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"A falta de sonhos é o que faz com que processos eleitorais estejam esvaziados."


Renata Afonso
"As ações de ONGs sérias atentam para a necessidade de se envolver mais, de participar politicamente, enfim, acho que essa participação direta acabará revertendo em maior
envolvimento na política."


A que você atribuiria a modesta participação dos jovens, cujo voto é facultativo, no processo eleitoral?
Olha, sinceramente, acho essa preocupação toda com o voto algo exagerado e meio importado dos EUA. Lá o voto é supremo, o voto é isso, o voto é aquilo. Acho que precisamos descobrir outras formas de participação popular mais diretas e menos pontuais. "Ó, estou exercendo minha cidadania! Fui lá um dia em quatro anos e meti um pedaço de papel na urna (agora se apertam botões) e nos outros 364 dias me lixo para o que estão fazendo com o dinheiro público, não acompanho o que rola nas votações, não sei o que as ONGs e outras instituições estão fazendo na área social, não participo na minha escola ou faculdade, não sei o que é preservar o meio ambiente."
Enfim, a juventude já está de saco cheio dessa pontualidade, dessa falta de coisas mais a longo prazo, de perspectiva. A falta de perspectiva de um futuro melhor, a falta de sonhos é o que faz com que os processos eleitorais estejam esvaziados. Por outro lado, os estímulos individualistas fazem com que pensemos cada vez mais em fazer o nosso, ganhar o nosso e que a sociedade toda se ferre.

A maior parte dos cientistas políticos rejeita a idéia de indiferença dos jovens quanto à política. Eles dizem que os jovens têm preferido a participação direta em ONGs porque há uma descrença nas instituições democráticas depois de tantos escândalos. Você concorda?
Mais do que concordo. O que as pessoas não sabem é aproveitar esse enorme potencial da juventude e também a disponibilidade. Na adolescência, em especial, você tem uma necessidade de estar num grupo, e atividades voluntárias e legais podem permitir essa socialização, ao mesmo tempo que atividades sociais estão sendo desenvolvidas. E, inclusive, todas as ações desenvolvidas por ONGs sérias e com visão moderna - não essas associações filantrópicas centenárias que, em geral, são conservadoras e preconceituosas - têm uma forte preocupação em trabalhar e discutir o que é cidadania, ética e outros valores tão dispersos. Elas atentam para a necessidade de se envolver mais, de participar politicamente, enfim, acho que essa participação direta acabará revertendo em maior envolvimento na política.

O fato de a parcela de jovens eleitores ser tão pequena talvez explique a escassez ou a ausência de políticas públicas destinadas exclusivamente aos jovens. Qual a sua opinião a respeito?
Discordo. Se fosse assim, todas as reivindicações das mulheres estariam resolvidas e essa politicagem e esses governantes que estão aí se preocupariam mais com nossos direitos, o que não acontece. Mais do que participar como eleitores, o que conta para a formulação de políticas públicas é a pressão do dia-a-dia, dizer que vamos escancarar na mídia, que exigimos direitos de uma vida digna, mandarmos e-mails, articularmos um grupo.

Como é possível contribuir para aumentar a participação dos jovens nos processos de decisão? O governo brasileiro tem demonstrado algum interesse nisso?
Olha, alguns setores do governo, sim. Na verdade, esses espaços muitas vezes se transformam em meros espaços de enfeite. "Temos um(a) jovem opinando sobre nossas políticas." Tudo mentira. Isso aconteceu com o comitê assessor do Ministério da Saúde na área de saúde do adolescente e do jovem. Eu era uma das representantes da juventude. Tínhamos umas reuniões em que opinávamos e tudo era feito diferente depois. Fizeram um fórum porque queriam que os(as) jovens que estivessem presentes fossem eleitos. Criaram um clima de guerra no Fórum Nacional sobre Juventude e Saúde. Fui uma das três eleitas. Sabe quando foi isso? Em agosto do ano passado. Sabe o que aconteceu desde então? Nenhuma reunião, e ainda por cima fecharam a área de saúde da adolescência e da juventude. No Ministério da Educação, ouvem muito pouco os grêmios e centros acadêmicos que, como sabemos, são nichos partidários que não servem para pensar coisas novas.
Talvez no âmbito do município e do bairro a coisa funcione com mais facilidade. No entanto, não adianta só botar jovens para ocupar esses espaços. Tem de qualificar essa participação.

Você conhece algum país que tenha conselhos ou outros mecanismos pelos quais as aspirações da juventude possam chegar aos seus representantes?
Portugal, sem dúvida. Até outros países da América Latina já despertaram para isso, como a Argentina. Mas na Argentina isso é um fator cultural, já vem da criação. As pessoas discutem política por todos os cantos, e os jovens são muito incentivados a se associar.

Você comentou uma experiência mexicana cujo objetivo era despertar em jovens e crianças o desejo de votar. Como foi essa experiência?
Um amigo meu me contou que a idéia foi colocar, no dia das eleições, urnas em praças e pontos em que circula muita gente. Jovens e, em especial, crianças eram convidados a votar. Essa é uma maneira de despertá-los para a importância do voto e da participação no processo eleitoral.

Como o Parlamento Mundial da Juventude pode se inserir nesse processo de aproximar os jovens dos representantes?
O Parlamento é uma iniciativa de um grupo de jovens australianos apoiado por grandes fundações. São jovens que querem pensar novas formas de sociedade, quebrar mesmo com esse modelo devastador que está aí. O Parlamento é como um congresso, e não como uma câmara. Ele vai se realizar em outubro, mas não é algo permanente.

Como se deu a escolha dos delegados brasileiros para o Parlamento Mundial da Juventude?
Os delegados e delegadas de todos os países foram selecionados por seus currículos. Estava circulando um formulário específico. Você se apresentava e um comitê internacional selecionava os delegados.

Parece que você está com dificuldade de obter financiamento para sua viagem. O que houve?
Na verdade, esperávamos que o próprio fórum pagasse nossa passagem. Nem eu, nem Daniel Cara [o outro representante brasileiro selecionado pelo Parlamento] vamos ao fórum sem recursos. Eu não vou, até porque não tenho dinheiro. Agora, é um absurdo não termos um órgão responsável por financiar esse tipo de participação. Financiam 15 cadetes da Aman para irem a uma cerimônia no Uruguai para honrar a morte de um ditador e não financiam dois delegados brasileiros.

Como serão os trabalhos em Sydney?
o Parlamento está dividido em três grandes áreas temáticas: Juventude em Conflito, Combatendo o Ciclo de Pobreza e Ativismo Cultural. Dentro de cada um desses grupos, há inúmeros grupos de trabalho.

Se você viabilizar sua viagem, de que grupos você fará parte?
Caso vá, eu vou estar no grupo Ações Criativas para Mudança, falando do meu trabalho e da utilização dos meios de comunicação para mobilizar jovens a falar de seus problemas. Também pretendo estar no grupo de trabalho Futuros Sustentáveis, que discutirá a relação da juventude com o meio ambiente e também com as relações econômicas que tanto destroem o planeta. No grupo Quebrando o Ciclo de Pobreza, estarei discutindo, em especial, a situação das jovens e como as mulheres são afetadas desde a infância em seu processo de desenvolvimento, bem como sobre as que mais sofrem fisicamente e psicologicamente com a pobreza.


Renata Afonso é delegada jovem do BID
- Banco Interamericano de Desenvolvimento -
e do Parlamento Mundial da Juventude.


 



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