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Atrocidade, horror, barbárie, maldição e desgraça. Medonho, nefasto, funesto, repugnante e brutal. Faltam palavras para descrever o calvário vivido por judeus, ciganos e outros povos nos campos de concentração nazistas.

Se os jovens têm hoje, por menor que seja, alguma noção desse sofrimento, isso se deve aos diários, relatos e livros de quem sobreviveu à escravidão, à condenação à morte e ao Holocausto.

Se as gerações futuras perpetuarem a convicção de que o mundo desabou quando a vida perdeu o valor e a crueldade não teve limites, terá sido essa a vitória de pessoas como Aleksander Henryk Laks.

No fim de semana anterior ao Iom Kippur deste ano - o Dia do Perdão judaico-, ele abriu seu coração ao Educacional. A história que você lerá a seguir relata o que ele viveu entre 1939 e 1945, período em que esteve submetido à insanidade do exército alemão. Sua biografia se confunde com a história da própria humanidade no século XX.

Nenhuma pergunta lhe foi feita. Ele foi falando ao sabor das lembranças. Quando a última palavra foi dita é que veio a questão: Por que isso teve de acontecer?

 Até os 12 anos, minha infância corria normal, sem sobressaltos...
 O judeu é uma pessoa como qualquer outra, não é melhor nem pior...
 Eles puseram um aviso de que o exército alemão tomaria Lodz...
 O primeiro encontro com o nazismo foi a palavra morte...
 No dia seguinte fui ver o exército alemão marchar na cidade...
 Meu avô foi pego por um soldado e ficou de cama até ser deportado...
 Muitos não voltavam para casa, e aí os judeus tinham medo de sair para a  rua...
 Meu pai era alto, loiro e de olhos azuis. E o Hitler?
 Não existem raças, cada pessoa é uma pessoa, não existe superior,  inferior...
 Meu pai tinha medo de sair, minha mãe também. Sobrou pra mim [comprar  o pão]...
 Meus amigos, que ontem estavam junto comigo na escola, me deduravam...
 Os poloneses não podiam ir à polícia porque não saíam mais vivos...
 Fizeram o gueto. Foram postas 160 mil pessoas em um lugar onde cabiam  25 mil, apertado...
 De início ainda enterravam mais ou menos. Em seguida, as pessoas eram  jogadas na vala...
 Fome é quando você tem um único objetivo: achar alguma coisa para  comer...
 Com 200 calorias diárias, é provável que não se viva 8 meses. Eu vivi 5  anos e meio...
 Judeus morreram de todas as mortes sabidas, pensadas, não sabidas e  não pensadas...
 Muitos foram ser voluntários, trabalhar nas terras tomadas pelos alemães...
 O cano de escape era dirigido para dentro do caminhão fechado e as  pessoas morriam...
 Aí o voluntariado começou a diminuir. Então disseram que iriam pegar à  força...
 Ninguém queria sair, então cada pessoa fazia um esconderijo...
 No gueto homens e mulheres moravam juntos, mas as mulheres não  podiam conceber...
 Quando ouvimos os alemães, começamos a jogar edredons na criança para  abafar o som...
 A criança morreu porque não teve direito a chorar...
 Disseram que iam nos levar para a Alemanha. Quem se apresentasse  ganhava 1 quilo de pão...
 O vagão estava quente. Tinha um adolescente morrendo: "Água, água,  água"...
 Como um homem pode cair tão baixo? Como um homem pode se levantar  tão alto?
 Eu pensei que era um alto-forno. Era um crematório. Eu estava em  Auschwitz...
 "Cala a boca, você está em Auschwitz. Daqui ninguém sai, só pela  chaminé"...
 Ou era intelectual ou tinha um defeito físico. Fosse uma coisa ou outra, não  podia viver...
 Não se podia olhar um alemão de frente, parecia insolência...
 Nós fomos revistados. Tudo que é orifício foi revirado na maior brutalidade...
 Aquilo ardia de tal maneira que parecia que a pele ia sair do corpo...
 Chegou um homem perto de mim. Nem reconheci meu pai, de tão mudado  que estava...
 Não fomos tatuados. Logo correu que íamos ser levados para a câmara de  gás...
 Fomos para o campo de ciganos. Eles estavam lá para mostrar como eram  tratados os prisioneiros...
 O campo dos ciganos era junto do crematório. Para que os mortos não  fossem vistos, os alemães puseram cobertores...
 Em Auschwitz, eram institucionalizadas as "25 pancadas na bunda"...
 Às vezes, os rins pulavam fora de tantas pancadas...
 "Vocês escaparam do dr. Menguele, mas de mim não vão escapar"...
 Tinha que beber 1 litro de óleo de rícino. Você toma uma colher e passa 24  horas no banheiro...
 De noite, era outro inferno. Para comprar aguardente, eles matavam  pessoas...
 "Para onde você está levando esse saco de merda?" O saco de merda era  eu. Eu sei que novamente não morri...
 Quando voltei, meu pai nem acreditou. Eu disse: "Pai, temos que sair  daqui"...
 Esse campo era um pouco melhor. Em que era melhor? Eles batiam menos...
 Trouxeram uma seringa de mais ou menos meio metro. Uma agulha do  tamanho de um dedo...
 Um SS arrancou dois dentes meus sem anestesia. Isso era o campo  melhor...
 Nesse campo, estávamos ao relento. Quem fosse pego com papel dentro  da roupa, levava pancada...
 Eu ouvi um tiroteio e depois senti algo pegajoso. Eu não sabia, era  sangue...
 Nós íamos ser libertados, mas aí veio o telegrama: "Nenhum prisioneiro  pode cair vivo nas mãos dos aliados"...
 Quem saía da formação era sumariamente assassinado. Quem ficava para  trás também...
 Nessa "marcha da morte" morreram 2 milhões e pouco de judeus. Foi um  escândalo...
 Meu pai estava um trapo quando disse: "Você é novo e vai sobreviver à  guerra. Nunca deixe de contar o que aconteceu"...
 Você põe uma mão no meu ombro e a outra no ombro do seu filho. Se  cairmos, vamos morrer juntos...

 Quando meu pai me viu levando uma pancada, viu que o filho dele estava  morrendo...

 Naquele dia não houve seleção e, novamente, a morte chegou perto e me  deixou...
 Eles eram gente da pior espécie. Cuspiam dentro da sua boca e ai se você  fizesse gesto de nojo...
 Nesse campo começou a dar disenteria e tinha um bloco chamado latrina...
 Eu vi uma correria perto da latrina. Tava lá meu pai, morto a pauladas...
 Fizeram uma pira e vi meu pai ser queimado. Era um esqueleto. Foi a última  vez que vi meu pai...
 Veio novamente um telegrama para evacuar o campo. No meio do caminho,  fomos bombardeados...
 À noite entramos em Tuttlinger. Quando os moradores nos viam,  começavam a chorar...
 Estava como um zumbi, que não fala, não tem fome, nada. Estava em paz  comigo e sabia que estava morrendo...
 Chegou uma pessoa perto de mim com um caneco de leite. Eu não pude  levantar o braço. Eu pesava 28 kg...
 "Os alemães fugiram, estamos livres!" Ir para onde? Eu não podia andar...
 Não veio ninguém, fomos deixados como se fôssemos lixo de novo...
 "Quem quiser vir conosco, são 21 km. Os alemães vão voltar hoje ou  amanhã." E não deu outra...
 O major disse: "Vocês saquearam a cidade e vão ser fuzilados. Agora eu  vim para fazer justiça"...
 Os franceses voltaram. Eu estava livre. Sem parentes, sem dinheiro, sem  saúde. Cá estou. Outra vez para fazer o que meu pai mandou: contar.