Início
  1. Central de Atualidades
  2. Reportagens
  3. A imigração italiana
A imigração após a Segunda Guerra

Luciana Facchinetti: "Os italianos cruzaram o Atlântico por causa do país destruído e pelo desmoronamento de um sonho."

Logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, por volta de 1950, houve um novo movimento de imigração de italianos para o Brasil. “Eles cruzaram o Atlântico porque seu país estava destruído e também devido ao desmoronamento de um sonho. Criados no fascismo, sob a promessa de Benito Mussolini de um país unido, grande e forte, foram pagos com moeda falsa: perderam a infância e parte da adolescência e passaram muita fome”, conta Luciana Facchinetti — que, no início deste ano, apresentou uma dissertação de mestrado junto ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp sobre essa segunda onda migratória da Itália para o Brasil.

Luciana é filha de Giovanna e Giuseppe, italianos que vieram ao Brasil em busca de um lugar onde pudessem trabalhar e recomeçar a vida após os horrores da guerra. “Porque sou descendente de imigrantes italianos, sempre tive muito interesse por esse tema. Meus familiares chegaram ao Brasil na década de 1950”, revela.

A historiadora lembra que a realização de seu trabalho foi uma tarefa penosa, pois o tema “Imigração italiana após a Segunda Guerra Mundial” é pouco estudado. “Apenas outros quatro estudiosos pesquisaram o assunto”, diz. Ela recorreu a 24 mil fichas produzidas pelo Comitê Intergovernamental para as Migrações Européias (Cime) para reconstituir a história de alguns personagens e avaliar sua influência no desenvolvimento da indústria brasileira.

Leia trechos da entrevista com a historiadora.

Quais foram os motivos que trouxeram os italianos para o Brasil após a Segunda Guerra Mundial? Como era a vida deles na Itália?
A Itália, após a Segunda Guerra, encontrava-se destroçada. O desemprego atingiu todas as camadas da sociedade. E esta foi a principal causa da saída dos italianos: a busca por oportunidades de trabalho.

Eram imigrantes que nasceram e cresceram sob o regime fascista. Segundo as pessoas que entrevistei para minha dissertação, antes da guerra as dificuldades eram superáveis. Contudo, após o início desta, a fome e o medo tornaram-se elementos constantes na vida dos italianos, especialmente de 1943 a 1945, quando o rei Vitor Emanuel II assinou um tratado com os aliados, fazendo com que a Itália “mudasse de lado”. Instaurou–se, então, uma guerra civil entre fascistas e alemães contra os partigiani (denominação para quem era contra o regime) e os aliados. E quem mais sofreu, como sempre, foi a população civil, especialmente as crianças e os velhos.

A vida aqui era mais fácil do que na Itália? Existia preconceito contra os imigrantes pelo fato de eles terem vindo de um regime supostamente inimigo do Brasil na época?
A vida aqui, sem dúvida, era muito mais fácil. E eles não sofreram preconceito; ao contrário: todas as pessoas que entrevistei declararam que foram muito bem recebidas, principalmente pelos brasileiros.

Como esses imigrantes do pós-guerra influenciaram o Brasil? Havia alguma diferença entre eles e os que imigraram no século anterior?
Os imigrantes do pós-guerra ou eram alfabetizados (estudaram até a 4.ª série do que hoje chamamos de Ensino Fundamental) e qualificados (tinham noção do ofício, pois, quando eram pequenos, ao saírem da escola, aprendiam uma profissão, até mesmo os que viviam da agricultura, com um parente ou vizinho), e estes eram a maioria, ou possuíam curso técnico ou superior. Esses italianos foram trabalhar, principalmente, na indústria e comércio das grandes cidades. Já no caso dos que vieram na primeira leva, 90% eram analfabetos e agricultores e foram, inicialmente, trabalhar nas fazendas de café para, só depois de algum tempo, deslocarem-se para os grandes centros.

A especialização ou a qualificação era um critério importante para que esses trabalhadores fossem aprovados pelo governo brasileiro, que incentivava a indústria e já não se interessava em receber novas levas de mão-de-obra barata.

Que profissões exerciam esses imigrantes e que inovações eles trouxeram para o Brasil?
Os ofícios mais comuns eram: pedreiro, marceneiro, alfaiate, carpinteiro, ferramenteiro, costureira, barbeiro, padeiro, motorista, mecânico (de automóveis e da indústria metalúrgica), engenheiro e técnico.

De acordo com os entrevistados, esses italianos trouxeram muitas idéias que, para nós, eram inovações e tentaram aplicá-las, mas nossa indústria e tecnologia não permitiram que eles pusessem em prática seus projetos, pois nosso maquinário era obsoleto. Com o passar do tempo, aqueles que tiveram sucesso foram buscar máquinas mais avançadas na Itália (leia o quadro com o depoimento de Franco Luperi, que veio para o Brasil após a Segunda Guerra).

Os descendentes italianos que já estavam no Brasil deram apoio aos recém-chegados?
Sim, pois, para poder emigrar, eles tinham de receber uma “carta de chamada” ou, então, vir pelo Cime (Comitê Intergovernamental para as Migrações Européias, criado em 1951 por países das Américas, Europa e Austrália).

Os parentes dos que vinham por “carta de chamada” deviam se responsabilizar pela estadia dessas pessoas e arranjar-lhes emprego. Aos imigrantes, cabia pagar a passagem de navio.

Aqueles que vieram pelo Cime permaneceram nas hospedarias (quando não tinham parentes ou amigos aqui), e o próprio comitê se encarregava de fazer a colocação desses trabalhadores nas empresas. Esses imigrantes não precisavam pagar a passagem.

Nessa mesma época, vários italianos rumaram também para outros países, como Venezuela, Argentina e EUA. O que diferenciava cada uma dessas “levas”?
Apenas a oportunidade de trabalho e a remuneração.

“Na Embraer, ajudei a construir o Xavante e o MAC 308 e a desenvolver a parte relacionada à medição óptica da montagem do primeiro Bandeirante. Mas os meios de construção do primeiro avião eram rudimentares. Até hoje, não sei como ele conseguiu voar. Os conhecimentos eram válidos, o entusiasmo, contagiante, mas os recursos disponíveis eram bastante escassos e primitivos: não havia no Brasil, por exemplo, equipamentos indispensáveis à colocação em obra dos componentes do avião, e eles tiveram de ser trazidos da Itália. Eu fiz a tradução dos procedimentos, que estavam descritos em italiano, para o português. E, na ocasião, tive de fazer todo um estudo da montagem da primeira parte do Bandeirante. A parte industrial — ou seja, o ‘como se devia fazer’, os meios de utilização das máquinas e ferramentas e a descrição passo a passo da montagem do avião — foi feita por mim. Foi um belo trabalho, do qual tenho orgulho. Gostei de ter realizado aquilo”.

Franco Luperi é engenheiro e
trabalhou na Embraer (Empresa Brasileira de Aeronáutica).


anterior |
   
A imigração italiana
Chegando ao Brasil
A São Paulo anarquista
A imigração após a Segunda Guerra



Copyright © 1999-2012. Portal Educacional. Todos os Direitos Reservados.

Termos de uso | Quem somos