Elifas Andreato: a arte contra os militares
 

Elifas Andreato é um dos mais importantes artistas gráficos do país. Nasceu em uma família humilde em Rolândia, interior do Paraná. “Rolândia é uma cidade para onde foram muitas famílias judias alemãs fugindo da Segunda Guerra. Mas eram todas burguesas, intelectuais e artistas. Foi difícil para elas serem colocadas no meio de uma selva quase tropical com enxadas na mão”, conta. Mas ao contrário de seus ancestrais, Elifas trilhou o caminho inverso.

Por causa de sua condição de miséria, foi analfabeto até a adolescência. Acabou tornando-se operário numa fábrica em São Paulo, mas já mostrava talento para a ilustração. Então, conseguiu um estágio na editora Abril. “Comecei a conviver com jornalistas que se tornaram meus grandes mestres”. Sem instrução formal de uma escola de artes ou de uma faculdade, tornou-se referência no meio intelectual e artístico do país e professor de Artes na USP. Hoje, ele dirige a conceituada revista Almanaque Brasil de Cultura Popular.

Sua convivência no meio intelectual, no fim da década de 1960 e início da de 1970, levou-o à militância política e à conseqüente perseguição por parte da ditadura. E é essa história de luta contra a censura, medo da morte e esperança de ver um país livre que Elifas contou ao portal.

O golpe
Quando o golpe aconteceu, em 1964, eu estava saindo de uma fábrica. Eu era um operário. De 1964 a 1967, eu não tinha muita consciência do que estava acontecendo no país. Quando entrei, como estagiário, na editora Abril, em 1967, eu tinha a impressão de que algo ruim tinha acontecido ao país, mas eu era um operário, desinformado e um pouco alienado. Então, comecei a conviver com jornalistas que foram meus grandes mestres. Fiz estágio nas revistas Quatro Rodas, Realidade, Claudia e Veja. Mas foi a partir de 1968, quando os militares decretaram o AI-5, que tive consciência do que tinha acontecido.

O começo da vida de militante e de procurado
Mesmo trabalhando na Abril, eu já militava. Eu e minha ex-mulher, Iolanda Huzak, que era fotógrafa, apesar de na época termos endereço e emprego, abrigávamos militantes clandestinos e produzíamos, ainda no mimeógrafo, em nossa casa, o jornal da Ação Popular (AP). Fazíamos isso com o repórter Carlos Azevedo, que na época trabalhava na revista Realidade. Ele escrevia o jornal, e eu o diagramava e ilustrava.

Por volta de 1969, fiz, juntamente com Azevedo, o Livro Negro da Ditadura Militar, em estêncil, uma máquina primitiva que tem uma tela fina em que se pode desenhar. Ali, criei aquela famosa caveira com o quepe militar. Logo depois, um de nossos companheiros da clandestinidade, chamado Aldo Arantes, hoje político em Curitiba, “caiu” (expressão que se dava para quem era preso pelos militares). Ele acabou confessando, sob tortura, quem eram os autores do livro. Então eu, Azevedo e outro jornalista, Raimundo Pereira, passamos a ser perseguidos pelo regime. Fomos seguidos durante muito tempo para sermos pegos juntos. Queriam fazer conosco uma matança como a que fizeram na Rua Pio XI, em São Paulo. Nessa ocasião, acabei não indo à reunião por causa de um problema que tive na Abril e escapei. Naquele dia, os militares mataram militantes ligados ao PC do B. [O episódio a que Andreato se refere aconteceu em 16 de dezembro de 1976, quando a casa onde estavam reunidos os dirigentes do PC do B, na Rua Pio XI, no bairro da Lapa, em São Paulo, foi cercada por agentes do DOI-Codi, que assassinaram Ângelo Arroyo, Pedro Pomar e João Baptista Franco Drumond.] Felizmente, nunca fomos surpreendidos juntos, mas soube que tentaram nos pegar em uma cilada para justificar uma matança como aquela.

A luta do Jornal Opinião contra a censura
Continuei assim até 1972, quando saí da Abril e fui fazer o Jornal Opinião, no Rio de Janeiro. Foi quando comecei a conviver com a censura diretamente dentro da redação. Nós tínhamos, no início, algumas formas de a burlar, como fazia o Estado de S.Paulo, publicando receitas no lugar das matérias censuradas. Mas nós éramos um jornal de oposição declarada. Às vezes, nem dormíamos, pois éramos obrigados a fazer duas ou três capas de uma mesma publicação. Quando não censuravam uma ilustração, censuravam parte ou mesmo textos inteiros, então tínhamos de criar anúncios no lugar deles, por exemplo. Mas várias vezes conseguimos ludibriar a censura.

Naquela época, a gráfica que utilizávamos era a do Jornal do Brasil, que ficava na Lapa, bairro boêmio do Rio. As prostitutas e os travestis acabaram tornando-se nossos protetores. Toda vez que a polícia chegava, eles davam um jeito de nos avisar do perigo.

Quando o jornal saía, um censor verificava se aquilo que tinha sido aprovado era o que havia sido impresso.

Existe um momento que me marcou muito por causa disso. Quando D. Paulo Evaristo Arns resolveu rezar uma missa em homenagem ao estudante Alexandre Vanucchi, morto pela repressão militar, decidimos produzir uma reportagem sobre isso. Eu desenhei D. Paulo a traço na redação e, na gráfica, apliquei a cor vermelha que aparece na roupa do cardeal. Quando o censor viu aquilo impresso, a primeira coisa que ele fez foi me dar um tapa na cara! Ele se sentiu ludibriado com aquilo, pois tinha aprovado um desenho preto e branco. Então, ele me pegou pelos fundilhos e, juntamente com Raimundo Pereira e Tarik de Souza, jogou-me num camburão. Ficamos presos umas três horas. Era humilhante o que eles faziam. Além de baterem, o interrogatório era extremante violento e repleto de insultos.

A partir desse momento, a censura sobre nós ficou muito mais acirrada. O sofrimento era ter de modificar o trabalho até que a capa ou a ilustração fosse aceita e esperar que na saída da máquina os primeiros exemplares não fossem alterados. Respeitando isso, as coisas se normalizaram, se é que se pode chamar de normal haver uma pessoa dentro da redação dizendo o que pode e o que não pode ser feito. Certa vez, Tarik de Souza produziu uma matéria falando de uma gravação da música Atrás da Porta, de Francis Hime e Chico Buarque, feita pela Elis Regina. A censura cortou o nome de Chico Buarque, pois o dele era proibido. Então, foi publicado Atrás da Porta, de Francis Hime.

Outras atividades
Em 1972, juntamente com Iolanda Huzak e Luis Trimano, o Castor, organizei uma comemoração dos 50 anos da Semana de Arte Moderna em São Paulo. Juntamos um grande núcleo de artistas na Fundação Getúlio Vargas e, claro, lá estava a censura. Foi um evento muito difícil de realizar, pois os agentes que ficavam infiltrados no movimento estudantil faziam de tudo para que houvesse algum episódio que justificasse uma reação por parte dos militares.

Certa vez, num show de Milton Nascimento, quando as cortinas se abriram, um sujeito apareceu e colocou a Bandeira brasileira na mão de Milton, que olhou aquilo e fez menção de jogar a Bandeira no chão. Mas eu cheguei a tempo de pegá-la e evitar que a polícia reagisse. Vale lembrar que, naquele tempo, os símbolos nacionais tinham sido roubados da gente. Eram todos da ditadura, e a gente repudiava o Hino, a Bandeira, etc. Como essa comemoração durou um mês, eu tive de tomar cuidado para que os estudantes não aceitassem esse tipo de provocação, que era o que eles queriam. Foi o aconteceu no Roda Viva, por exemplo. [Em 1968, um grupo de extrema direita chamado Comando de Caça aos Comunistas invadiu um teatro onde a peça Roda Viva, de Chico Buarque, era encenada, destruiu o cenário e espancou os atores.]

Então, ampliei muito minha área de atuação. Fui ilustrar livros, com destaque para uma coleção da Ática que me tornou muito conhecido entre os escritores do momento. Era a coleção Nosso Tempo, que me deu oportunidade de trabalhar ao lado de gente como Moacyr Scliar e Clarice Lispector. Então, passamos a usar metáforas, tanto eu, nas ilustrações, quanto os escritores, nos textos.

Passei a fazer cartazes de teatro. Como quase sempre os espetáculos eram censurados, os cartazes passavam pelo mesmo crivo. Quando o diretor Fernando Peixoto montou a peça Mortos sem Sepultura, do Jean-Paul Sartre, que se passa durante a Segunda Guerra, fiz um cartaz com um sujeito num pau-de-arara e, para disfarçar, botei um soldado alemão na frente. A censura viu aquilo, foi ao teatro, apreendeu os cartazes e mandou chamar Sérgio Vieira da Motta, que foi ministro de FHC e, na época, era dono da produtora Difusão, responsável pela peça. Ele reuniu a equipe e fomos para lá. Quando me perguntaram o porquê do pau-de-arara no cartaz, aleguei que se tratava de uma peça de um autor francês, que se passava na França durante a Segunda Guerra. E o censor respondeu: “vamos recolher, porque pau-de-arara é uma invenção brasileira”.

Medo da morte
Quando Wladimir Herzog foi assassinado, todas as pessoas envolvidas na militância e os simpatizantes ficaram apavorados. Herzog era um homem que trabalhava no Jornal da Cultura, tinha endereço e era conhecido. Foi o período mais marcante para todo esse grupo ao qual eu pertencia. Nós também começamos a ser perseguidos, mas felizmente a repercussão do assassinato dele, já no governo Geisel, provocou a demissão do comandante do Segundo Exército, e as coisas aos poucos foram amenizando-se. Mas, durante uns 15 dias, temi muito pela minha vida, achando que todos teríamos o mesmo fim. Havia uma decisão, que até hoje não se sabe de onde partiu, de aproveitar uma abertura para exterminar todos aqueles que fossem uma ameaça ao futuro do regime.

Aprendizado com a censura
Minha convivência com a censura tem, claro, um aspecto ruim, mas certamente foi o período de maior fertilidade e criatividade da minha geração. Ela nos instigou a superar todas as dificuldades para fazermos a nossa arte registrar aquele momento da história. Havia maior cumplicidade e solidariedade entre os artistas por causa da força que a censura exercia sobre nós, em todos os campos, seja na música, no teatro, no cinema ou na imprensa.

Naquele momento, quando fundei o Jornal Opinião, descobri que a ditadura montou um país que começava a ser retratado pela Rede Globo como o país ideal, o país do milagre. Então, a realidade que a fotografia não oficial registrava era muito inconveniente, havendo grande censura nessa área. Percebemos nisso a chance para resgatar os ilustradores, caricaturistas e chargistas. Loredano, Castor, Chico Caruso, Angeli, Laerte, todos começaram ali. Era a oportunidade de, com esperteza, fazer ressurgir a ilustração na imprensa brasileira.

A geração atual
O golpe para a molecada de hoje é apenas um momento ruim da história. É o mesmo que representou para mim, que estou com 57 anos, a Revolução de 30. Foi somente um fato histórico. E, para a meninada, é a mesma coisa. Está lá, registrado, sabe-se das barbáries cometidas, mas isso não chega a incomodar. A não ser quando se narra qualquer uma dessas atrocidades, pois é difícil para eles acreditarem, já que o país hoje vive uma democracia que permite as diferenças e as divergências. Parece que ele tem peso e significado apenas para quem o viveu.

Se o golpe não tivesse acontecido...
Certamente estaríamos infinitamente melhor. Os militares destruíram o ensino público, que era o que tínhamos de melhor no Brasil pré-revolução de 64. Tivemos apenas o desenvolvimento do que era necessário para a construção da imagem da ditadura, como as comunicações, por exemplo. Em contrapartida, os danos causados foram imensos. Se não fosse pelos militares, nossa democracia teria avançado, nossa economia não estaria engatinhando (não estando tão desigual e miserável) e o ensino público teria avançado, criando uma população mais educada e mais esperançosa. Foi um golpe que favoreceu as elites em detrimento das camadas mais pobres da população.


anterior |
   
 
  Introdução
  O Brasil de 1964
  1968 e 1974: da escuridão à luz no fim do túnel
  A linha dura
  Anistia
  As Diretas Já
  Um verniz de democracia
  Ziraldo conta o golpe
  Elifas Andreato: a arte contra os militares
  Paul Singer: a universidade e a resistência à ditadura
  Confira os relatos enviados por nossos usuários