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“Eu estava no 3.º ano do colegial em 1970 — durante os tempos
duros da ditadura, quando a repressão era muito violenta. Um dia, ao
sair da escola (Colégio São José, em São Paulo),
vi uma viatura do Dops parada em frente ao portão do colégio.
Dela, desceram dois homens armados, que logo entraram na escola. Ao saírem,
eles traziam uma colega minha. Eu não me lembro do nome dela, mas, sim,
que era uma morena linda de longos cabelos negros e sentava-se na primeira carteira,
era aplicada e fazia cursinho comigo. Isso foi um choque para mim. Anos depois,
soube que ela havia sido morta numa guerrilha. Foram anos difíceis. Eu
tinha medo de tudo!”
Tânia Maria Moreno — Curitiba, PR
“Quando aconteceu o golpe militar, em 31 de março de 1964, eu tinha
8 anos de idade. O regime durou 20 anos e, até hoje, só se fala
das perseguições políticas sofridas pelas pessoas. Os jovens
que naquela época iam às ruas para protestar contra o regime e
em defesa de direitos, da democracia e de melhoria para o país hoje estão
no poder.
Nos 20 anos de governo militar, uma geração inteira estudou em
escolas públicas excelentes. Estudei em uma escola técnica federal
que tinha um ótimo nível de ensino e em uma universidade federal
na qual existiam verbas para pesquisas, bolsas do CNPQ e outros benefícios.
Viajávamos em estradas pavimentadas e sem buracos. Éramos bem
atendidos nos centros de saúde dos municípios. Íamos à
escola sem medo de assaltos, tiroteios e seqüestros. A pesquisa no Brasil
funcionava. Lançamos satélites de comunicações,
éramos donos do nosso patrimônio. Existia o programa de alfabetização
chamado Mobral. Aconteceu o milagre econômico. Construiu-se a Itaipu,
a ponte Rio—Niterói, a BR-101, a BR-116, a Transamazônica,
a rodovia Belém—Brasília. As ferrovias funcionavam. A navegação
nacional de pequena, média e grande cabotagem existia e era operada em
grande parte por navios brasileiros.
O governo militar acabou em abril de 1985, durou 21 anos. O governo democrático
assumiu há exatos 20 anos, e aqueles jovens que faziam passeatas, que
foram perseguidos e hoje estão no poder fizeram o que com nosso país?
O ensino público não existe mais. A saúde não funciona.
As ferrovias acabaram. As estradas encontram-se abandonadas. As universidades
públicas estão em petição de miséria. Programas
habitacionais já não existem. Nossa frota mercante não
mais existe. As pesquisas idem. Nossos filhos não vão mais para
a escola tranqüilos. Assaltos, tráficos, seqüestros, corrupção
em todas as esferas. Nosso patrimônio foi vendido. O desemprego é
enorme. E isso em apenas 20 anos de governo civil.
Então, não façamos somente críticas ao governo
militar. Falemos também para os nossos jovens sobre as realizações
feitas naquele período. Falemos das coisas boas e ruins que existiram
naquele período e deixemos os jovens tirarem suas conclusões.
Esse é o meu grito contra os destinos que o nosso país vem tomando
de 1985 a 2004.”
Reginaldo Costa — Lauro de Freitas, BA
“Meu nome é Lívia. Tenho 10 anos e uma história
para contar sobre o golpe.
Quando meu pai fez 17 anos, ele se envolveu com uma organização
clandestina de esquerda. Desde cedo, ele sempre foi muito bem-informado. E como
todas as pessoas da idade dele que também eram bem-informadas naquela
época, meu pai era de esquerda. Ele se tornou comunista e lutou contra
a ditadura. Até que se envolveu com um grupo de militantes que estavam
sendo perseguidos pela polícia militar e por todas as outras polícias
que existiam.
Começaram a achar que meu pai era o líder do grupo e, por isso,
ele foi o mais perseguido, mas conseguiu se safar. Tempos depois, ele foi a
um congresso da Quarta Internacional na Europa e, quando voltou, o nome dele
apareceu em uma revista de direita da época (O Cruzeiro), que dizia:
“O líder do movimento trotskista brasileiro volta da Quarta Internacional
na Europa”. Esse seria o meu pai.
Naquela época, já havia um monte de processos contra meu pai
na justiça militar. Logo depois, foi publicada a lista da anistia, em
que estava o nome dele. Isso aconteceu até ele conhecer minha mãe,
casar-se com ela e eu nascer. Hoje, meu pai tem 47 anos e parou de militar,
mas eu aposto que, se houver outra ditadura daqui a dez anos, ele voltará
a militar e eu irei junto com ele.”
Livia Melamed Margon — Rio de Janeiro, RJ
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você tem alguma história interessante sobre
o período militar que gostaria de compartilhar,
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