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  3. Natal: um tesouro ameaçado

Quando chegamos a Natal, nossa expectativa era de que iríamos fazer matérias que destacassem as qualidades da água da cidade. Afinal, sempre ouvimos falar que, aqui, a qualidade beira a de água mineral. Mas bastaram alguns minutos de pesquisas e entrevistas para notar que isso é quase uma lenda. E o pior: ninguém avisou os moradores de que os índices de poluição da água já podem ser classificados como preocupantes.

"Quem vê cara, não vê coração"

Sem dúvida, Natal, com suas praias de areias brancas, lagoas, dunas, sol forte e ventos refrescantes, está entre os pontos mais lindos e aconchegantes do litoral brasileiro.

O que os milhares de turistas que visitam a cidade todos os anos e até mesmo os moradores não sabem é que, devido ao descaso das autoridades locais ao longo da história, um tesouro ainda mais rico vem sendo, literalmente, transformado em esgoto.

Há vinte anos, quando um turista ou morador abria a torneira da casa, do hotel ou da pousada, podia escovar os dentes ou tomar banho com uma água com qualidade de água mineral. Hoje, a situação é bem diferente.

Desde o início do século passado, todo o esgoto produzido na cidade é lançado no lençol freático, o mesmo local de onde são retirados 70% da água para seu abastecimento.

Se, no começo, a contaminação era lenta diante da capacidade de recuperação natural, com o crescimento e o desenvolvimento da capital do Rio Grande do Norte, isso deixou de ser uma realidade. “O crescimento desordenado, além de aumentar a quantidade de esgoto jogada no lençol freático, provoca a impermeabilização do solo e, assim, boa parte da água da chuva que serviria para reabastecê-lo está escoando para o mar”, diz João de Deus, presidente da Associação de Geólogos do Rio Grande do Norte.

A conseqüência direta desse comportamento, que faz com que o lençol freático receba mais esgoto e menos água a cada ano, pode ser percebida nos diversos estudos realizados pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), por ONGs e até mesmo pela Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte (CAERN). “Hoje, o Sistema Aqüífero Dunas/Barreiras (lençol freático) está quase totalmente poluído. Em alguns pontos de captação, a quantidade de nitrato (um subproduto da contaminação por coliformes fecais) é de 100 ppm (partes por milhão). Ou seja, está bem acima dos 45 ppm considerados aceitáveis pela Organização Mundial da Saúde”, diz o professor universitário José Geraldo de Melo, especialista em Hidrogeologia Urbana.

No campus universitário, que fica um pouco afastado do centro, onde teoricamente a água deveria estar menos poluída, todos os cinco postos de abastecimento já estão contaminados — impróprios para o consumo humano. “A água desses poços deverá ser usada apenas para lavar calçadas e coisas desse tipo. Para o consumo diário, tivemos de contratar uma empresa especializada, que consegue furar o calcário que fica abaixo do Sistema Aqüífero Dunas/Barreiras. Originalmente, essa água é mais ácida, e a vazão é bem menor, mas, como ela ainda não está contaminada, é a melhor saída”, diz o professor.

Apesar de estudar o assunto desde 1985 e vir denunciando a contaminação do sistema aqüífero (lençol freático) da cidade, o professor afirma que suas palestras e denúncias nunca encontraram ressonância junto à comunidade e autoridades locais. “O estudo que fizemos em 1995 sobre a contaminação do aqüífero foi premiado em um congresso na Alemanha que reuniu mais de 400 projetos de diferentes partes do mundo. Em São Paulo, Minas, Bahia e outras regiões, as pessoas se mostram muito mais interessadas no assunto do que as pessoas daqui, que aparentemente não estão nem um pouco preocupadas com o problema”, conta Melo.

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