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Ferreira Gullar – a poesia que perfura


Por: Gabriela Brandalise

Num almoço promovido por um candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, há mais de dez anos, intelectuais ouviram durante horas as promessas do político de melhorias para a cultura. Enquanto seus colegas lhe perguntavam como seriam distribuídas as verbas para o setor, Ferreira Gullar ficou calado o almoço inteiro. Quando os garçons já recolhiam louças e talheres, ele soltou: "Olha, está tudo muito bom, mas eu não quero fazer proposta nenhuma. Só quero saber o seguinte: quando é que alguém vai governar em favor do desamparado, do pobre, daquele que não tem vez?"

Por essas e muitas outras, Ferreira Gullar, pseudônimo para José Ribamar Ferreira, é aplaudido de pé. Sem rodeios, faz arrebentar em palavras aquilo que pensa. Assim, sua poesia foi além do lirismo. Ajudou a refletir sobre a arte brasileira, influenciou mudanças políticas e sociais e causou incômodo desde o princípio: foi preso juntamente com Paulo Francis, Caetano Veloso e Gilberto Gil em 1968 e levado ao exílio em 1971. É um intelectual que elaborou e reviu posicionamentos.

Como fez no restaurante dez anos atrás, faz até hoje: foi remando contra a maré que desenhou sua trajetória, como ele mesmo declarou em entrevista recentemente na Festa Literária Internacional de Paraty, no Rio de Janeiro. Sua arte é subversiva, nasce de um espanto, de algo inesperado, que o surpreende. Pode ser o cheiro da tangerina, o osso da perna que bate no móvel ou a realidade da política brasileira.

Foi assim que escreveu uma de suas grandes obras, Poema sujo. O Brasil estava debaixo da Ditadura Militar. Gullar estava em Buenos Aires. Seu passaporte tinha sido anulado pela embaixada brasileira e, sem poder embarcar para a Europa nem voltar para o Brasil, o poeta se viu encurralado. Pensou que morreria e quis deixar algo em seu nome e no daqueles que sumiam. Nasceu então o Poema sujo, uma manifestação de angústia e repulsa contra o totalitarismo. Gravado numa fita, o texto chegou ao Brasil em 1976, trazido pelo poeta Vinícius de Moraes. Virou um hino naqueles anos. Artistas e intelectuais promoviam reuniões para ouvi-lo. Hoje, o poema já foi traduzido para várias línguas e é respeitado pela crítica com unanimidade.

Muito tempo se passou, e Gullar está vivo como nunca. Aos 80 anos, ele se diz saudável. Não se sente com idade avançada. É apenas uma questão de cronologia, não de espírito, segundo ele. A coroação do trabalho foi o Prêmio Camões 2010, no valor de 100 mil euros, que recebeu na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. O prêmio é concedido anualmente pelo Ministério da Cultura e o Instituto Camões, de Portugal. O poeta foi escolhido pelo conjunto de sua obra – decisão mais do que justa tomada pelo júri no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.