Trabalho infantil doméstico: prisão
domiciliar
Em novembro de 2005, Marielma Silva, de 11 anos, foi
assassinada por sua patroa no Pará. A menina
tinha sido levada da casa da mãe, em agosto,
por um casal que prometia dar a ela uma vida com mais
oportunidades e uma renda mensal em troca de ajuda nas
tarefas domésticas. A promessa não foi
cumprida: Marielma era proibida de sair de casa e ir
à escola. Esta é apenas mais uma das freqüentes
histórias de casais que iludem crianças
com a promessa de uma vida melhor – e que acontecem
em várias regiões do país. Na verdade,
é um disfarce perverso para o recrutamento de
crianças para o trabalho infantil doméstico.
A escravidão que levou Marielma à morte
é a mesma vivida por mais de 400 mil crianças
no Brasil — a maioria, meninas negras. Imagina-se,
no entanto, que os números reais sejam bem maiores.
É difícil mensurar e controlar o problema
simplesmente porque não se pode invadir a casa
das pessoas para descobrir se há ou não
crianças trabalhando. Sabe-se, contudo, que o
trabalho infantil doméstico está ligado
à condição de pobreza, desamparo
e baixa escolaridade das famílias: 51% das mães
dessas meninas também realizam trabalhos domésticos
(destas, só 16% têm carteira assinada),
e os pais vivem da construção civil ou
do comércio. Um terço dessas meninas não
tem pai (a pessoa que, normalmente, é a principal
fonte de sustento da família).
De acordo com Isa Maria de Oliveira, secretária
executiva do Fórum Nacional de Prevenção
e Erradicação do Trabalho Infantil, do
Ministério da Justiça, a preferência
por meninas negras ocorre por causa de “resquícios
de uma mentalidade escravocrata do brasileiro, juntamente
com um traço cultural que diz que o trabalho
doméstico é normalmente mais bem feito
por meninas”. Outra característica dessa
maneira de pensar, segundo ela, é a omissão,
“sem falar do pensamento de que pobre, negro e
índio têm mesmo é que trabalhar”.
Ela finaliza dizendo que os vizinhos das vítimas
da exploração infantil não podem
ignorar tal situação. “Eles devem
estar atentos para ajudar a libertar essas crianças
de seus calvários e a prevenir tragédias
como a de Marielma”.
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