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13/02/2004
 

As estações de chuvas estão provocando inúmeras tragédias sociais no país. Já que não é possível evitar o fenômeno natural, a solução está em tomar precauções para minimizar as conseqüências dele. Saiba como fazer sua parte e conheça os riscos que as enchentes trazem para a saúde.

“O sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão”, profetizava Antônio Conselheiro, ou Santo Antônio do Mar, como ficou conhecido por seus seguidores. O “santo” ficou famoso por ser líder de uma seita religiosa que foi massacrada pelo exército durante a Primeira República, no episódio histórico conhecido como Guerra de Canudos.

Ironicamente, o local onde se encontrava o vilarejo da seita hoje jaz sob toneladas de água do açude de Cocorobó, no sertão da Bahia. Por causa da falta de chuva e da construção do açude, o Rio Vaza Barris, que alimentava a vila, secou. Mas agora, passados mais de 100 anos das profecias do beato, a estação de chuvas transformou o Vaza Barris novamente em rio e, por pouco, a previsão mais famosa do “santo” não se realiza: a caatinga, vegetação que servia de refúgio aos cangaceiros, está embaixo d’água em lugares onde não chovia tanto há mais de 20 anos. Aquilo que era para ser bênção, tornou-se calamidade. O que ocorreu em Conde, município baiano situado a 157 km de Salvador, é exemplo disso: 80% das ruas ficaram alagadas em conseqüência da cheia do Rio Itapirucu-Açu, que margeia a cidade e, por isso, só está sendo possível se locomover de canoa.

 

Agência Brasil - Valter Campanato
A cidade histórica de Goiás Velho, tombada pela UNESCO, foi arrasada pela força do Rio Vermelho.
De acordo com um balanço do Ministério da Integração Nacional, as chuvas do início do ano afetaram 264 municípios de 15 estados. No Nordeste, vários estados que costumam aparecer nos noticiários apenas por conta da seca, desta vez, são notícia em razão das enchentes: Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe sofreram por causa das chuvas. Mas o mar não virou sertão: também sofrem com o excesso de chuvas os estados de Goiás, Mato Grosso, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo e Minas Gerais.

E as inundações vêm deixando marcas: pelo balanço do Ministério da Integração Nacional, até o fim do mês de janeiro, as chuvas já haviam ocasionado pelo menos 66 mortes e 21 desaparecimentos. Em todo o país, as águas destruíram cerca de 2.500 casas, deixando aproximadamente 15 mil pessoas desabrigadas e outras 20 mil foram danificadas, obrigando os moradores a saírem temporariamente de suas residências.

O Rio São Francisco, antigo coração dos estados do Nordeste, há mais de 18 anos não tinha seu leito tão cheio como agora, o que obrigou que as comportas da hidrelétrica de Paulo Afonso, localizada entre os estados da Bahia e Alagoas, tivessem de ser abertas, depois de ficarem fechadas durante 10 anos, para dar vazão à água. Isso colocou em alerta as cidades situadas à margem do Velho Chico.

Com as enchentes, outros perigos vêm à tona: nas regiões com encostas, já são tradicionais os deslizamentos de terra, que destroem casas e fazem muitas vítimas. A distribuição de água potável, energia e telefonia fica comprometida, e o risco de doenças por contaminação aumenta. E, mesmo com toda essa água, algumas regiões do país correm o risco de sofrer novamente com o racionamento de energia, já que as chuvas estão ocorrendo desordenadamente e longe dos reservatórios de água.

Os prejuízos nas cidades não atingiram apenas os mais carentes. O bairro do Morumbi, em São Paulo, que possui um dos “metros quadrados” mais caros do país, ficou completamente alagado por vários dias.

De acordo com o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), o calor e a umidade são os maiores responsáveis pelo alto índice de chuvas nas regiões Sul e Sudeste.

Agência Brasil - Ricardo Stuckert
O presidente Lula observa, de helicóptero, o estrago causado pelas enchentes em Petrolina, PE. Benção da chuva acabou se tornando calamidade no sertão.

Já no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, o excesso de chuvas é resultado da atuação de fenômenos meteorológicos comuns nessa época do ano, que podem ser agravados por frentes frias vindas do Sul do país.

Mesmo assim, as enchentes não trazem apenas desgraça. No Ceará, a grande quantidade de chuva garantiu, inclusive para Fortaleza, abastecimento de água até 2008. No açude de Orós, as águas atingiram o sangradouro, com uma marca de quase 2 bilhões de metros cúbicos de volume. É como se alguém despejasse uma baía da Guanabara no meio daquele sertão.

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