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“Vamos com calma?”

“Não podemos decidir nada em momentos como este, de comoção nacional”, dizem alguns representantes da sociedade, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a ministra do Supremo Tribunal Federal, Ellen Grace. Essa é uma declaração comum em momentos como o que vivemos: de muita dor provocada por crimes de extrema e incompreensível violência. Mas se não tomarmos medidas agora, vamos tomá-las quando?

“São declarações deslocadas da realidade, manifestações da hipocrisia de alguns políticos brasileiros”, dispara o sociólogo Antonio Flávio Testa, que acredita que tempos difíceis como este servem para potencializar as tomadas de decisão, e teme que o assunto saia do foco da opinião pública com o passar do tempo. “Não dá para pensar demais antes de mudar as regras, criar leis. Depois, pode-se pensar em regulamentar direitinho, pensar nos aspectos operacionais e administrativos.”

Infelizmente, muitos políticos se aproveitam de comoções como essa para se autopromoverem, fazer propostas demagógicas, oportunistas e exageradamente mal elaboradas. “Não se enfrenta a violência com ‘legislação de pânico’, nem atendendo ao clamor público”, afirma Ariel de Castro Alves, citando como exemplo positivo a elaboração pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA) — organização da qual faz parte — de uma proposta de sistema nacional de atendimento socioeducativo, que estabelece uma série de regras para as instituições estaduais de internamento de menores e as responsabilidades de cada poder público sobre elas. “Essa é uma medida que foi planejada durante muito tempo. É uma real alternativa a qualquer proposta imediatista de redução da maioridade penal ou de endurecimento de penas.”

Outro exemplo de bom aproveitamento das lições aprendidas em épocas de comoção é citado por Jacobo, da Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI). Em 2006, durante a elaboração do Mapa da violência de São Paulo, ele não pôde deixar de notar a importância que teve um movimento da sociedade civil chamado Instituto São Paulo Contra a Violência, constituído em 1999 por federações de diversos setores produtivos, empresas e universidades, assustados com o aumento da criminalidade. “Tornou-se uma organização tão atuante e tão poderosa, que conseguiu que o Estado respondesse rapidamente, executando mudanças no sistema carcerário e de inteligência no combate ao crime. O instituto forçou os prefeitos da região metropolitana a criarem um fórum de segurança pública, o que resultou no estabelecimento de várias regras que obtiveram bons resultados. Diadema, por exemplo, conseguiu reduzir à metade o índice de homicídios. Guarulhos também alcançou grandes melhorias.”

É engraçado como as soluções para os grandes problemas nacionais parecem ser sempre as mesmas: necessidade de aprofundamento por parte dos políticos e mobilização da sociedade. Como vimos, não é diferente no caso da violência. Quem confirma e conclui nossa reflexão é a educadora Maria Cecília Cury:
“É muito importante ‘reagir a’. Não podemos negar os sentimentos, a emoção durante uma discussão dessas. Emoção e razão andam juntas. Essa situação está fugindo ao nosso controle, invadindo nossas vidas em qualquer hora e lugar. Há pouco tempo, ensinávamos as crianças a darem os tênis, caso alguém pedisse. Hoje, chegamos ao cúmulo de ter que ensiná-las a se soltarem sozinhas do cinto de segurança do carro. É preciso mudar sim, e rápido. Se estivesse bom, se soubéssemos mesmo o que fazer, não estaríamos nessa situação! Cada dia uma tragédia mais violenta que a outra. Precisamos de medidas urgentes e efetivas, sejam elas quais forem. É preciso que nossos representantes e especialistas deixem de lado seus títulos, suas ambições partidárias e suas verdades para realmente ouvir a população, entender a dinâmica do País e descobrir medidas que verdadeiramente resolvam o problema. Precisamos agir sobre nossas incompetências, mazelas e crenças com o intuito de alterá-las, reformulá-las. É impossível que a inteligência do nosso país, que faz tanta coisa maravilhosa, não consiga se debruçar sobre essa questão e avaliá-la com profundidade.”

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Reduzir ou não?
Mais educação, menos crimes?
“Vamos com calma?”
A educadora Maria Cecília Cury, diretora da escola Crianças & Cia., onde estudava o menino João Hélio,
fala sobre como foi lidar com o trauma causado pela tragédia em sua comunidade escolar.