ENTREVISTA
"A gente quer despertar na criança
a vontade de experimentar, de criar alguma coisa"
Como a história das invenções pode ser empregada de forma pedagógica?
A nossa proposta educacional é mostrar às crianças que, atrás de um objeto há sempre um ser humano que criou aquilo, que as coisas não brotam de repente. O objetivo é mostrar que o ser humano é movido pela curiosidade, pelo momento histórico do país ou pela ambição de ganhar dinheiro. Enfim, há sempre alguma coisa que move o ser humano a criar. E a gente quer despertar na criança, no jovem, a vontade de experimentar, de criar alguma coisa. Por isso, ao lado da exposição, a gente tem a Bancada da Criação, com vários objetos - canos de PVC, bambu, madeira - para eles criarem alguma coisa também.
Em sua exposição, a senhora foge do aspecto enciclopédico, de englobar tudo, comum a muitas mostras. O que a senhora levou em conta ao fazer essa coletânea?
O espírito da exposição é o da Sherazade. Condenada à morte, ela contava uma história que, ao final da noite, ainda não tinha acabado, e o rei continuava interessadíssimo. Por isso, poupava-a por mais um dia. Esse é o princípio: contar uma história, mas deixar pontos que ainda vão ser pesquisados quando a pessoa voltar para casa. A idéia é conduzir o visitante a se perguntar: o que mais foi inventado? Ou então, quando vir uma coisa nova, ela vai se perguntar: quem foi que inventou isso? Será que foi um brasileiro?
O próprio título da exposição, 500 Anos de Inventiva no Brasil, dá a entender que esse tema pode ser uma oportunidade de repensar a evolução técnico-científica do país...
É muito importante se pensar que temos a inventiva desde os índios e negros, desde o Brasil Colônia, assim como saber que a pouca quantidade de informação que temos sobre as invenções brasileiras dessa época é porque não havia estímulo. Tudo vinha de Portugal.
A senhora mostra que, nessa época, o Brasil mais fazia adaptações de inventos estrangeiros à realidade local que propriamente criava...
Exatamente. As moendas dos engenhos eram invenções árabes e persas que chegaram a Portugal, que as trouxe ao Brasil. Então eram feitas adaptações à madeira e às pedras brasileiras. Como as adaptações podiam ser patenteadas, é possível encontrar, no Arquivo Nacional, uma quantidade enorme de adaptações. Outro exemplo: já havia na Europa o manequim de pano. Aqui ele era feito de papelão, como um melhoramento.
Por que mesmo após o surgimento das primeiras leis de patentes os inventores brasileiros continuavam sem prestígio?
No final do reinado de D. Pedro II, já havia leis que concediam patentes. Mas trazer invenções de fora era considerado tão importante quanto inventar. A pessoa que trouxesse um invento para ser industrializado no Brasil ganhava um prêmio. Ela ganhava dinheiro com isso. Era muito estimulada a vinda de coisas importadas para serem reproduzidas aqui, mas não a criação.
E até quando durou essa situação?
Em 1823, começam os registros de patentes em grande quantidade. Nessa época, há uma melhoria das cidades, graças aos ciclos econômicos, principalmente o do café e o da cana-de-açúcar. Os fazendeiros ricos vêm às cidades para escoar a sua produção e, a partir daí, há novas exigências, porque eles são pessoas ricas, com formação européia. A casa de pedra é substituída pela de tijolo, a taipa dá lugar à telha, ocorre a higienização das cidades. Enfim, a gente foi pinçando algumas dessas invenções.
E qual era o perfil desses primeiros inventores? Na maioria das vezes, as invenções eram fruto de iniciativas individuais de pessoas obstinadas, não é?
Sim, era muito mais do que uma questão de ganhar dinheiro, industrializando aquilo. Ainda não havia fábricas para produzir os objetos em larga escala. Era uma coisa muito pequena, muito tímida.
Como eram iniciativas individuais, os inventores eram vistos como excêntricos, não tinham seu trabalho devidamente reconhecido nem apoiado pelo governo.
Eles não eram prestigiados. O padre Landell de Moura é o exemplo clássico disso. Aqui no Brasil ele não conseguiu o registro das ondas curtas. Ele teve o seu laboratório queimado, perdeu vários de seus inventos. Era considerado louco. Praticaram toda a sorte de crueldade com ele. Também a questão da universidade e dos grandes institutos - como o IPT, a Fapesp, a COPPE - que patrocinam e desenvolvem pesquisas... Tudo isso é muito recente. Só em meados da década de 80, 90, é que se investiu mais. Então, os primeiros inventores criavam em fundo de quintal. Raros tinham uma graduação.
Outros inventores que não são comumente valorizados são os índios e negros. É interessante que sua exposição trate esses artefatos não como artesanato, mas como invenções, soluções tecnológicas...
É claro que eram invenções. Você veja a rede: os índios resolveram o seu problema para dormir com algo fresco, arejado e tecido por eles. Outra coisa que faz dos índios grandes inventores é a beleza, a estética. Você pega uma panela indígena, e ela é toda desenhada. Ela não precisaria ser enfeitada, afinal vai para o fogo a lenha. Mas mesmo assim tem todas aquelas formas, é toda trabalhada. As peneiras, as cestas, a pintura corporal, em que havia uma pintura para cada ocasião, tudo isso é altamente inventivo.
Outra coisa que está presente na exposição é a preocupação de fazer inventos que não agridam o meio ambiente, que reaproveitem os resíduos, que não poluam.
A gente chama essa seção de inventos para uma sociedade sustentável. Essa preocupação existe em muitas universidades. Há inventos como o plástico biodegradável, a queima do lixo hospitalar por plasma térmico, o sistema de esgoto em que você não tem problemas com o declive. Enfim, são milhares de inventos aproveitando as coisas da natureza, e eu acho que isso tende a crescer muito.
A exposição dá destaque também à importância da patente. Por que tratar dessa questão em uma exposição sobre a história das invenções brasileiras?
A gente quer mostrar que o inventor tem o direito de usufruir o seu invento e que há um mecanismo legal para isso. Existe um órgão do governo, o INPI - Instituto Nacional de Propriedade Industrial -, que registra as patentes. É um processo longo, demorado, mas garante a industrialização do invento e, conseqüentemente, o lucro com a sua comercialização. É o respeito ao que a pessoa cria. Isso mostra que o invento pertence a alguém e que é crime copiar, piratear. A gente tem aqui no Brasil a cópia do livro, do CD, e não dá ao autor o direito que ele tem.
Depois dessa temporada em São Paulo, essa mostra seguirá para outras cidades?
A exposição foi criada com dois objetivos. Primeiro, criar durante dois anos, nos seminários da ABPI - Associação Brasileira de Propriedade Intelectual -, um ambiente agradável para que participantes possam ver a exposição, conversar sobre as invenções brasileiras durante o evento. O primeiro foi agora, no mês passado, em São Paulo. Entre um seminário e outro, a exposição vai itinerar por casas de ciência do Brasil todo.
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