudar e se preparar para alcançar uma melhor posição social na fase adulta. Veja o que indica o relatório da OIT:

• Crianças que começaram a trabalhar antes dos 17 anos não alcançaram médias salariais superiores a R$ 1.500 até a faixa dos 59 anos;
• Os jovens que começaram a trabalhar após os 18 anos atingiram R$ 2.500;
• Uma pessoa terá 35% a mais de renda durante a vida se não trabalhou antes dos 9 anos;
• Os jovens que não trabalharam antes dos 18 anos podem ter um acréscimo de 85% no rendimento salarial;
• 68,6% dos meninos e meninas entre 7 e 17 anos que trabalham estão atrasados na escola.

Fontes: OIT/IBGE.


 

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