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Foto: Marlene Bérgamo/Ed Viggiani
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  A CAÇA-NÓIA
Jovem escreve livro baseado em entrevistas com usuários dos mais variados tipos de drogas e faz duras críticas a pais escolas e campanhas antidrogas.
  Foto: Marlene Bérgamo/Ed Viggiani

Paloma Klisys, 21, é estudante de jornalismo.
Há três anos, Paloma Klisys ganhou um apelido: caça-nóia. É que na época, para escrever seu livro, andava para cima e para baixo, gravador em punho, à procura de amigos, crianças de rua, usuários, dependentes, traficantes e especialistas. Enfim, todos aqueles que estivessem dispostos a contar como a droga entrou em sua vida ou que quisessem dar sua opinião a respeito.

A autora foi fundo na investigação. Ouviu gente expulsa de casa por contar à família que usava drogas; pessoas que experimentaram o Santo Daime por curiosidade; o rapaz embriagado que provocou um acidente de carro e deixou o amigo paralítico; a moça que se prostitui para sustentar o vício; o garoto que cheirou três vidrinhos de lança-perfume no carnaval; a filha de um alcoólatra que se tornou, como o namorado, dependente de cocaína; a garota que foi apresentada ao crack quando polvilharam pedaços da pedra no seu baseado.

A maioria dos entrevistados era gente bem de vida, mas que, por algum motivo, sucumbiu às drogas. Mais que procurar — na turbulência familiar, na desinformação ou no desejo de "ter algo em comum" com a turma — o que estava por trás disso tudo e acompanhar a trajetória do uso ao abuso de entorpecentes, Paloma extrapola o universo restrito às drogas para soltar o verbo em críticas contundentes à sociedade. "Ser jovem no Brasil hoje é complicado porque não encontramos espaço para nos exercer (...). Somos vistos como problema quando, na verdade, somos a solução."

Ela dedica um capítulo inteiro, "Educação de araque", para condenar a incapacidade da escola em lidar com o problema. Malha a "estrutura decadente", o "desperdício do potencial dos jovens" e a preocupação em "ensinar a armazenar conhecimento em gavetinhas separadas". Propõe que a escola proporcione "experiências de convívio social" e "descoberta de novas realidades" para questionar o que acontece fora de seus muros e dar a possibilidade de transformação da realidade.

Ataca a linguagem dos livros didáticos e as campanhas antidrogas, "que mais confundem que orientam", que só instigam a curiosidade e que "estupidamente se limitam a apavorar as pessoas". Os pais também não são poupados, em especial os que se fecham ao diálogo, que segundo ela é mais importante que as orientações que se recebem na escola, ou os "pais contraditórios", que abusam sobretudo do álcool e dizem para os filhos não se drogarem.


No seu livro, você faz duras críticas a pais, escolas e campanhas antidrogas. Dá a impressão de que a sociedade não faz nada direito quando o assunto é o combate às drogas. É isso mesmo que você pensa? E por quê?
Acredito que nós, a sociedade, compartilhamos a responsabilidade por tudo que diga respeito ao lugar onde vivemos e ao contexto no qual estamos inseridos. O envolvimento e a participação em relação no cotidiano de uma cidade cheia de paradoxos são uma questão de cidadania.
No caso do abuso de drogas, não dá para negar a importância dos pais e das instituições de ensino, se o objetivo for a construção de um modo de educar mais flexível, preparado para incitar a criatividade e as potencialidades dos alunos, além de lidar com as diferenças e questões superpresentes como drogas, sexualidade e outras.
Diálogo e honestidade são fundamentais. Não dá para tratar o jovem nem como santo, nem como delinqüente ou idiota. A realidade está aí. Pais e professores podem se antecipar e abrir um canal para o papo, para a discussão.
A omissão não parece ser a alternativa mais eficaz. Os falsos moralismos e a simples repressão não estão surtindo os efeitos desejados. Fazer um adolescente de quinze anos ir a uma delegacia assinar um documento afirmando-se dependente de uma droga é uma maneira tão estúpida de "combate" quanto castigar um filho ou expulsar um aluno que está consumindo qualquer porcaria proibida por lei.
Essa maneira de combate está fracassando. Não se acaba com uma doença aumentando o tamanho da ferida ou condenando os afetados a políticas de exclusão. Fortalecer o lado saudável tanto do dependente quanto de todos os cidadãos parece ser a atitude mais inteligente.

Outro fato intensifica a idéia de que está tudo errado. Você conversou com usuários, traficantes, delegados, foi à Febem e, nessa odisséia, parece não ter encontrado nenhuma experiência bem-sucedida para tratar jovens que consomem drogas. Você citaria alguma?
Encontrei experiências interessantes, sim, embora tenham sido poucas. As alternativas para o tratamento da dependência física e psicológica não são muito amplas. Há conquistas de grupos como o Narcóticos Anônimos que não podem deixar de ser consideradas e reconhecidas. Entretanto, nem todos se adaptam.
As igrejas e a conversão também são caminhos, mas questiono essa possibilidade de "recuperação", já que o indivíduo, na maioria das vezes, passa a atribuir a responsabilidade de tudo o que acontece na sua vida a Deus ou a algo que está fora dele, que age independente de sua vontade. Tudo bem acreditar em Deus, em forças que desconhecemos. No entanto, a crença passa a ser questionável à medida que exime a pessoa da responsabilidade pelos seus atos.
As clínicas especializadas estão espalhadas pelo país e a demanda é altíssima. De qualquer modo, o custo do tratamento é um fator que muitas vezes limita o acesso das populações marginalizadas. Os hospitais-dia são bastante elogiados e desenvolvem um trabalho bem bacana, mas, como os dependentes não ficam internados, as recaídas são mais constantes.
As experiências mais interessantes que conheci costumam ter um trabalho com arte e com as mais variadas formas de expressão, um trabalho que tem como objetivo fazer o dependente sentir prazer fazendo uma série de coisas que não usar drogas. O sucesso de todas as formas de tratamento está intimamente ligado ao aumento da auto-estima do indivíduo. Daí a importância de estimular a criatividade.

Qual é o barato foi lançado pela editora Publisher Brasil

Uma proposta do livro é mudar o discurso em relação às drogas. Para você, a lógica do medo faliu. Não adianta mais apavorar o jovem. Se você pudesse bolar uma campanha, como ela seria?
Ih! Agora você me pegou. Acho que seria uma péssima publicitária. Há algumas semanas, começou a veicular uma campanha superbacana - infelizmente não vou lembrar o nome dos idealizadores. Os publicitários utilizaram todo o charme dos atores de propagandas de cigarro para falar que o tabagismo provocava "câncer de estupidez". Ficou genial! Acho fantástica essa idéia de seduzir com imagens e cenas bem parecidas com as de propagandas de drogas lícitas, mas passando uma mensagem que derruba todo aquele glamour. Os caras souberam fazer uma campanha, não contra o cigarro, mas a favor de um comportamento menos estúpido. Tiro o meu chapéu.

Você diz que, antes de começar a escrever o livro, via o mundo das drogas dividido em dois: o das drogas lícitas e o das ilícitas. Para você, essa ainda é a principal diferença entre elas ou o livro mudou sua maneira de ver as drogas?
O processo de pesquisa mudou completamente o meu jeito de encarar as drogas. Agora, no meu conceito de droga, cabem substâncias lícitas, ilícitas e tudo aquilo que limita o potencial de alguém. Seria interessante pensar no significado da palavra "droga". Que tal um conceito um pouquinho mais abrangente? E se considerássemos droga tudo aquilo que reprime a saúde e a criação, tudo o que tira a responsabilidade sobre a vida, que aprisiona? A dependência química e/ou psicológica é uma doença, não uma "falha no caráter".

O livro traça um perfil do usuário, independentemente do tipo de droga que usa. Em geral, ele seria iniciado por amigos ou namorados(as). Você conta a sua experiência com dois grupos de amigos. No início, ambos usavam drogas lícitas: cigarro e álcool e, eventualmente, maconha. Só que em um deles jamais se usou cocaína, ecstasy, etc. Como você se posiciona diante deste dilema: dá para dizer que as drogas leves conduzem a drogas mais pesadas?
É perigoso classificar as drogas em mais leves e mais pesadas. Isso é muito relativo. Aliás, quando o assunto é droga, quase tudo é bastante relativo. Qual o critério para definirmos se uma substância qualquer é mais leve ou mais pesada que outra?
Depende da relação que o usuário ou o dependente estabelece com a droga. O álcool pode ter um efeito mais devastador que a cocaína. O impacto varia conforme a quantidade ingerida, o organismo e o metabolismo de cada um. Seguindo esse raciocínio, aquele papo de que o cara que fuma maconha está condenado a cheirar cocaína cai por terra. Sem falar que a dependência cruzada é bastante comum. Um cara pode fumar cigarro, beber, fumar maconha, cheirar cola... Enfim, há uma série de combinações possíveis. Generalizar é complicado. Afinal de contas, estamos falando de seres humanos.

Um dos mitos que você procura desfazer é de que o crack é uma droga só dos miseráveis. Como o crack está avançando em direção aos jovens de classe média?
O crack virou uma das drogas favoritas das populações marginalizadas, principalmente em São Paulo. No Rio também, mas os traficantes cariocas perceberam rapidinho que os dependentes de crack, por estarem dispostos a qualquer coisa em troca de uma pedra, colocam em risco a segurança do narcotráfico.
Os jovens de classe média, assim como os meninos que moram nas ruas, também têm acesso a todos os tipos de drogas. O crack é só mais uma delas e a fama de estimulante seis vezes mais potente que a cocaína acaba instigando a curiosidade. O fato é que, ao contrário de outras drogas, o crack vicia com uma rapidez absurda: num dia, você é um usuário, quinze dias depois pode ser um dependente.

Outra característica do usuário que você aponta é que ele seria uma pessoa que não encontrou seu lugar no mundo. É o que você chama de "parcela de culpa da sociedade", que "vê o jovem como problema" e não abre caminhos para ele ser do jeito que sonhou. Como a escola pode contribuir para mudar isso?
Encarar a realidade e deixar a hipocrisia de lado é o primeiro passo. Fingir que nada está acontecendo ou ignorar que os alunos têm 100% de chance de encontrar algum tipo de droga durante a vida não faz com que a questão deixe de existir. Não confundir prevenção com repressão também ajuda. Para variar o jeito e o diálogo, os próprios alunos podem apontar caminhos e surpreender pais e educadores. Professores podem mostrar que o canal está aberto e provocar discussões, manter o assunto sempre em pauta. Assim o lance deixa de ser um bicho-de-sete-cabeças.

Uma frase do seu livro diz: "Boa parte dos que usam ou usaram drogas têm pais contraditórios." Que contradição é essa?
Pais contraditórios costumam adotar um discurso que não condiz com suas ações. É o ruim e velho "faça o que eu falo e não o que eu faço", que só serve para confundir a cabeça de um adolescente.