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Mais educação, menos crimes?

Os responsáveis pela morte do menino João Hélio vêm de uma família de classe média, estudaram em escolas particulares e faziam parte de uma quadrilha de roubo de veículos. O suspeito da morte dos franceses da ONG Terr’Ativa, ocorrida no Rio de Janeiro, é um jovem de 25 anos que, quando adolescente (menor) teve acesso à Educação e oportunidade de trabalho na própria ONG. Ele cometeu o assassinato porque desviou grande soma de dinheiro da instituição e estava sendo cobrado por seus chefes. Então, “resolveu” seu problema da forma como vimos nos noticiários. Sempre que alguém levanta a discussão sobre a redução da maioridade penal, como contrapeso surge o discurso de que é preciso proporcionar mais Educação aos jovens para que eles tenham mais chances de seguir outro caminho, que não o do crime. Será que os casos relatados acima fazem essa teoria cair por terra?

Em sua tese de mestrado, Antonio Flávio Testa estudou o fenômeno dos “grupos ou gangues de superquadras” que propagavam a violência em Brasília na década de 70. Ele conta que, naquela época, esses grupos eram formados por jovens de alta escolaridade e nível socioeconômico elevado que protegiam seus territórios de garotos de outras superquadras. Os atritos eram constantes e havia muito consumo de drogas, o que ainda persiste. Segundo Testa, “hoje, a motivação para a prática de crimes entre jovens da elite de Brasília é bem menos romântica: tráfico de drogas, roubos, desmanche de carros, etc.”

• Todos os especialistas ouvidos pelo portal concordaram que o consumo de drogas é um fator determinante para que um jovem se envolva em crimes.

“É um mito dizer que pessoas bem-educadas não cometerão crimes”, afirma Antonio Flávio Testa. “Claro que uma pessoa com mais escolaridade tem mais condições de se desenvolver e trilhar um caminho longe do crime”. Mas, segundo ele, o problema está na falha da estrutura social brasileira, que reitera que vai mais longe aquele que entra ou continua no crime, que quem tenta ser um trabalhador comum. Pois, no crime, as recompensas materiais seriam maiores, mas diretamente proporcionais aos riscos que essa prática impõe.

“O fato é que não podemos tomar alguns exemplos e generalizar”, contrapõe o também sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, da Organização dos Estados Ibero-americanos, que afirma que “a História da humanidade mostra que países mais desenvolvidos, com melhor IDH (e, conseqüentemente, melhor Educação) tendem a sofrer menos com a criminalidade.” Não há, segundo ele, análises confiáveis que contradigam essa máxima, como, por exemplo, a relação entre condenações por assassinato e nível de escolaridade. “E mesmo que houvesse análises desse tipo, é muito provável que existissem poucos jovens de classe média ou alta com alto nível de escolaridade presos, até porque eles possuem mais meios para se defender", conclui. Um exemplo disso é o caso dos jovens que incendiaram o índio Galdino, queimado vivo (no Dia do Índio) por jovens de classe média alta; fato que coincidiu com o início das pesquisas de Jacobo sobre a violência entre jovens.

“Antes de declarar que Educação resolve ou não, é importante pensar em que tipo de Educação estamos falando”, alerta a psicóloga Roberta Kafrouni. Para ela, “a maioria das escolas de hoje é segregacionista e estimula a competitividade. Portanto, ela não ajudará a prevenir crimes. Esse tipo de Educação pode sim gerar mais violência.”

O advogado Ariel de Castro Alves define a escola atual como um espaço de exclusão: “não há qualidade de ensino, os professores são mal remunerados, não se oferece um atendimento completo com psicólogos, assistentes sociais, médicos, etc.” Além do Ensino Básico e da formação para a vida, Alves acredita que mais cursos profissionalizantes deveriam ser oferecidos.

Todos concordam que Educação não significa apenas as quatro ou cinco horas diárias em que o jovem passa na escola. É preciso estimular a participação dos pais nessa dinâmica. Um pai e/ou uma mãe não pode simplesmente delegar a educação de seu filho à escola, como se esta fosse uma varinha mágica. A família é o núcleo em que se aprendem valores, recebem-se exemplos e em que deve haver um diálogo que enriqueça o desenvolvimento do jovem. A escola, além de promover o diálogo com pais e alunos também precisa estendê-lo à comunidade, acolhendo os pais e promovendo atividades que envolvam a comunidade nos finais de semana.

O menino João Hélio, protagonista de uma das tragédias mais chocantes de toda a história do nosso país, estudava na escola Crianças & Cia., dirigida por Maria Cecília Cury. Durante a entrevista concedida para essa reportagem, ela contou como foi lidar com o caso respeitando o drama da família, oferecendo apoio a ela e procurando amenizar os efeitos do trauma causado na comunidade escolar em que atua.

Clique aqui para ler o depoimento de Maria Cecília Cury.

Não é um jogo de “quem tem mais culpa” entre pais e escola. Estamos falando de um esforço conjunto. “A família deve estar presente na escola, que deve propiciar oportunidades para discutir questões ligadas à psicologia infantil”, explica a educadora e psicóloga Maria Cecília Cury. Na escola que dirige, ela mantém uma “escola de pais”: ela, professores e responsáveis se encontram para discutir textos sobre educação de crianças e adolescentes.

De qualquer forma, mesmo que se dê educação e valores sólidos ao jovem, ainda assim, ele tem grandes chances de seguir o caminho da criminalidade. Fora do convívio familiar ou escolar, ele continua encontrando um mundo duro e sem oportunidades. O fato é que faltam políticas mais abrangentes e unificadas para a juventude. “Falta projeto de futuro para os jovens no Brasil”, diz Testa, criticando o abandono da juventude por parte dos governantes. A opinião de que há apenas medidas isoladas e inócuas, sem uma visão comum, é compartilhada por todos os entrevistados.

Em março deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que vai criar um comitê gestor interministerial envolvendo as pastas do Desenvolvimento Social, Trabalho e Educação, além da Secretaria-geral da presidência. É hora da sociedade discutir o assunto a fundo e cobrar que as políticas resultantes desse esforço sejam realmente efetivas.

Clique aqui para saber mais sobre o comitê anunciado pelo presidente.
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Reduzir ou não?
Mais educação, menos crimes?
“Vamos com calma?”
A educadora Maria Cecília Cury, diretora da escola Crianças & Cia., onde estudava o menino João Hélio,
fala sobre como foi lidar com o trauma causado pela tragédia em sua comunidade escolar.