Filtro de água Imagine um filtro de água. Agora, pense no que aconteceria se, aos
poucos, o dono do filtro fosse cobrindo partes da vela com material impermeável,
de forma que ela fosse perdendo a capacidade de filtragem. E como ficaria a
qualidade da água se o dono do filtro decidisse fazer alguns buracos
na parte inferior deste para jogar ali um pouco de urina e fezes todos os dias?
É exatamente isso que vem acontecendo em Natal e diversas cidades do
Nordeste que foram construídas em regiões de dunas e têm
a sorte de possuir imensos lençóis freáticos.
A estimativa, segundo pesquisadores da UFRN, é de que, a cada ano,
apenas a capital do Rio Grande do Norte jogue cerca de 42 milhões de
metros cúbicos de esgoto nesse imenso filtro natural, denominado Sistema
Aqüífero Dunas/Barreiras.
Mas, de acordo com o presidente da Associação de Geólogos
do Rio Grande do Norte, esse número pode ser bem maior. “Não
se tem controle sobre o número de fossas e poços clandestinos
existentes na cidade. Sendo assim, não se sabe ao certo a quantidade
de água que vem sendo extraída do aqüífero nem a quantidade
de esgoto jogado. Trabalha-se muito com estimativas”, explica o geólogo.
Para João de Deus, a menos que medidas sejam adotadas com urgência
e levando-se em consideração os índices de contaminação
da água, “dentro de 10 a 15 anos, a cidade viverá um colapso
de abastecimento. Nós estamos matando a nossa galinha de ovos de ouro”,
conclui.
No entanto, para muitas pessoas, inclusive geólogos e autoridades,
entre elas o secretário de Recursos Hídricos do estado, Josemar
de Azevedo, 63, a contaminação do lençol freático
só acontece quando as fossas são mal construídas, tanto
que existem pontos de captação de água localizados ao lado
de grandes fossas.
Entretanto, para o professor Geraldo Melo, esse é um discurso mais
político do que técnico e que acaba perpetuando a falta de preocupação
e de investimento no tratamento dos efluentes e na preservação
da água. “As pessoas que defendem essa tese não possuem
o conhecimento necessário sobre o assunto. Os estudos mostram que o Sistema
Aqüífero Dunas/Barreiras é um sistema único.
A contaminação não se deve a fossas mal construídas,
mas à fragilidade do sistema (Dunas/Barreiras) e à persistência
em jogar o esgoto no subsolo. É por isso que mesmo as áreas onde
já existe rede de esgoto (15% da cidade) continuam contaminadas”,
esclarece Melo.
Para o professor, essa visão distorcida acaba fazendo com que o pouco
investimento feito no setor de preservação muitas vezes seja ineficaz,
podendo até mesmo ser mais prejudicial do que benéfico. “As
lagoas de estabilização,
que deveriam ajudar, estão, na realidade, poluindo ainda mais. É
preciso fazer um estudo de impacto antes de realizar obras desse porte. Não
basta verificar se a região é pouco habitada”, diz Melo.
Segundo o professor, para minimizar os riscos de contaminação
em pontos de captação de água, é necessário
levar em consideração o movimento das águas no subsolo:
“Sistemas como esse deveriam estar mais próximos das áreas
de escoamento e não de captação”.
Apenas para o leitor entender melhor, mantidas as devidas características
e proporções, se fôssemos pensar no sistema aqüífero
como se ele fosse um rio, o que está sendo feito seria mais ou menos
como jogar a água poluída da cidade a alguns metros acima do ponto
de captação da água para tratamento e abastecimento.
Mas o secretário de Recursos Hídricos do estado não concorda
com Geraldo Melo. “Isso é uma tese dele, que não tem qualquer
base científica. Não há nenhuma comprovação
de que as lagoas de estabilização estejam poluindo o lençol
freático”, diz Josemar de Azevedo.
Independentemente da discussão entre governo, geólogos e pesquisadores,
o custo de todo esse descaso promete ser elevado. Atualmente, para se conseguir
água potável que não contenha nitrato, empresas especializadas
em perfuração são obrigadas a cavar mais de 150 metros
de profundidade. “Há vinte anos, quando fundei minha empresa, com
60 metros já se obtinha água mineral com um padrão de qualidade
invejável em todo o mundo. Hoje, em boa parte da cidade, para se conseguir
água que não esteja contaminada, é preciso perfurar o solo
por 150 metros. Ou seja, já estou perfurando o cascalho”, diz o
empresário Marcos Antonio da Silva, 50.
Segundo ele, uma vez que o lençol freático está poluído,
essa é a única forma de se conseguir água de boa qualidade
nas áreas de maior contaminação. Apesar de a água
ainda não estar poluída a 150 metros de profundidade, o sistema
de perfuração do cascalho apresenta algumas desvantagens. A primeira
é o preço. Um poço de 150 metros de profundidade custa
mais do que o dobro de um de 100 metros. A segunda é a vazão.
“No cascalho, conseguimos bombear muito menos água. Esse tipo de
poço pode ser usado por particulares, hotéis
ou pousadas, mas, devido à baixa vazão, ele não poderia
ser usado, por exemplo, para o abastecimento da cidade, que requer muito mais
água”, explica o empresário. De acordo com Marcos, como
em Natal não há tratamento de água, para conseguir manter
os índices da água dentro de padrões aceitáveis,
a CAERN está simplesmente misturando água de poços que
ainda não estejam muito contaminados com a de poços com altíssimo
teor de nitrato.