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Não é de hoje que o homem utiliza substâncias para melhorar seus resultados nos esportes. Sabe-se que, nos Jogos Olímpicos da Antiguidade, os atletas bebiam chás e comiam certos tipos de cogumelos para aumentar seu rendimento. Alguns milênios depois, empresas farmacêuticas de ponta desenvolveram medicamentos quase invisíveis aos exames antidoping e passaram a vender pacotes do tipo: “Torne-se campeão em cinco meses”. Conheça o que as agências internacionais estão fazendo para impedir o doping em Atenas.

Por Diogo Dreyer
Colaborou Guilherme Prendin

Durante as Olimpíadas de Seul, em 1988, o brasileiro Joaquim Cruz declarou à imprensa: “No esporte, e principalmente no atletismo, a maioria dos atletas se dopa”. A frase do então dono da medalha de ouro nos 800 metros, conquistada em Los Angeles quatro anos antes, chocou muita gente, causando um grande escândalo. Mas o brasileiro nem precisou explicar muito do que estava falando, pois, apenas alguns dias depois de sua declaração, o exame antidoping do corredor canadense Ben Johnson — que acabara de ganhar o ouro nos 100 metros, batendo o recorde mundial — teve seu resultado positivo para o uso de esteróides anabolizantes.

Johnson, na ocasião, defendeu-se dizendo que tinha se dopado a pedido do seu treinador e com a supervisão de seu médico. Suspenso, o corredor voltou às pistas dois anos mais tarde, para ser flagrado novamente no exame antidoping e ser banido de vez das pistas. Descobriu-se que Johnson já fazia uso de anabolizantes desde o início de sua carreira profissional, só sendo descoberto em Seul porque, na ânsia de vencer, drogou-se na véspera da prova. Esse se tornou o mais famoso caso confirmado de doping do esporte.

CBC/Radio-Canada
Ben Johnson: ânsia de vencer fez com que corredor fosse descoberto no antidoping.

Mas, agora, outro escândalo, dessa vez envolvendo atletas americanos, quer tomar esse louro para si. Descobriu-se que o laboratório californiano Balco tinha um programa para seus clientes com o sugestivo slogan: “Seja um recordista mundial em cinco meses”. O “pacote campeão” custava cerca de US$ 20 mil e, caso o atleta batesse algum recorde, outros US$ 10 mil.

O estopim foi uma denúncia anônima feita por um treinador, que enviou à Agência antidoping dos EUA (Usada) uma seringa contendo uma substância desconhecida. A entidade identificou a substância como um esteróide sintético, denominado tetrahidrogestrinona, ou simplesmente THG, desenvolvido especialmente para não ser detectado nos exames antidoping.

“O THG nos deu algumas lições. Foi a única vez em que se usou como doping uma substância que não havia sido lançada como medicamento. Normalmente, o doping é uma tentativa de usar um medicamento que já existe”, explica o Dr. Eduardo Henrique De Rose, responsável, desde 1976, pela área de controle de doping do Comitê Olímpico Brasileiro (COB). O médico gaúcho é também presidente da Comissão Médica da Organização Desportiva Pan-Americana (Odepa), responsável pela coordenação das operações antidoping por parte da Comissão Médica do Comitê Olímpico Internacional (COI) e integrante do Conselho da Agência Mundial antidoping (Wada).

Do alto de toda a sua sabedoria no assunto, De Rose acredita que, de casos como esse, o importante é aprender lições. Além de chamar a atenção para a questão de drogas estarem sendo confeccionadas especialmente para serem usadas como doping, ele elogia a atuação da Usada no caso, apesar de ela ter descoberto a droga por acaso: “Um mês depois, a agência criou um método para detectar o THG, distribuindo-o para todos os laboratórios credenciados. Quer dizer, um mês depois do THG, já havia um anti-THG”, diz.

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