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 Introdução
  >Escola: vítima que
    não dialoga
 Escola embriagada
  >Sob o domínio do tráfico
 Mídia: a percepção da  violência
 Violência silenciosa
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Entrevista
 A escritora Betty Milan fala  sobre como a amizade  pode ser uma receita para  a paz.
Artigo
 A violência de que se fala  e a violência que se vive,  por Andréia Schmidt.
Escola: vítima que não dialoga

Detectores de metais, câmeras de vídeo, grades e até mesmo guardas. A escola cada vez mais se “encastela” contra a violência. Mas e quando a violência não vem só de fora? Especialistas ensinam que a verdadeira paz se consegue com diálogo.



Miriam Abramovay: "A situação detectada nas escolas brasileiras atualmente compromete a própria viabilidade de o ambiente pedagógico preparar a criança para assumir uma vida responsável em uma sociedade livre."
A tragédia em Taiúva despertou o receio de que, além da violência causada pela miséria e pelo tráfico de drogas, por exemplo, crimes baseados exclusivamente no ódio se tornem comuns no país.

A violência dentro das escolas se confunde com a que vem das ruas, não respeitando o espaço físico das instituições e atingindo até mesmo escolas particulares. “A violência não é um problema exclusivo da escola pública, apesar de a escola privada ser mais protegida. O problema é que a violência atinge a escola de fora para dentro, de uma maneira muito difícil de evitar, pois está presente na cultura dos alunos e até mesmo na dos educadores”, afirma a pesquisadora da ONU, Miriam Abramovay. Para ela, isso se reflete na grande quantidade de ameaças, agressões, violência sexual, uso de armas, consumo de drogas, roubos, furtos e assaltos, violência contra o patrimônio, etc., dentro das escolas.

Segundo Miriam, a situação detectada nas escolas brasileiras atualmente compromete a própria viabilidade de o ambiente pedagógico preparar a criança para assumir uma vida responsável em uma sociedade livre.

“Recomendamos democracia”

Para a pesquisadora, a sociedade se preocupa demais em adotar medidas repressivas nas escolas, como detector de metais nas portas e câmeras de vídeo nos corredores. “O que se sabe é que as medidas repressivas — e até mesmo as punitivas — não são eficientes. Isso fica claro quando se toma o exemplo dos EUA. O país gastou muito dinheiro num programa repressivo e não preventivo, com adoção de detectores de metais, mochilas transparentes e câmeras de controle. E, efetivamente, isso não deu certo. É só ver o exemplo de Columbine”, afirma.

O hebeatra (médico especialista em adolescentes) e presidente do INPAZ, Feizi Milani, chama a atenção para outro fator que, para ele, é tratado de forma errônea quanto à segurança nas escolas hoje, que são as políticas públicas. Para o especialista, todo enfoque delas é ligado ao tema repressão, e nenhuma atenção é dada à prevenção. “Sempre se fala em aumentar o número de policiais, o número de presídios, endurecer as leis, sendo esse o modelo que se faz presente nas escolas. Querem detector de metal na porta, policial dentro da escola, exames para detectar drogas nos alunos. Algumas medidas repressivas podem ser necessárias, mas só isso é absolutamente insuficiente”, aponta.

Para Miriam, o que falta na escola é diálogo. “Não existe interação, e as instituições não são nem um pouco democráticas. Por mais que a escola fale em cidadania, voluntariado, etc., ela é um espaço muito autoritário”. A pesquisa “Violência, Drogas e Aids nas Escolas” propõe soluções como a implementação de políticas públicas que envolvam governos, professores, alunos, funcionários, pais, a mídia e a polícia. De forma integrada, eles adotariam medidas como cuidados com o entorno das escolas; lazer (abertura do espaço escolar); interação de escola, família e comunidade; melhora do “clima” da escola; produção conjunta de regras e sua efetivação; medidas de segurança policial comunitária; envolvimento da mídia em campanhas; entre outras. “Mas a nossa maior recomendação é disponibilizar lugares onde todas as pessoas envolvidas com a escola possam falar e se queixar. A escola será um agente de transformação quando ela for mais democrática”.

Miriam conta que uma das coisas de que os jovens mais reclamaram quando foram ouvidos para a pesquisa é que eles não têm direito de discutir sobre a escola. “Mesmo guardando-se os respectivos papéis (que são necessários), há coisas que podem ser debatidas em conjunto, como regras. Pode-se ou não fumar dentro da escola? Por que o professor pode e o aluno não? Ou mesmo sobre arbitrariedades dentro da escola, por que não se pode dizer nada?”, questiona.

A pesquisadora conta ainda que, por meio do Observatório das Violências nas Escolas, já se consegue fazer com que experiências como as indicadas na pesquisa se concretizem nas escolas. Realizado com sucesso em países como Canadá e França, o Observatório é um processo de mediação das escolas que estejam interessadas. Através de um fórum, todos na escola podem discutir de maneira democrática tudo o que diz respeito à instituição. Os mediadores — treinados pelo Observatório — podem ser alunos, professores e diretores e contam sempre com o acompanhamento de um observador externo.

Educando para a paz

Feizi Milani: “Com os mesmos mil reais gastos com um presidiário, pode-se oferecer uma oportunidade para dezenas de jovens encontrarem um caminho de cidadania e de participação social e não correrem o risco de serem seduzidos pelo crime.”
“Não pode haver paz numa sociedade se cada um de seus integrantes não percebe a si mesmo como um agente ativo de promoção da paz, um cidadão”, é o que afirma o presidente do INPAZ, que trabalha há anos com o conceito de educação para a paz. Para ele, os alunos de famílias abastadas e de escolas privadas têm tanta necessidade quanto qualquer estudante de escola pública de aprender aquilo que constitui essa educação.

Ele explica que as escolas devem ensinar os alunos a conviver com as diferenças, a respeitar o outro, a dialogar, a negociar os conflitos de forma pacífica e aplicar ética em suas decisões cotidianas. “Infelizmente, notei que as pessoas têm uma visão muito estreita do que vem a ser a educação para a paz. Pensam que é apenas ficar falando para as crianças não baterem umas nas outras, coisas banais”, diz Feizi.

O INPAZ caracteriza-se como uma rede de profissionais que atua nos campos da promoção dos direitos humanos, do fortalecimento da cultura de paz e da educação para a cidadania e trabalha agora na elaboração de três obras sobre educação para a paz que devem ser lançadas ainda no primeiro semestre e que serão distribuídas aos interessados. Trata-se de uma coletânea de textos de integrantes do Instituto sobre os diferentes aspectos da cultura de paz, com ênfase na questão da escola; um manual dirigido aos professores que desejarem implementar o pacto de convivência (metodologia para que professores e alunos discutam e cheguem a um consenso sobre os direitos e deveres de ambas as partes no que se refere à convivência em sala de aula) e uma obra dirigida aos pais. “Será um manual de grupos de pais que vão se constituir em comunidades de aprendizagem, com a coordenação de um moderador capacitado pelo Instituto. Esses grupos vão se reunir para discutir o manual. Ele trará conteúdo baseado nos conhecimentos mais modernos de psicologia, pedagogia e educação de filhos e conceitos importantes para semear na família o conceito de paz”.

Feizi acredita que, com muito menos do que se gasta com um presidiário, seria possível oferecer às crianças e adolescentes do país opções de lazer, esporte, arte, e expressão cultural. “Com os mesmos mil reais gastos com um presidiário, pode-se oferecer uma oportunidade para dezenas de jovens encontrarem um caminho de cidadania e de participação social e não correrem o risco de serem seduzidos pelo crime”, afirma.

Jovens na mira

- Em 2000, 39,2% das mortes de jovens brasileiros de 15 a 24 anos foram provocadas por homicídios. Nas capitais, essa proporção se eleva para 43,6%. Nas regiões metropolitanas, o índice ultrapassa 50%.

- Os homicídios representam a principal causa de mortalidade juvenil no Brasil.

Fonte: Pesquisa O Mapa da Violência III — Os jovens do Brasil, em 2002. Unesco, Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Instituto Ayrton Senna.

- O Brasil é o segundo país do mundo em mortes violentas entre os jovens. Dados mostram que um jovem entre 14 e 24 anos tem o dobro de chances de morrer de forma violenta em relação a uma pessoa mais velha.

Fonte: Pesquisa da Unesco (dezembro de 2000) realizada com base em dados do Sistema Único de Saúde (SUS).

Escolas armadas

- 1/5 dos 33.655 alunos e 3.099 professores entrevistados pela Unesco em 14 capitais brasileiras relataram haver ocorrido agressões ou espancamentos em suas escolas.
- Professores e diretores disseram que é habitual encontrar alunos portando peixeiras, facas, estiletes e canivetes nas salas de aula.

Fonte: Pesquisa Violência nas Escolas, realizada pela Unesco em 2002.



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