O
jornalista Oscar Pilagallo, autor do livro A História do Brasil no Século
20 (1960-1980), da coleção Folha Explica, conversou com
o portal sobre os detalhes da trajetória do governo militar, desmistificando
alguns pontos, como a participação norte-americana no golpe e o
porquê da alternância de presidentes militares no período.
“Havia uma pequena preocupação em dar uma máscara democrática
ao regime militar”, conta o escritor.
Jornalista desde 1975, ele morou em Londres entre 1986 e 1991, quando trabalhou
no Serviço Brasileiro da BBC. Em 1993, recebeu o Prêmio Esso de
Reportagem Especializada. Atualmente, conclui essa série de cinco livros
sobre a história do Brasil no século 20.
Veja a seguir a entrevista dada pelo jornalista ao portal.
Quando ocorreu o golpe de 64, a sociedade em geral tinha a impressão
de que ele não seria algo duradouro. O que levou o golpe ao regime militar
de mais de 20 anos no país?
A idéia inicial do grupo militar que deu o golpe era fazer algumas
mudanças na economia do país, afastar o perigo do comunismo —
que ele enxergava no governo de Goulart — e acabar com o radicalismo e
o poder dos sindicatos. Na seqüência dessa “reorganização”,
o grupo queria devolver o poder aos civis. Tanto que estava preparada uma eleição,
que deveria ter acontecido em 1965.
O fato é que não houve tempo para os militares fazerem essas
reformas como gostariam. E aí a coisa começou a se estender, primeiro
com a extensão do mandato de Jânio Quadros, que, na época
do golpe, era exercido por Jango, já que Jânio tinha renunciado.
Quando Castello Branco assumiu, ele deveria apenas terminar esse mandato. Mas
os militares perceberam que teriam muito pouco tempo para fazer as reformas
que julgavam necessárias.
Depois disso, o regime nunca mais teve uma duração predeterminada.
Quando Costa e Silva assumiu, os militares já não pensavam em
prazos para terminar o governo militar, como se previu na época do golpe,
mas também ninguém imaginou que ele iria durar 21 anos.
E como a população recebeu o golpe?
O golpe teve um grande apoio popular. Ele dividiu a sociedade brasileira da
época. Muita gente estava com Jango, principalmente a classe operária,
as pessoas ligadas aos sindicatos, todos os partidos mais simpáticos
à esquerda e até partidos populistas. Ele tinha apoio até
de parte dos militares. Outra grande parte era contrária. A classe média
em geral, influenciada pela grande imprensa, que era contra o governo de Jango,
foi distanciando-se da Presidência a tal ponto que, quando a época
do golpe se aproximou, já havia uma posição da sociedade
favorável aos militares. Estes também tinham o apoio da Igreja
Católica mais conservadora, da UDN de Carlos Lacerda e de outros partidos
conservadores que tinham medo da chamada “ameaça comunista”,
do radicalismo e da retórica de Jango.
Esse golpe teve o aspecto militar sempre mais ressaltado porque iniciou o ciclo
militar, mas também recebeu um apoio expressivo da sociedade, da classe
média e até do empresariado. A denominação mais
correta seria golpe “cívico-militar”, algo que contemplasse
a participação civil num golpe que foi militar.
Costuma-se dizer que houve influência norte-americana nos golpes militares
na América Latina. Até onde essa influência esteve presente
em 64?
O que se sabe é que o governo americano, por intermédio de sua
embaixada aqui no Brasil, estava totalmente a par da conspiração
dos militares, que começou a tomar fôlego desde o início
do ano. O governo dos EUA não fez nada ativamente para patrocinar o golpe.
Mas os americanos montaram uma operação militar chamada “Operação
Brother Sam”, que tinha como objetivo dar apoio militar aos golpistas
e consistia na disponibilização de uma esquadra de navios de guerra
e até mesmo de petroleiros que entrariam em ação caso houvesse
uma interrupção de fornecimento de petróleo, armas e mantimentos.
Essa esquadra chegou até a sair dos EUA em direção ao Brasil
para dar apoio aos golpistas caso houvesse uma reação do governo.
No entanto, logo ficou claro que não haveria resistência nenhuma.
Jango tinha até alguns militares ao seu lado, mas preferiu “entregar
os pontos”, de modo que a ajuda americana não precisou ser acionada.
Basicamente, o papel dos americanos foi esse.
Por que o regime militar no Brasil não parece ter o mesmo peso para
a população que teve em outros países, como na Argentina
e no Chile?
Houve duas diferenças básicas entre o período militar do
Brasil e o de outros países da América Latina. A primeira é
que a repressão aqui foi grande para os padrões brasileiros, mas
em relação ao que aconteceu na Argentina e no Chile, por exemplo,
foi muito menor — nesses países, a matança foi maior, assim
como o número de casos de tortura e de desaparecimento de políticos.
A reação popular argentina e chilena foi mais visceral e proporcional
ao mal que foi causado pelos regimes militares nesses países. Em segundo
lugar, o fato de os militares brasileiros terem optado por um sistema que permitisse
uma abertura política gradual, que ao longo de algum tempo devolveu o
poder aos civis, diluiu um pouco o rancor que existia. Houve gradualismo nesse
sentido, ajudado por uma anistia negociada por ambos os lados que absolveu até
mesmo os torturadores. Tudo isso serviu para que a transição no
Brasil fosse mais tranqüila do que, por exemplo, na Argentina, onde os
governantes de um dia tornavam-se prisioneiros no dia seguinte.
A ditadura no Brasil também era caracterizada por não ter
uma figura de ditador...
Esse é outro ponto, já que, assim, a ditadura brasileira não
ficou personalizada. Ao contrário do Chile, com o Pinochet, aqui tivemos
um ciclo de presidentes, e cada um tinha sua própria característica,
dando nuances mais ou menos rudes aos “anos de chumbo”.
O próprio projeto inicial dos militares, logo após o golpe, procurava
dar um verniz de democracia a um processo totalmente antidemocrático,
justificado por essa alternância de presidentes. Eles mantinham eleições,
mesmo que indiretas, mas que ainda assim apontavam um presidente eleito pelo
Congresso — que também sofria uma série de restrições,
como até mesmo o banimento de partidos —, o que mostrava uma pequena
preocupação em se dar uma máscara democrática ao
regime militar.
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