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Haitianismo: uma maldição na história haitiana?

Quando, no final do século XVIII e início do XIX (1791-1804), a “pérola das Antilhas”, a mais rica colônia francesa, obteve sua independência — liderada por ex-escravos como Toussaint L’Ouverture, Jean-Jacques Dessalines e Alexandre Pétion —, era como se uma luz de esperança houvesse se acendido em solo americano a iluminar milhões de escravos que sofriam nas senzalas e nas plantações de algodão e de açúcar.

Três ilustrações juntas. Toussaint Louverture. Jean-Jacques Dessalines. Alexandre Pétion.
Toussaint Louverture (1743-1803)*, Jean-Jacques Dessalines (1760-1806) e Alexandre Pétion** (1770-1818).

* Figura de um grupo de gravuras feitas no pós-revolucionária França.
** Foi um líder revolucionário além de Presidente do Haiti.

Seria o norte para o qual todos aqueles que lutavam contra a opressão das metrópoles europeias deveriam seguir?

A independência de países latino-americanos ocorreria uma após a outra como em um jogo de dominó? Escravos tomariam o poder nas Américas?

Não, não foi isso que ocorreu. Ao contrário, uma revolução de escravos, com ideais que se assemelhavam aos da Revolução Francesa (1789-1799), trouxe um medo gigantesco a todo o continente americano.

As elites brancas e criollas que dominavam todo o continente passaram a ignorar o pequeno vizinho do Caribe, dando início a um calvário de isolamento político e econômico, que foi denominado pelos historiadores de haitianismo. Esse isolamento econômico provocou o enfraquecimento da infraestrutura produtiva do Haiti empobrecendo o país, que também sofria com lutas internas entre as próprias facções políticas haitianas.

Para dar um exemplo do medo que a independência feita por escravos causou em todo o continente americano, o então presidente norte-americano Thomas Jefferson, que era contrário à escravidão, chegou a oferecer ajuda à França para restabelecer o domínio colonial sobre o Haiti.

Os “libertadores da América” Francisco Miranda e Simon Bolívar viraram as costas para a ousadia haitiana. Miranda ficou com medo de que seu apoio ao Haiti pudesse manchar sua boa reputação na Europa e Bolívar — o mais famoso dos libertadores e que recebeu ajuda financeira do general haitiano Alexandre Pétion —, sequer convidou o Haiti para o Congresso do Panamá em 1826, em uma tentativa de implantar a ideia do pan-americanismo.


E no Brasil? Quais as repercussões da independência do Haiti?

Aqui alguns historiadores, como Jacob Gorender, chegam a afirmar que o haitianismo foi o elemento de união entre as elites brasileiras, fundamental no combate a qualquer tentativa nativa ou escrava de liberdade, como é o caso da Cabanagem no Pará (1835-1840) ou da Revolta dos Malês, em Salvador (1835).

Outros chamam a atenção para a influência do haitianismo sobre a Lei Eusébio de Queirós, que proibiu o tráfico negreiro por medo de uma revolta escrava, e também sobre a imigração em massa de mão de obra branca europeia para substituir a escrava negra. Além disso, é importante destacar que os recursos que não estavam sendo utilizados na compra de africanos foram desviados, para as primeiras indústrias brasileiras. Portanto, é possível perceber que o movimento negro do Haiti repercutiu profundamente no continente americano, mas trouxe para a população uma pesada carga a ser carregada.

O terremoto de janeiro de 2010, apesar da luta e da dor, pode ser mais uma chance para o sofrido povo haitiano reencontrar seu sonho de liberdade, igualdade e fraternidade.

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