Um “deserto” com muita água Olhando por cima, como a Cris
faz nesta foto, a impressão que se tem é de estar
no meio de um deserto. Não é para menos: dos 150 mil hectares
de parque, 60% são areia. São dunas
a perder de vista para todos os lados que se olhe.
Mas há uma grande diferença entre o Parque Nacional dos Lençóis
Maranhenses e os desertos. Aqui, chove 320 vezes mais do que no Deserto do Saara,
por exemplo. Os oásis,
tão raros lá, em Lençóis são uma constante.
Nas lagoas e igarapés, existentes na época de chuvas, lavam-se
roupas
e panelas, pesca-se,
as crianças brincam e o grande deserto ganha vida.
O lençol freático na região está tão próximo
à superfície que basta espetar um cano
de 1,5 metro no chão para que a água
jorre. As lagoas que surgem na época de chuvas nada mais
são do que a água que transborda nas pequenas depressões
existentes entre as dunas. Mas, mesmo durante o período da seca, quando
a maior parte das lagoas desaparece, emprestando ao local uma nítida
impressão de deserto, basta cavar um pouco e ali está o líquido
à disposição de quem o queira.
É exatamente essa facilidade para se conseguir água durante todo
o ano que permite que as famílias se mantenham em suas propriedades,
vivendo de culturas de subsistência, mesmo quando a imagem sobre a terra
é de grande secura.
A água que brota com facilidade do solo, além de matar a sede
da população e dos animais da região, é usada para
lavar frutas e verduras, cozinhar, lavar a louça, tomar banho, etc.
O problema é que o mesmo lençol freático que doa com tanta
facilidade a água recebe também o esgoto da população
local e de muitos turistas que passam pela região.
“Esse foi um dos principais problemas que detectamos quando realizamos
o Plano de Manejo. Não há fossas apropriadas no local, e o lençol
freático acaba sendo contaminado”, diz o professor Antonio Carlos
Leal de Castro.
Atualmente, vivem dentro do Parque Nacional 600 famílias, com uma média
de seis pessoas em cada uma. Segundo o professor, o que hoje é um problema
para a preservação da qualidade da água e do ecossistema,
com um investimento muito pequeno em forma de educação, pode ser
transformado em solução. “O morador local é sempre
o maior interessado na preservação do ambiente onde vive. Quando
o agride, é apenas por ignorância. Esse morador pode muito bem,
em um futuro próximo, ser usado como guia
para turistas ou fiscal do ambiente”, destaca o professor. Para ele, o
maior risco não está na manutenção dessas famílias
na região, mas no estabelecimento de novas residências, de empresários
e políticos, e hotéis nas cidades que fazem parte do Parque Nacional.
“Se você olhar no Cantinho, próximo de onde será a
sede do Ibama, vai notar que estão sendo construídas diversas
mansões. Com esse pessoal ninguém mexe; podem até mudar
a lei de preservação para que não os incomodem, mas, tirá-los
dali: duvido. E isso é bastante preocupante”, diz o professor.