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Foto: Marlene Bérgamo/Ed Viggiani
Foto: Marlene Bérgamo/Ed Viggiani
 
Pesquisa da Unesco aponta que jovens experimentam drogas cada vez mais cedo e que a escola é o lugar mais associado ao seu consumo. O uso indevido de bebidas alcoólicas faz parte da vida de mais da metade dos jovens brasileiros. Por outro lado, apenas entre 3% e 15%, conforme a cidade, admitem usar ou ter experimentado drogas ilícitas.
  Foto: Marlene Bérgamo/Ed Viggiani

O que jamais deveria acontecer está acontecendo cada vez mais cedo. Para ser preciso, aos 13 anos e quatro meses, em média. Recém-chegados à adolescência, é nessa idade que os jovens brasileiros têm usado drogas pela primeira vez. Se quando ouve falar em "experimentar drogas" você pensa em maconha ou cocaína, é hora de rever seus conceitos. O álcool é a droga usada com mais freqüência por jovens no Brasil.

Embora igualmente precoce, o consumo de drogas ilícitas só costuma ocorrer em média um ano e meio depois da primeira tragada ou do primeiro copo: aos 14,9 anos. Por mais que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em seu artigo 81, proíba a venda a menores de 18 anos de "substâncias com risco de criar dependência", em qualquer esquina pode-se burlar a lei e comprar um maço de cigarros ou um litro de cachaça.

A permissividade é tanta que, em 13 das 14 capitais brasileiras pesquisadas, mais da metade dos 16,619 mil jovens (entre 11 e 24 anos) entrevistados não se acanharam ao assumir o uso de álcool. E revelaram que a entrada no mundo das drogas também pode incluir no cardápio solventes, inalantes e medicamentos à base de anfetaminas, usados no tratamento de depressão e obesidade. São esses os resultados da Avaliação de Prevenção às DST/Aids e Uso Indevido de Drogas nas Escolas de Ensino Médio e Fundamental.

Lápis, cadernos e drogas

Quem prestou atenção ao título do levantamento, divulgado no início de julho de 2001 pela Unesco, já deve ter notado outra faceta desse drama. Não foi à toa que o estudo investigou o uso de drogas na escola. Ainda segundo dados da Unesco, a escola é o local que mais os jovens associam ao consumo de drogas. Fizeram parte da pesquisa 340 escolas, sendo 101 particulares. Além dos alunos, foram ouvidos 3,05 mil professores e 4,53 mil pais. Eis alguns dos resultados:

  • 40% dos alunos disseram ter visto uso de drogas nas proximidades da escola;
  • 30% presenciaram um colega usando drogas nas dependências da instituição;
  • 30% dos pais disseram ter visto usuários ou traficantes ao redor da escola.

Leia a entrevista sobre o uso de álcool em escolas  ))

Rio de Janeiro e Porto Alegre são as capitais com o maior número de jovens (15%) que admitem ter usado algum tipo de droga ilícita. De acordo com a pesquisa, pode-se elaborar um ranking de cidades onde o contato com a droga é mais prematuro. São Paulo é a capital onde os jovens têm contato mais cedo com drogas lícitas (13,3 anos) e ilícitas (14,4 anos).

Em Belém, foi registrada a ocorrência mais tardia de contato com cigarros e bebidas alcoólicas (14,5 anos). Manaus se destaca por ter a melhor média entre as capitais, no que se refere ao contato com drogas ilícitas (16,6 anos). Goiânia e Maceió são as cidades em que menos jovens confessam o uso de drogas ilícitas, apenas 3%. A capital goiana também é a que apresenta o menor índice de usuários de bebidas alcoólicas. Ainda assim, lá o problema atinge 48% dos jovens.

Uso de drogas é tabu em escolas particulares

É o primeiro estudo da Unesco sobre o uso de drogas por estudantes brasileiros. O Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas (Cebrid) já é veterano em pesquisas desse tipo. Dedica-se ao tema desde 1997. Elisaldo Carlini, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é responsável por uma pesquisa que ouviu o que 15 mil alunos tinham a dizer. Segundo ele, o uso de drogas ainda é um tema tabu nas escolas particulares. A maioria delas simplesmente fechou suas portas à pesquisa, o que fez com que ela ficasse restrita à rede pública.

O índice de estudantes que assumem ter usado algum tipo de droga alguma vez na vida fica entre 19% em São Paulo e 30,5% em Porto Alegre. O estudo verificou o crescimento do consumo de cocaína entre os jovens, porém as drogas que estão no pódio das mais usadas por estudantes, em nove das dez capitais pesquisadas, são o álcool e o tabaco, seguidos por solventes e inalantes. A maconha fica apenas em quarto lugar, sendo os garotos os maiores consumidores. (Fontes: Unesco, Correio Braziliense e Folha de S. Paulo)

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Além das pesquisas que mostram que o consumo de álcool e cigarros é mais preocupante que o uso indevido de drogas ilícitas, outros trabalhos estão procurando desfazer mitos sobre o uso indevido de drogas entre os jovens.
O livro Qual é o barato, de Paloma Klisys, e o filme Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky, com Rodrigo Santoro no elenco, lançam novos olhares sobre as drogas. Eles questionam o excesso de culpa atribuído aos jovens e denunciam a omissão, o despreparo e os discursos ineficazes usados pela família e pelas escolas para lidar com o problema.