1. Central de Atualidades
  2. Reportagens
  3. Amado Jorge


 :: Veja também
   :: Galeria de imagens
   :: Sala Jorge Amado

Sempre de bermuda branca e blusas alegres, de preferência floridas e abertas até o peito. Flagrado pelas câmeras em seu recanto, Jorge Amado (1912-2001) adorava exibir-se irremediavelmente de sandálias e sentado em sua rede. À sombra, jogando conversa fora com as visitas, como quem faz cafuné em alguém, era o que retrato da serenidade de quem cultiva a arte de viver.

De uns tempos pra cá, o sorriso fácil e a pinta de bon vivant já não faziam mais parte da vida do mestre. A amargura de ver-se amuado em casa, cuidando da saúde, volta e meia no hospital, terminou por minar seu moral. A última internação foi ontem, às pressas, e certamente havia alguém rezando aos orixás para que tudo não passasse de mais um susto.

Pena que envelhecer não combinasse com o baiano de Itabuna. E que a progressiva perda da vitalidade, da visão e da capacidade de ler e escrever fosse insuportável para o criador de mulatas sensuais, negros robustos, corpulentos e suados da colheita de cacau e pescadores destemidos lançando-se ao mar.

Leia uma das últimas entrevistas de Jorge Amado, dada há quatro anos. O autor já não esconde a melancolia.

Às 19h30, apenas meia hora depois de dar entrada no hospital Aliança, em Salvador, uma parada cardiorrespiratória roubou a vida de um de nossos maiores escritores, traduzido em 48 idiomas e lido em 52 países. Jorge estava triste e angustiado por não ter forças para concluir dois livros inacabados — o romance Bóris, o Vermelho e Histórias do Rio São Francisco —, que lutava para escrever há cinco anos.

Era noite de lua cheia, como tantas que retratara, traduzindo em palavras o som dos atabaques, as andanças no Pelourinho do boêmio Quincas Berro d’Água ou o cais do porto em que os capitães de areia se refugiavam após um dia de peripécias.

Foi ele quem melhor captou a ginga de seu povo, desde seu primeiro livro, No País do Carnaval, lançado há 70 anos, em 1931. Eram histórias da gente oprimida e desvalida, da Bahia e do Brasil, que lhe valeram perseguições e conduziram-no ao exílio.

Vários de seus livros (Cacau, Suor, ABC de Castro Alves) estiveram na mira da censura, nos anos negros da ditadura getulista. Lançado em 1937, em pleno Estado Novo, o livro Capitães de Areia é queimado em praça pública, tachado de subversivo. Em 1941, exila-se na Argentina.

A luta pela liberdade de expressão marcaria mais uma vez a sua vida. Em 1970, junta-se ao escritor gaúcho Érico Veríssimo e ameaça não publicar mais seus livros no Brasil caso a censura prévia aos livros persistisse.

Da chamada Geração de 30, Jorge Amado foi o escritor que acompanhou mais de perto a trajetória do Partido Comunista. Ao ponto de, em seu retorno ao Brasil, eleger-se deputado federal pelo PCB em 1945.

Três anos mais tarde, é cassado como todos os representantes comunistas do Parlamento. Sua casa em Nova Iguaçu é invadida por agentes do Dops. Resultado: novo exílio, dessa vez em Paris, Praga e Moscou. Do segundo exílio, só pôde retornar ao Brasil nos anos 50, década de sua consagração definitiva.

Em 1958, publica Gabriela, Cravo e Canela. A primeira edição esgota-se em duas semanas. A morena sabor de cravo e cor de canela arrebatou a todos e foi eternizada na atuação de Sônia Braga e na voz de Gal Costa. Gabriela, musa inspiradora de tantos filmes, seriados e novelas de TV, é um símbolo tão marcante da mulher brasileira quanto a Garota de Ipanema.

O sucesso do best seller foi tamanho que a Academia Brasileira de Letras se viu obrigada a reconhecer o talento do autor e escolhê-lo para ocupar a cadeira de número 23, apesar de seu estilo reconhecidamente coloquial, nem sempre visto com bons olhos pelos ilmortais.

Consulte o site da Academia Brasileira de Letras: http://www.academia.org.br/imortais.htm

Cansado de guerra, Jorge Amado será cremado às 17h de hoje, três dias antes de completar 89 anos. Seu corpo foi velado no Palácio da Aclamação, antiga residência do governador. Suas cinzas serão depositadas nos jardins da casa de número 33 da Rua Alagoinhas, no bairro do Rio Vermelho, de onde conquistava diariamente, o coração de sua esposa, Zélia Gattai, seus dois filhos e milhares de fãs em todo o mundo.

No dia 10 de agosto, a Bahia estaria em festa. Por conta de seu falecimento, estará de luto oficial, decretado pelo governador. Na capital baiana, em pleno Pelourinho, foi inaugurada a Fundação Casa de Jorge Amado, como parte das comemorações dos 80 anos do escritor. Ela é como um coração pulsante zelando para que a obra do autor continue viva na memória de seus leitores.