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Foto: Marlene Bérgamo/Ed Viggiani
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  FALTA DE DIÁLOGO
        NA TELA DO CINEMA

Bicho de sete cabeças é o filme mais premiado do ano e aborda a conturbada relação de pais e filhos, o uso ocasional de maconha por jovens e os horrores cometidos por psiquiatras do sistema manicomial brasileiro.
  Foto: Marlene Bérgamo/Ed Viggiani

Foto: Marlene Bérgamo/Ed ViggianiNeto (Rodrigo Santoro) é um adolescente de classe média. Tem cerca de 16 anos, anda de skate e se mete em desventuras típicas da adolescência. Vez por outra picha um muro e faz uso de maconha com sua turma. Até que um baseado cai do seu casaco em plena sala de estar. Pego em flagrante, o castigo que seus pais (Othon Bastos e Cássia Kiss) lhe infligem é exagerado na dose. Eles o internam em um manicômio.

Lá, ele conhecerá o abuso de medicamentos para sedar os internos, os maus-tratos e a violência no tratamento, que inclui o encarceramento e eletrochoques de até 460 volts! As descargas aplicadas provocam convulsões, queimam neurônios e podem até matar. A história é inspirada no livro autobiográfico Canto dos malditos, de Austregésilo Carrano Bueno, que foi internado por seu pai, entre 1974 e 1977, no hospital psiquiátrico do Bom Retiro, em Curitiba/PR.

A internação de adolescentes nessas circunstâncias, embora proibida pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), continua a acontecer nos dias de hoje. A prática é recriminada por especialistas. Eles sugerem que os pais se informem sobre o assunto, procurem compreender o que está se passando na cabeça dos filhos e partam para o diálogo franco. Só se nada der certo devem buscar ajuda. (Clique aqui e leia uma lista de instituições que podem ajudar os pais.)

Durante o lançamento nacional de Bicho de sete cabeças, o Educacional ouviu a opinião da equipe do filme sobre as drogas.

O filme é inspirado em uma história real que aconteceu nos anos 70. As internações de jovens em manicômios ou hospitais psiquiátricos, por serem usuários de drogas, continuam acontecendo?
Laís Bodanzky (diretora do filme) — Continuam acontecendo, sim, e isso é impressionante. Os motivos muitas vezes são os mais absurdos. Em toda sessão do filme, eu escuto uma história forte. Há duas semanas, nós fizemos uma sessão em Porto Alegre e uma senhora chegou para mim ao final da sessão e falou:
— Obrigada por eu ter assistido a esse filme agora. A minha filha tem 17 anos e vai fazer uma cirurgia. A gente foi ao médico e ele perguntou se ela usava drogas. Ela disse que sim, que fumava maconha.
Essa mãe tomou um susto muito grande e avisou:
— Eu vou te internar, filha, pra cuidar de você.
E ela estava realmente em um processo de internação da filha e acabou mudando de atitude. Ela me falou:
— Eu acabei de mudar de idéia, não vou mais internar minha filha depois de assistir a esse filme e quero que minha filha assista o quanto antes.
Então, esse é um exemplo vivo, de tantos que estão acontecendo por aí. Mas nada justifica a internação ou cair nesse tipo de tratamento.

Foto: Marlene Bérgamo/Ed Viggiani
Laís Bodanzky (diretora do filme)
Nas visitas que fez às instituições psiquiátricas, você chegou a conversar com algum jovem que foi internado pelos pais por uso de drogas?
Rodrigo Santoro (O Neto de Bicho de Sete Cabeças) — Conversar não, mas observei. Eu percebi principalmente pela idade e depois... Como não sou médico, não podia diagnosticar que tipo de sofrimento mental ele tinha. Inclusive foi um dos primeiros pacientes com quem eu tive contato numa instituição do Rio. Era um garoto, e a única coisa que eu pude perceber era que ele estava dopado, que estava sob o efeito da farmacologia, de algum remédio. Mas com toda certeza eu acho que ele não deveria estar ali.

No caso do Neto, a sua família o interna ao descobrir um cigarro de maconha.
Laís Bodanzky — Ele fuma maconha e a família descobre, mas a maconha entra como uma gota d'água, um susto, um espanto que provoca uma atitude radical da família. No filme, a gente não questiona em nenhum momento a droga. A presença dela é um fato. Ela realmente existe na sociedade, não se pode ser tão hipócrita e fingir que ela não está aí. Ela está aí e a família, em algum momento, vai se deparar com essa realidade.
O que a gente coloca no filme é muito mais que a questão da droga — que é apresentada sem glamour, sem defesa, sem apologia. A questão central é que tudo você pode resolver com uma conversa. Acho que este é o tema central do filme: entender o outro, aceitar o outro, compreender as diferenças. Com o diálogo na família, você pode evitar muitos problemas e conseqüências trágicas como as que aconteceram ao Neto.

O filme não discute apenas o uso indevido de drogas pelos jovens. Ele mais parece uma crítica ao uso generalizado de drogas na sociedade. É isso mesmo?
Foto: Marlene Bérgamo/Ed ViggianiLuiz Bolognesi (roteirista do filme) — Em relação às drogas, o filme abre essa avenida. Ele não fala apenas da maconha, ele questiona a droga com que o Neto é tratado [medicamentos usados para tratar os internos de hospitais psiquiátricos] e mostra que aquilo também é uma droga. O psiquiatra que o trata toma uísque com bolinha — e isso é uma coisa comum na sociedade. Então, a gente expõe que precisa aumentar o espectro do discurso e não cair no discurso fácil de condenar esse ou aquele ato.
O cigarro também é questionado como droga. O filme mostra como os internos são absolutamente viciados em cigarro, é uma coisa degradante. A própria mãe do Neto [interpretada por Cássia Kiss (foto)] tem uma dependência muito forte do cigarro. A Laís, que criou isso, metaforizou muito bem a depressão dela na droga que é o cigarro. Ela está sempre com um cigarro na mão.
E até a questão do álcool a gente coloca uma hora, que é quando o Neto está num momento muito difícil na vida dele, de não conseguir voltar para a sociedade, de não conseguir espaço para ele. O filme levanta uma série de questões, não fecha nenhuma delas, não levanta bandeira, mas lembra que droga não é apenas um cigarro de maconha.

O filme sugere que esse problema pode acontecer em qualquer família, que há um despreparo para lidar com o problema das drogas, há a falta de diálogo a que a Laís se refere. Você viveu algo semelhante ao que acontece no filme em sua família?
Rodrigo Santoro — Não, porque é muito diferente. Eu não fui um adolescente urbano. Eu cresci na serra, numa cidade pequena, em Petrópolis. As coisas que eu fazia eram diferentes e a minha família era muito diferente da família do Neto. Na hora de construir o personagem, o lugar-comum era o adolescente rebelde, que picha muro. Não é isso. Se você vir o Neto, ele não é assim. Inclusive, ele tem uma característica: ele é um cara tímido e tudo que ele não tem é essa coisa do rebelde estereotipado. Ele está procurando sua história, sua tribo, o que ele gosta de fazer. Aí a turma do camarada tem um líder, o Lobo, que diz:
— Vamos pichar o muro hoje?
E o Neto responde:
— Vamos.
— Vamos beber cachaça?
— Vamos.
— Vamos fumar um baseado?
— Vamos.
— Vamos viajar?
— Vamos.
Vamos, vamos, vamos. Esses "vamos" são a essência da adolescência.
Ele não é o estereótipo, o adolescente rebelde que foi internado, o louco, o drogado, não é nada disso. É um adolescente normal, tinha que ser um cara normal, para que qualquer adolescente que assistir ao filme, sendo rebelde ou não, se identifique: "Pô, eu também faço, eu também já pichei o muro uma vez", ou talvez não. Mas o Neto é muito simples e todo mundo se identifica.