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Ser kelper é...

“Nós, os kelpers, possuímos uma identidade distinta da britânica. É difícil colocar em poucas palavras, mas diria que é uma mistura da nossa herança cultural britânica, escandinava, com uma população crescente de sul-americanos, que estão se integrando bem à sociedade. Falamos inglês, mas usamos palavras em espanhol. E gostamos muito de andar a cavalo.”

Richard Davies, conselheiro legislativo das Falklands, em entrevista ao portal.



Foto: The Falkland Islands Government
Porto Stanley, a única cidade das Falklands, com apenas 3 mil habitantes.

Sobrevoe as ilhas Falklands, usando o Google Maps.

A cidade de São Paulo tem mais de 10 milhões de habitantes distribuídos em pouco mais de mil quilômetros quadrados. As Falklands possuem 12 mil quilômetros quadrados e uma única cidade, que concentra a maior parte de seus três mil habitantes. Isso mesmo, só três mil habitantes! Seria preciso 32 vezes isso para encher o estádio do Maracanã. Fora Porto Stanley, todo o restante é campo, ou camp, como chamam os kelpers, nome dado aos moradores das ilhas. A maioria da população é descendente de ingleses. São apenas 29 argentinos. Brasileiros, só 5. O clima é úmido e venta muito. Há poucas árvores, e a vegetação é predominantemente rasteira.

Foto: The Falkland Islands Government
Na escola, todos têm acesso à Internet, em computadores de última geração.

Foto: The Falkland Islands Government
A religião predominante é a cristã. Em frente à catedral há um arco feito de osso de baleia.

Foto: Georgina Strange, Design in Nature

A vida selvagem é o principal atrativo turístico das Falklands.

Antes, o desenvolvimento socioeconômico era freado pela escassez de recursos naturais, pela grande distância de potenciais mercados externos e pelo fato de a população ser extremamente pequena. A partir de 1982, as Falklands cresceram rapidamente, com a ajuda do governo britânico e o desenvolvimento da pesca, atividade atualmente responsável por quase metade da receita do país. A cada ano, aumenta o número de turistas — Porto Stanley recebe muitos cruzeiros —, atraídos pela vida selvagem. A agricultura é o terceiro ramo em contribuição, só ficando atrás dos dois citados acima. Aliás, a ilha está caminhando para se tornar uma “nação orgânica”, isto é, um país fornecedor de produtos orgânicos certificado pela Comunidade Européia.

“As condições de saúde e educação são muito avançadas para um povo pequeno como este”, conta a socióloga e jornalista argentina Sonia Jalfín, que visitou as ilhas em fevereiro (saiba mais sobre a viagem). Lá, lugar de criança e adolescente é realmente na escola, e tanto a qualidade do ensino como a infra-estrutura são muito boas. Todos acessam a Internet nas escolas, nas quais os computadores são de última geração. Há Educação para todos até a fase dos 16 anos, mas não há faculdades. Quem quer continuar os estudos a partir dessa idade, pode ir ao Reino Unido. “A maioria vai para lá, até porque quem mora nas Falklands possui cidadania britânica, mas alguns também vão à Austrália e Nova Zelândia. O governo das Falklands custeia as viagens”, informa o conselheiro legislativo Richard Davies. A população pequena e os principais ramos da economia não parecem ser muito atrativos para um jovem kelper formado no Reino Unido, qualquer que seja a profissão escolhida. Mas, segundo ele, muitos retornam às ilhas. “Ou não teríamos bons psicólogos, médicos, engenheiros...”, reforça. E, para quem não quer estudar fora, há cursos técnicos e programas de aprendizado para trabalhar no arquipélago.

Telefones celulares são praticamente uma novidade por lá, mas isso até que é compreensível. Afinal, para que celular, se você vive em uma comunidade com apenas três mil pessoas? De acordo com o conselheiro Davies, há bons links de telefonia e Internet com o resto do mundo, e muitos investimentos têm sido feitos nessa área nos últimos dez anos. No entanto, a comunicação via telefone com o exterior ainda deixa a desejar. A entrevista que o portal fez para esta reportagem só foi possível por meio de um contato “VoIP” (Voice over IP — tecnologia que simula ligações telefônicas de voz pelo computador, com a ajuda da Internet). De telefone para telefone não foi possível, nem do Brasil para lá, nem de lá para cá. Segundo a embaixada britânica, é mesmo muito difícil completar ligações telefônicas para as Falklands. Quanto à Internet, o acesso é bem difundido, mas banda larga é algo recente. “A conexão é um pouco lenta, e o acesso é normalmente bastante caro”, diz Sonia. “Mas isso não é exatamente uma reclamação. Acho que para uma população que vive em uma ilha a quilômetros de qualquer costa continental, eles estão muito bem”, conclui.

Na prática, as Falklands funcionam como se fossem um país totalmente independente. É uma comunidade auto-suficiente em tudo, exceto em defesa nacional, que é uma responsabilidade do Reino Unido. No tópico seguinte, vamos entender melhor como funciona a relação entre as ilhas e o Reino.

Minas terrestres

Existem mais de 120 campos minados espalhados pelas ilhas Falklands, restos da guerra de 1982. Houve um primeiro esforço do exército britânico para retirar as minas (foram retiradas 1.400), mas a operação parou porque ocorreram muitos incidentes, alguns fatais.

Segundo o conselheiro Davies, as minas são uma “dor de cabeça”, mas não representam um perigo real. “Gostaríamos que os campos fossem limpos, mas estão bem marcados, e faz muito tempo que não temos nenhum incidente grave registrado. Nenhum animal foi morto nos últimos 10 anos, e o último caso de ferimento em um humano é do início dos anos 80.”

Um novo estudo de viabilidade da limpeza dos campos foi feito em dezembro de 2006, e deve ser encaminhado ao Reino Unido em breve.

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