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A escola como ela é

Para o psicólogo Júlio Groppa Aquino, o que torna conturbada a relação professor-aluno e o dia-a-dia da sala de aula é a dificuldade do educador em dialogar com a complexidade da vida contemporânea. Segundo ele, os PCN seriam uma forma de mediar esse diálogo.

Mais direto impossível: "Não vim para falar de coisas docinhas, vim falar do mundo cão que vivemos na escola." Foi assim que Júlio Groppa Aquino, professor de Psicologia da Educação da USP introduziu sua exposição na Educar 2001. Para ele, debater a educação de forma muito generalista é fazer um "discurso cindido", é vê-la em "um campo idealizado" e afastar-se do dia-a-dia da sala de aula, local privilegiado para constatar os dilemas educacionais.

Em sua palestra intitulada "Ética Docente", o especialista em cotidiano escolar enfatizou a importância da relação professor-aluno. "O bicho pega é na sala de aula. É lá que nós somos cobrados para sermos cada vez mais éticos", observa. "E se eu estou discutindo ética é porque as coisas não vão bem", advertiu. Segundo ele, apesar de estarmos o tempo todo discutindo o que é certo ou errado, dificilmente os professores discutem ética porque têm "uma profissão corporativa pra caramba".

Na sua opinião, a postura típica do professor é estar com a sensação de dever cumprido. "Todos se consideram éticos, responsáveis e dando tudo de si. Todos os professores se consideram parte da minoria ética." Para ele, isso é um trampolim para que se adotem "teses conspiratórias" para justificar os problemas quando as coisas vão mal na escola. "A culpa é do neoliberalismo, da globalização, de Hollywood, da Xuxa, do Bozo, até da aveia Quaker", ironizou.

Para Júlio Groppa Aquino, é preciso "criar estratégias em vez de ficar se queixando". Ele frisou a urgência para que isso seja feito. "Se não fizermos, outros farão por nós, vão baixar um Código de Ética para o professor." Proposta que ele não aprova: "É óbvio que, no momento em que houver um Código de Ética, nós estaremos dispensados de pensar. Agora é 'aplique-se', e ética é quebrar a cabeça", afirma.

Quebra-cabeça contemporâneo

Ele argumenta que tal quebra-cabeça deve ser analisado sob a ótica das mudanças da sociedade brasileira desde o final da ditadura e a consolidação da democracia nos anos 90. Transformações que, segundo ele, a escola não acompanhou. "Nossa geração foi criada calando a boca quando alguém mandava", lembrou.

Para o psicólogo, isso não funciona mais. O problema estaria na insistência da escola em manter relações de subordinação, nas idéias de superioridade e inferioridade entre os membros da comunidade escolar. "Todo mundo sabe que só se mantém a coesão social, em sociedades democráticas, com ação preventiva, com educação", disse.

Prova de que o universo escolar continua baseado na autoridade seriam os alunos constantemente postos para fora. "Se você quiser saber o que é uma sala de aula é só ficar no corredor ouvindo as histórias de quem é mandado pra fora", disse. Ou o excesso de encaminhamentos pedagógicos: "Desde os anos 80, uma série de profissionais vive de encaminhamentos... Quanto mais a gente encaminha, mais a gente se desincumbe da responsabilidade e se enfraquece como profissão. Os problemas da sala de aula são nossos", completou.

Segundo Groppa Aquino, a necessidade de chamar para si a responsabilidade e reinventar sua função social não é exclusiva de professores. Trata-se de uma questão contemporânea. "O que antes era ser uma boa mãe? Era cuidar dos filhos... Sua avó não foi questionada como era ser uma boa mãe", comparou. "A liberdade [alcançada com o fim da ditadura] tem o preço de não se saber o que fazer. Por isso é que precisamos de uma discussão ética para encontrar o caminho."

Alunos são a nossa cara

Só que nessa discussão, segundo ele, não vão ser as normas disciplinares e os regimentos internos que vão resolver o problema. "É preciso sair da mediocridade na discussão do cotidiano escolar e parar de estranhar a clientela. Nossos filhos são a cara da gente (...) A clientela da escola não vai mudar, é essa que está aí e é com ela que a gente vai ter que sambar até cair", disse.

Para Groppa Aquino, novamente o problema seria o fosso que separa a escola e o educador das transformações que a sociedade atravessa. "A nossa escola perdeu tanto terreno, é como se ela não tivesse nada a ver com a vida, como se fosse uma preparação para vida, e tivesse se esquecido de que ela é a própria vida", lamentou.

A alternativa apontada para esse impasse não seria render a clientela, mas dialogar com ela.
"Os 'bandidos', 'delinqüentes', 'quase assassinos de professores' são muito colaborativos em outras situações. O que eles estão querendo dizer com isso?", indagou-se.

"Estamos coalhados de educadores técnicos, que dão conta das tarefas, provas e correções, mas não conseguem se relacionar com a riqueza de alunos de uma sala de aula", lamentou. Apesar de não se considerar um "defensor" dos Parâmetros Curriculares Nacionais, ele acredita que os PCN seriam uma forma de mediar esse diálogo. "Eles tratam de coisas que têm a ver com nossa demanda", disse.

"Vocês vão ter que escolher se vão querer ser profissionais que dialogam com a complexidade da vida contemporânea ou se vão viver no bom e velho passado", concluiu.

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Vitor Casimiro
Exclusivo para o Educacional



 
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