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A música brasileira no contexto mundial

Por Guilherme Prendin

Samba, Bossa Nova, MPB. Como a música brasileira é conhecida no exterior e apreciada pelos brasileiros

Noel Rosa, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Mutantes, João Gilberto, Pixinguinha. Esses são apenas alguns exemplos de artistas que marcaram seus nomes na história da música brasileira. Ícones da cultura tupiniquim, que fizeram nosso país ser reconhecido lá fora e ganharam o status de lenda por aqui. De fato, o Brasil é um verdadeiro “caldeirão musical”, com diferentes ritmos e estilos que variam de região para região. A música está enraizada na alma do brasileiro, ajudando na construção de nossa identidade e cultura. Tem som para todos os gostos: axé na Bahia, frevo em Pernambuco, reggae no Maranhão, rock em São Paulo, samba e pagode no Rio de Janeiro, forró e baião por todo o Nordeste, fandango no Rio Grande do Sul, além, é claro, do sertanejo, do pop e da música eletrônica. E vice-versa. Tudo junto e misturado. O ecletismo musical é a marca desse país de dimensões continentais.

Crédito: Divulgação
Música brasileira respeitada lá fora: Tom Jobim canta Garota de Ipanema junto com Frank Sinatra, em 1967

Mas, assim como todo país de intensa produção musical, temos também nossas referências, nossa marca. Aquilo que, por exemplo, faz um estrangeiro reconhecer: “ah, isso é música brasileira”. Esse rótulo de som tupiniquim cabe muito bem à Bossa Nova, grande expressão cultural que surgiu no final de década de 1950 no Rio de Janeiro. No início, era conhecida apenas como um novo modo de cantar e tocar samba. Com o passar do tempo, acabou virando um fenômeno, sendo reconhecida internacionalmente. Grandes nomes do gênero, como os de Noel, Tom e Vinícius, além de Nara Leão, Roberto Menescal e Maysa, ganharam notoriedade mundial.
Crédito: André Wormsbecker
“Nós fazemos samba, bossa, capoeira e futebol. É a nossa essência. Exportamos isso para o resto do mundo”, afirma o radialista Mauro Mueller

Quinze anos mais tarde, em 1965, o fenômeno da Bossa Nova chega ao fim. A partir daí, surge a MPB (Música Popular Brasileira), gênero difuso que abarcaria diversas tendências da música brasileira. Para o radialista Mauro Mueller, há 28 anos na profissão, o samba e a MPB são, de fato, as nossas principais referências. “A essência da originalidade criativa da música brasileira está aí. Quem faz rock' n' roll é o americano e o inglês. Nós fazemos samba, capoeira, bossa e futebol. Exportamos isso para o resto do mundo. No rock, soamos lá fora como imitação de rock inglês e americano. Todos preferem ficar com o original e a referência. As nossas influências no gênero são das raízes do que eles produziam. Como poderemos ter a essência, se a essência está nas mãos deles? Tente imaginar o Ronaldinho Gaúcho jogando basquete ou o Cobe Bryant jogando futebol. Por mais que se treine muito, vão faltar habilidades que nascem da raiz e da essência dos nossos antepassados”, afirma. Segundo o pesquisador e professor de História da música brasileira da Faculdade de Artes do Paraná (FAP), André Egg, o fenômeno da Bossa Nova foi o que impulsionou a internacionalização da nossa música no exterior. “É fato que a Bossa Nova representou um momento privilegiado de internacionalização da música brasileira. Alguns críticos, como Tinhorão, consideram que a Bossa Nova é mesmo muito internacionalizada — chegando a perder a referência nacional. As ideias de Tinhorão sobre a Bossa Nova, contudo, parecem totalmente superadas — a Bossa Nova tem elementos fortes e suficientes para ser identificada como nacional, ao mesmo tempo em que tem sofisticação e apelo universais. É um produto cultural altamente difundido e reconhecido no mundo, especialmente a partir do trabalho de Tom Jobim”, opina.
Crédito: Arquivo pessoal
O jornalista João Varella, que morou nos EUA e na Argentina, diz que os mais abastados são os que mais consomem a música brasileira

O jornalista João Varella, apaixonado por música, passou dois anos fora do Brasil, fazendo intercâmbio nos Estados Unidos (2005-2006) e na Argentina (2006-2007). Segundo ele, as classes mais favorecidas são as que têm maior acesso à música e cultura brasileira. “O normal é que eles não saibam nada. Dentro das camadas mais consumidoras de cultura da Argentina, há um respeito enorme por Caetano Veloso e Tribalistas. Nos EUA, a referência é Mutantes, mas são raros os que sabem mencionar uma música da banda. No mais, nesses períodos em que estive fora, acho que havia uma certa admiração pela cultura brasileira em geral. Já nessa época, o Brasil estava “na moda”, sendo consumido pelos mais abastados”, diz o jornalista.
Crédito: Divulgação
Raul Seixas é considerado até hoje o pai do rock brasileiro