Cartaz do filme
Basquete Blues:
eleito melhor filme
pelo público no Festival de
Sundance em 1994.






William Gates:
“Se aparecer uma chance
eu jogo, mas meu interesse
está no campo das comunicações”.






Arthur Agee:
“Ainda que não chegue à NBA,
jamais vou ganhar dinheiro
vendendo drogas”.







Livro do jornalista
Ben Joravsky conta
detalhes que ficaram
de fora do filme.



Basquete Blues mostra como o
esporte muda a vida de jovens nos EUA


Documentário acompanhou a trajetória de dois adolescentes do gueto à universidade.

Na terra do "Tio Sam", quem serve de modelo para a molecada dos bairros pobres são os astros da NBA, a liga de basquete profissional americana. Ao contrário dos garotos brasileiros, que almejam vestir a camisa da seleção canarinha, eles não vêm da várzea ou do campinho de pelada.

Quem chega à NBA já saiu ou sairá em breve de uma universidade com o canudo debaixo do braço. O recado é curto e grosso: para se dar bem na vida é preciso estudar, mesmo que se pretenda passar o resto dos dias dando saltos e encestando uma bola de basquete.

O filme Basquete Blues desvenda como funciona esse sistema de "subir na vida", cujo elevador é o esporte. Os Estados Unidos têm fama de país das oportunidades. Quem tiver talento e trabalhar duro vai alcançar o seu lugar ao sol: sucesso, glória e dólares. O documentário mostra que o sonho americano, ao menos no esporte, é para poucos.

Até na NBA, que tem o maior campeonato do mundo na modalidade, a peneira é cruel. No campeonato universitário, que é o trampolim de acesso à NBA, há cerca de 50 mil atletas inscritos. A cada ano, somente 25 jovens para quem o basquete significa tudo vão ter a chance de jogar com seus ídolos. Mas as semelhanças com a realidade brasileira encerram-se aí.

Mesmo que entrar em uma equipe profissional não passe de um sonho infantil, a partida já está ganha. Os jovens já arremessaram a pobreza para longe e enterraram para sempre a vida nos guetos. O tempo que passaram treinando não foi em vão. É o desempenho nas quadras da vizinhança que dá aos jovens bolsas de estudo para que defendam as cores de uma universidade no campeonato nacional.

O cineasta Steve James acompanhou a vida de William Gates e Arthur Agee entre 1986 e 1991. Nesses cinco anos, registrou cada problema que eles enfrentaram em casa, na escola e na rua em 250 horas de fita. Eles tinham entre 13 e 14 anos na época. Foram descobertos por um "olheiro" e convidados a estudar na Saint Joseph School, uma escola católica das mais tradicionais de Chicago.

William garantiu uma vaga de titular no time da escola até seguir para a Universidade de Marquette, em Wisconsin. O interesse que tinha pelo basquete, trocou por boas perspectivas de arrumar emprego na área de comunicação e mídia. Arthur penou um pouco mais. Foi cortado da equipe e teve que provar que era fera no time de uma escola pública.

Mas ele perseverou e concluiu o curso de Administração na Universidade do Arkansas.
Ao sair da faculdade foi parar em uma liga profissional de basquete no Canadá. Vestiu a camisa do Winnipeg Cyclones. Hoje Arthur se esforça para fazer decolar um projeto de ajuda a jovens carentes através do basquete.

Nenhum deles conseguiu se tornar cestinha da NBA. Mas se livraram de uma fria. O melhor amigo de Arthur tornou-se traficante no gueto e acabou preso.

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Basquete Blues (Hoop Dreams, EUA, 1994, 2h45) é um documentário de Steve James e conta a vida de William Gates e Arthur Agee, da periferia de Chigaco ao diploma. O filme serviu de base para o livro Basquete Blues (Companhia das Letras, 344 páginas, R$ 33,00), do jornalista Ben Joravsky.



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