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  3. Ouro verde, Ouro azul: e um agravante chamado seca.
por Walter Garcia

Em João Pessoa, 95% da população têm acesso a água encanada e, desta, 80% vem de mananciais e é tratada. Assim como em outras cidades visitadas por nossa família, as culturas do desperdício e da poluição são muito fortes. E como se não bastassem esses fatores culturais, o povo da capital da Paraíba e, principalmente, do interior do Estado ainda tem de aprender a conviver com um inimigo natural implacável: a seca.

Praças, áreas de proteção ambiental, parques, ruas arborizadas e a salutar mania da população de manter árvores em seus quintais fazem de João Pessoa (PB) a segunda capital mais arborizada do mundo, perdendo apenas para Paris (França). Andar pela cidade é experimentar diferentes aromas e caminhar sob a sombra em boa parte do trajeto. Em alguns quintais, são tantas as árvores que é difícil ver a casa que fica por trás delas. “Eu me orgulho muito de morar em uma cidade assim. Dá uma sensação de saúde, de qualidade de vida”, diz a camareira Zélia Lourenço da Silva, 49.

Essa cidade, que exala e respira o “ouro verde”, começa a prestar atenção também no “ouro azul” (que é como a Organização das Nações Unidas vem chamando a água doce), mas ainda está bem distante de fazer a lição de casa.

A seca de 1998, que levou João Pessoa a racionar o consumo de água e por pouco não causou um colapso em Campina Grande, a segunda maior cidade da Paraíba, fez com que políticos, promotores e até a imprensa local despertassem para a gravidade do problema. As previsões de longas estiagens para os próximos cinco anos devido a manchas solares (ciclos de Gleiberg) e o fato de 73% das cidades da Paraíba estarem passando por um processo de desertificação mantêm a questão viva, mas a solução ainda pede muita mudança de comportamento, o que envolve mais ação por parte dos governantes e educação e conscientização da população.

Em 1950, o açude do Buraquinho, alimentado pelo Rio Jaguaribe, era responsável pelo abastecimento de água em toda a cidade. Cinqüenta e três anos depois, o Jaguaribe não passa de um rio morto, um grande esgoto que corre a céu aberto pelo meio da cidade e que, apesar dos discursos proferidos por políticos e autoridades locais, continua recebendo os dejetos produzidos por favelas e grandes condomínios.

Apenas pouco mais da metade do esgoto produzido em João Pessoa (51%) recebe algum tipo de tratamento. O restante (49%) é jogado bruto diretamente no lençol freático através das fossas ou em rios e córregos da região. Do esgoto coletado, apenas 80% passa por um tratamento preliminar (um processo que intercala grades e areia, servindo apenas para reter os poluentes sólidos), para depois ser despejado no estuário do Rio Paraíba.

Ainda que cerca de 20% da água que abastece a cidade seja proveniente do lençol freático, nem a Companhia de Água e Esgoto da Paraíba — Cagepa — nem o governo do estado possuem qualquer tipo de estudo sobre a qualidade dessa água. Para agravar mais a situação, atualmente, a água do Jaguaribe (aquele que é um esgoto a céu aberto) é usada para fazer a recarga do lençol freático.

Em Campina Grande, a falta de tratamento do esgoto faz com que a situação seja um pouco mais delicada. Os dejetos produzidos na cidade são jogados no Rio Bodocongo, que deságua na Barragem Acauã, responsável por parte do abastecimento de água da cidade (outra parcela é coletada no Boqueirão). Dessa forma, completa-se um ciclo que pode ser encarado, no mínimo, como um dispendioso processo, já que a água poluída requer maior esforço para ser tratada e utilizada novamente pela população. Como a maioria das cidades no Nordeste utiliza o sistema de açudes para seus abastecimentos, essa não chega a ser uma situação rara na região. “O semi-árido se baseia em grandes açudes para o abastecimento das cidades, e o esgoto destas é jogado no rio, que vai dar no açude”, diz o secretário adjunto dos Recursos Hídricos do Estado da Paraíba, Sérgio Gois.

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