O
cartunista tinha 31 anos quando Castello Branco assumiu a Presidência do
país. Ziraldo realizou um trabalho intenso de resistência à
repressão do regime militar. Fundou, juntamente com outros humoristas,
O Pasquim, provavelmente o mais importante jornal não conformista
da história da imprensa brasileira.
Quando foi editado o AI-5, muita gente contrária ao regime procurou
se esconder para escapar da prisão. Ziraldo passou a noite ajudando a
esconder amigos. No dia seguinte à edição do ato, foi preso
em sua residência e levado para o Forte de Copacabana por ser considerado
um “elemento perigoso”.
O pai do Menino Maluquinho conversou com o portal e contou detalhes do que
o golpe de 64 significou para ele. Leia a seguir o depoimento de Ziraldo.
Os militares foram o primeiro segmento da sociedade que se organizou. Eles
eram corporativistas e estudavam sua condição dentro da sociedade.
Todas as idéias modernas do século XX entraram no Brasil por intermédio
dos militares, já que eles eram alguns dos poucos nesse país,
até então muito atrasado, que tinham acesso à educação.
Desde o positivismo até o comunismo, tudo entrou no Brasil pelos quartéis.
Isso deu aos militares brasileiros a idéia de que eles eram os tutores
de nossa sociedade.
Toda vez que o Brasil precisava de uma mudança, lá estavam eles.
Quem derrubou o Império e proclamou a República foram os militares.
Eles assumiram o governo apoiados pela sociedade civil. Desde então,
estabeleceu-se uma pseudodemocracia, pois, mesmo que tivéssemos eleições,
elas sempre eram fraudadas. Mas eles deixavam os civis no poder. Quando achavam
que estes não estavam dando conta do recado, iam lá, davam um
golpe, tiravam o presidente, colocavam outro em seu lugar e diziam a ele: “faça
seu trabalho direitinho aí”. E isso se repetiu várias vezes,
até que, em 64, havia uma consciência bem recrudescida de que eles
eram os melhores. Além disso, pairava no ar uma coisa chamada “ameaça
comunista”. Temos de entender que, até a Segunda Guerra Mundial,
os militares brasileiros eram influenciados pelos europeus. Depois dela, a mentalidade
norte-americana dominou os quartéis. Então a “ameaça
comunista” era na verdade uma forma de manutenção do regime
capitalista.
Mas, após o golpe em 1964, os militares julgaram que não deviam
devolver o poder aos civis. Entre eles, havia muita gente mandando. Mesmo com
a entrada de Castello Branco, havia muitas pessoas “de olho” na
Presidência. E assim, em função da alternância do
poder, eles conseguiram criar uma ditadura sem ditador. Um ditador só
acabaria forçando um golpe dentro do golpe. Eles inventaram o “ditador
de plantão”.
Quando o general Geisel assumiu, já em 1974, os militares acabaram percebendo
que a ordem do mundo ia mudar. A ditadura já tinha ultrapassado seus
limites, e eles viram que isso de ficar matando gente do mesmo sangue em função
das lutas internas não era muito do feitio do brasileiro. Então,
criaram a chamada “abertura”. E isso também aconteceu por
causa da pressão da sociedade, através do pessoal de esquerda,
dos guerrilheiros que morreram e de compositores, artistas, escritores, poetas
e cartunistas: todos “enchiam a paciência” dos militares.
Acho que o resultado da ditadura no país foi o aumento da corrupção,
que acabou sendo institucionalizada, e o inchaço das cidades, que resultou
nessa violência urbana que temos hoje.
Os jovens atualmente não têm muita idéia do que se passou
naquele período ou, pelo menos, não conhecem a dimensão
da coisa toda. Naquela época, você comovia os jovens cantando “caminhando
e cantando e seguindo a canção, somos todos iguais, braços
dados ou não”. Agora é “tô nem aí, tô
nem aí” (risos). Mas a culpa não é da juventude,
não. É o peso da história. Daqui a pouco, acho que tudo
pode mudar novamente.
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