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A educação americana no divã

Para Robert Samuelson, as escolas dos EUA têm passado seus alunos com um baixo nível de exigência. Nesse caso, ampliar o acesso à educação é sinal de sucesso ou fracasso?

Ninguém duvida de que a educação é o caminho mais curto para melhorar o padrão de vida de alguém. Portanto, o acesso à educação é um dos valores mais fundamentais para qualquer sociedade democrática. Isso não é nenhum mistério para as autoridades americanas, que nos últimos 60 anos investiram pesadamente - atualmente, gastam 7% do PIB - para ampliar o acesso dos jovens aos bancos escolares.

Em 1940, apenas 25% da população adulta tinha concluído a high school (ensino médio) e 5% tinham algum diploma. Segundo dados de 1998, cerca de 90% dos jovens completam a high school e o percentual de adultos com diploma simplesmente quintuplicou. Mas todo esse esforço democratizante é visto com ressalvas por Robert Samuelson, articulista do Washington Post e das revistas Newsweek e Exame.

What's the problem?

Para o jornalista, que ministrou hoje uma palestra na Educar 2001, a educação nos EUA vive um dilema cruel. A pressão para que os alunos avancem até o nível superior é tanta que as escolas de ensino médio têm amenizado as provas. "Se você tem um nível muito alto, as pessoas vão falhar; se você coloca barreiras, as escolas vão reter os alunos", diz. Só que essa facilidade de acesso e a ampliação das vagas têm, segundo ele, justamente minado o ideal de que a maioria tenha uma vida melhor se for educada.

Atualmente, dois terços dos alunos americanos chegam à universidade, mas metade deles desiste do curso no meio do caminho. Segundo Samuelson, isso se dá por dois motivos. De um lado, com tantas vagas - especialmente em faculdades locais -, os alunos não estão mais motivados para "estudar duro". As notas da high school dificilmente contam para o mercado de trabalho e as universidades precisam ter um número "x" de alunos para não perder os subsídios do governo. Do outro, a prática de aprovar os alunos, chamada de "promoção social", empurra o gargalo do problema para as universidades. São elas que terão de dar um jeito de compensar as deficiências acumuladas e os conhecimentos não adquiridos ao longo da vida escolar.

Para Samuelson, mesmo "pajeando os alunos", os professores não conseguem diminuir o índice de abandono daqueles que têm dificuldade de acompanhar o ritmo da faculdade. Segundo ele, as notas dos alunos americanos "são medíocres" se comparadas às de alunos de outros países desenvolvidos.

Educação à sombra

Se a educação faz milagres na vida de alguém, também é consenso que ela é o motor de qualquer economia moderna. Como explicar, então, a vibrante economia americana? "Estou falando do sistema formal de ensino, mas ele não é a totalidade. A tarefa de preparar pessoas também é tratada por um sistema escolar à sombra", esclarece Samuelson.

Fazem parte desse sistema as universidades comunitárias, os cursos de formação coorporativa e tudo o que se aprende no local de trabalho. Segundo o jornalista, as empresas dos EUA gastam 2% da folha de pagamento em cursos de treinamento. O departamento de trabalho americano estima que esse sistema informal seja responsável por 70% de todos os conhecimentos e habilidades da mão-de-obra do país.

As universidades convencionais têm dificuldade de fornecer as competências requeridas pelo mercado de trabalho em constante mutação. As exigências são muito específicas e personalizadas conforme o profissional e o perfil da corporação em que ele atua. Samuelson diz que 1,6 milhão de pessoas do mundo todo já têm diploma de engenheiro da Microsoft, de administrador do MacDonald's ou de analista da Oracle, Cisco ou Novell.

Lavando carro sem sabão

Esse sistema é extremamente flexível, resolve o problema da falta motivação dos alunos da High School e, como está fora dos debates e não sofre pressões políticas, não vive o dilema do acesso à educação, graças a padrões mais brandos de avaliação. Ainda assim, para o articulista, o sistema à sombra não é o salvador da pátria.

Para que o sistema informal floresça, é preciso que o país seja um bom criador de empregos. E, nisso, os americanos são disparados os melhores: criaram mais de 50 milhões de novos postos desde os anos 70. Se o país não criar empregos, os empregados não estarão dispostos a investir suas economias em cursos de treinamento, pois haverá o risco de a empreitada dar com os burros n'água e de continuarem na fila do desemprego.

Para isso, ele propõe uma medida liberalista de flexibilização das leis trabalhistas e diminuição de impostos sobre a folha de pagamento. A idéia é pôr autoridades européias, por exemplo, de cabelo em pé. Mas Samuelson não vê alternativa. No atual sistema, diz ele, "deixamos muita gente ir longe, mas o que lhe damos como formação não é de grande qualidade".

Ele compara a educação americana a um lava-carros que não usa sabão. "Ao final de vários lavagens a jato de água [as chances de recuperação escolar], alguns carros serão lavados, mas seria mais fácil se usássemos sabão", arremata.

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Vitor Casimiro
Exclusivo para o Educacional



 
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