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| Miriam Abramovay: "A situação detectada
nas escolas brasileiras atualmente compromete a própria viabilidade
de o ambiente pedagógico preparar a criança para assumir uma
vida responsável em uma sociedade livre." |
A tragédia em Taiúva despertou o receio de que, além da
violência causada pela miséria e pelo tráfico de drogas,
por exemplo, crimes baseados exclusivamente no ódio se tornem comuns
no país.
A violência dentro das escolas se confunde com a que vem das ruas, não
respeitando o espaço físico das instituições e atingindo
até mesmo escolas particulares. “A violência não é
um problema exclusivo da escola pública, apesar de a escola privada ser
mais protegida. O problema é que a violência atinge a escola de
fora para dentro, de uma maneira muito difícil de evitar, pois está
presente na cultura dos alunos e até mesmo na dos educadores”,
afirma a pesquisadora da ONU, Miriam Abramovay. Para ela, isso se reflete na
grande quantidade de ameaças, agressões, violência sexual,
uso de armas, consumo de drogas, roubos, furtos e assaltos, violência
contra o patrimônio, etc., dentro das escolas.
Segundo Miriam, a situação detectada nas escolas brasileiras
atualmente compromete a própria viabilidade de o ambiente pedagógico
preparar a criança para assumir uma vida responsável em uma sociedade
livre.
“Recomendamos democracia”
Para a pesquisadora, a sociedade se preocupa demais em adotar medidas repressivas
nas escolas, como detector de metais nas portas e câmeras de vídeo
nos corredores. “O que se sabe é que as medidas repressivas —
e até mesmo as punitivas — não são eficientes. Isso
fica claro quando se toma o exemplo dos EUA. O país gastou muito dinheiro
num programa repressivo e não preventivo, com adoção de
detectores de metais, mochilas transparentes e câmeras de controle. E,
efetivamente, isso não deu certo. É só ver o exemplo de
Columbine”, afirma.
O hebeatra (médico especialista em adolescentes) e presidente do INPAZ,
Feizi Milani, chama a atenção para outro fator que, para ele,
é tratado de forma errônea quanto à segurança nas
escolas hoje, que são as políticas públicas. Para o especialista,
todo enfoque delas é ligado ao tema repressão, e nenhuma atenção
é dada à prevenção. “Sempre se fala em aumentar
o número de policiais, o número de presídios, endurecer
as leis, sendo esse o modelo que se faz presente nas escolas. Querem detector
de metal na porta, policial dentro da escola, exames para detectar drogas nos
alunos. Algumas medidas repressivas podem ser necessárias, mas só
isso é absolutamente insuficiente”, aponta.
Para Miriam, o que falta na escola é diálogo. “Não
existe interação, e as instituições não são
nem um pouco democráticas. Por mais que a escola fale em cidadania, voluntariado,
etc., ela é um espaço muito autoritário”. A pesquisa
“Violência, Drogas e Aids nas Escolas” propõe soluções
como a implementação de políticas públicas que envolvam
governos, professores, alunos, funcionários, pais, a mídia e a
polícia. De forma integrada, eles adotariam medidas como cuidados com
o entorno das escolas; lazer (abertura do espaço escolar); interação
de escola, família e comunidade; melhora do “clima” da escola;
produção conjunta de regras e sua efetivação; medidas
de segurança policial comunitária; envolvimento da mídia
em campanhas; entre outras. “Mas a nossa maior recomendação
é disponibilizar lugares onde todas as pessoas envolvidas com a escola
possam falar e se queixar. A escola será um agente de transformação
quando ela for mais democrática”.
Miriam conta que uma das coisas de que os jovens mais reclamaram quando foram
ouvidos para a pesquisa é que eles não têm direito de discutir
sobre a escola. “Mesmo guardando-se os respectivos papéis (que
são necessários), há coisas que podem ser debatidas em
conjunto, como regras. Pode-se ou não fumar dentro da escola? Por que
o professor pode e o aluno não? Ou mesmo sobre arbitrariedades dentro
da escola, por que não se pode dizer nada?”, questiona.
A pesquisadora conta ainda que, por meio do Observatório das Violências
nas Escolas, já se consegue fazer com que experiências como as
indicadas na pesquisa se concretizem nas escolas. Realizado com sucesso em países
como Canadá e França, o Observatório é um processo
de mediação das escolas que estejam interessadas. Através
de um fórum, todos na escola podem discutir de maneira democrática
tudo o que diz respeito à instituição. Os mediadores —
treinados pelo Observatório — podem ser alunos, professores e diretores
e contam sempre com o acompanhamento de um observador externo.
Educando para a paz
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| Feizi Milani: “Com os mesmos mil reais gastos
com um presidiário, pode-se oferecer uma oportunidade para dezenas
de jovens encontrarem um caminho de cidadania e de participação
social e não correrem o risco de serem seduzidos pelo crime.” |
“Não pode haver paz numa sociedade se cada um de seus integrantes
não percebe a si mesmo como um agente ativo de promoção
da paz, um cidadão”, é o que afirma o presidente do INPAZ,
que trabalha há anos com o conceito de educação para a
paz. Para ele, os alunos de famílias abastadas e de escolas privadas
têm tanta necessidade quanto qualquer estudante de escola pública
de aprender aquilo que constitui essa educação.
Ele explica que as escolas devem ensinar os alunos a conviver com as diferenças,
a respeitar o outro, a dialogar, a negociar os conflitos de forma pacífica
e aplicar ética em suas decisões cotidianas. “Infelizmente,
notei que as pessoas têm uma visão muito estreita do que vem a
ser a educação para a paz. Pensam que é apenas ficar falando
para as crianças não baterem umas nas outras, coisas banais”,
diz Feizi.
O INPAZ caracteriza-se como uma rede de profissionais que atua nos campos da
promoção dos direitos humanos, do fortalecimento da cultura de
paz e da educação para a cidadania e trabalha agora na elaboração
de três obras sobre educação para a paz que devem ser lançadas
ainda no primeiro semestre e que serão distribuídas aos interessados.
Trata-se de uma coletânea de textos de integrantes do Instituto sobre
os diferentes aspectos da cultura de paz, com ênfase na questão
da escola; um manual dirigido aos professores que desejarem implementar o pacto
de convivência (metodologia para que professores e alunos discutam e cheguem
a um consenso sobre os direitos e deveres de ambas as partes no que se refere
à convivência em sala de aula) e uma obra dirigida aos pais. “Será
um manual de grupos de pais que vão se constituir em comunidades de aprendizagem,
com a coordenação de um moderador capacitado pelo Instituto. Esses
grupos vão se reunir para discutir o manual. Ele trará conteúdo
baseado nos conhecimentos mais modernos de psicologia, pedagogia e educação
de filhos e conceitos importantes para semear na família o conceito de
paz”.
Feizi acredita que, com muito menos do que se gasta com um presidiário,
seria possível oferecer às crianças e adolescentes do país
opções de lazer, esporte, arte, e expressão cultural. “Com
os mesmos mil reais gastos com um presidiário, pode-se oferecer uma oportunidade
para dezenas de jovens encontrarem um caminho de cidadania e de participação
social e não correrem o risco de serem seduzidos pelo crime”, afirma.
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Jovens na mira
- Em 2000, 39,2% das mortes de jovens brasileiros de 15 a 24 anos
foram provocadas por homicídios. Nas capitais, essa proporção
se eleva para 43,6%. Nas regiões metropolitanas, o índice
ultrapassa 50%.
- Os homicídios representam a principal causa de mortalidade juvenil
no Brasil.
Fonte: Pesquisa O Mapa da Violência
III — Os jovens do Brasil, em 2002. Unesco, Secretaria
de Estado dos Direitos Humanos e Instituto Ayrton Senna.
- O Brasil é o segundo país do mundo em mortes violentas
entre os jovens. Dados mostram que um jovem entre 14 e 24 anos tem
o dobro de chances de morrer de forma violenta em relação
a uma pessoa mais velha.
Fonte: Pesquisa da Unesco (dezembro de 2000)
realizada com base em dados do Sistema Único de Saúde
(SUS).
Escolas armadas
- 1/5 dos 33.655 alunos e 3.099 professores entrevistados pela
Unesco em 14 capitais brasileiras relataram haver ocorrido agressões
ou espancamentos em suas escolas.
- Professores e diretores disseram que é habitual encontrar
alunos portando peixeiras, facas, estiletes e canivetes nas salas
de aula.
Fonte: Pesquisa Violência nas Escolas,
realizada pela Unesco em 2002.
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