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01/05/2002
Promessas (quebradas) de paz

"Promessas de um novo mundo" (Promises. Eua/Israel, 2000) é um documentário sobre crianças israelenses e palestinas. O que se vê no filme é espelho das diversas maneiras que os dois povos encaram o conflito. Entre tentativas e fracassos, esperanças e decepções, avanços e recaídas para se chegar a um acordo, as crianças são prova que o entendimento está tão longe e tão perto. A paz que está em suas mãos é a mesma que lhes escorre entre os dedos.

Os diretores B.Z.Goldberg, Justine Shapiro e Carlos Bolado: cinema para desarmar o espírito.

Nem só de rifles e bombas é feita a crise no Oriente Médio. Sempre que o conflito endurece, israelenses e palestinos se vêem no centro de outro fogo cruzado. É uma autêntica guerra de imagens. Há fotos para todos os (des)gostos: feridos, mortos, ruínas de casas e lugares públicos destruídos em algum atentado ou ofensiva militar. O cenário muda, o desespero das famílias e amigos é igual para ambos. As fotos mais chocantes são as que revelam crianças e jovens como vítimas ou autores de tanta violência.

Além de imagens, o embate também adquire sons. Basta que as tropas israelenses caiam na provocação dos jovens palestinos e respondam às pedras arremessadas com balas, ou que um atentado terrorista exploda em data ou local sagrado para os judeus. Depois de um episódio dramático, é comum ouvir líderes dos dois povos trocando acusações mútuas frente às câmaras. Até pessoas comuns falam ao microfone com rancor e exigem que se vá à desforra, que a represália seja ainda mais dura, enfim, que mais sangue seja derramado.

Os diretores americanos B.Z.Goldberg e Justine Shapiro - ambos de origem judaica - se juntaram ao mexicano Carlos Bolado para fazer tudo ao contrário. Eles passaram três anos à procura de imagens e sons infantis. Mas, em vez de dar munição ao confronto, fizeram um filme para desarmar os espíritos. No lugar de discursos inflamados de adultos, a proposta era ouvir o que crianças, entre 9 e 13 anos, tinham a dizer sobre o conflito. No lugar da discórdia, o desejo era semear o diálogo e promover o encontro entre elas.

Para marcar a exibição de Promessas de um Novo Mundo ou obter mais informações sobre aquisição e usos educacional, institucional e doméstico de fitas de vídeo K-7, entre em contato com o distribuidor do filme no Brasil:

Estação Cinema e Cultura
Rua Voluntários da Pátria, 97 - Botafogo
22270-000 Rio de Janeiro - RJ
films@estacaovirtual.com

Site do filme: http://www.promisesproject.org

 

Sete crianças, um destino

Entre 1997 e 2000, eles acompanharam a vida de seis meninos e uma menina, todos com um destino comum. Se já não tinham a vida marcada por alguma tragédia, viviam com medo que algo de mal lhes acontecesse no turbilhão do conflito. Outra afinidade salta aos olhos: todos moravam a menos de 20 minutos, mas pareciam viver anos-luz um do outro: nenhum jamais tinha conversado com uma criança que não fosse do seu povo. E, para alguns, não havia a menor vontade de aproximação. Politizadas desde cedo, as crianças acabam seduzidas pelo revanchismo dos adultos.

Moishe: luto pelo amigo morto e vontade de varrer os árabes de Jerusalém.

É o caso do garoto louro e de olhos azuis, Mahmoud, que apóia o grupo extremista Hamas. "Quanto mais judeus matarmos, mais forte os árabes serão", acredita. Na sua escola, o Alcorão é ensinado como um manifesto. Já Moishe, habitante do assentamento de Beit El, na Cisjordânia ocupada, defende, mostrando um trecho da Torá, que Deus deu a Palestina aos judeus. Moishe sonha com o cargo de primeiro ministro de Israel e diz que "irá varrer os árabes de Jerusalém". A mesma cidade onde Mahmoud costuma rezar pela libertação de sua terra.

No filme, Moishe também aparece rezando. Seu amigo Efraim é morto por terroristas durante as gravações. No túmulo do amigo, Moishe jura vingança. Farraj já sentiu na pele o que Moishe está passando. Aos cinco anos, viu seu melhor amigo ser morto por uma bala de tropas de Israel no campo de refugiados, em Deheishe, onde mora. Após participar de uma manifestação antiisraelense, ele e sua avó vão sorrateiramente além dos limites do campo. Visitam a cidade, hoje pertencente a Israel, de onde sua família fugiu na guerra de 1948. Nas ruínas da antiga casa da família, Faraj jura voltar um dia para reconstruí-la.

Sanabel: dança para preservar a história de seu povo.

Sanabel é a única garota do filme e sua família também está refugiada há três gerações em Deheishe. A cada dois meses, ela deixa o campo. Mas, em vez de destroços, vai visitar o pai na prisão israelense em que foi detido. Seu pai é jornalista e contrário aos acordos de paz com Israel. Sanabel é de uma família de palestinos seculares (não-religiosos) e ensaia para ser uma bailarina de danças tradicionais, com as quais pretende contar a história do seu povo.

Encontros e desencontros

Shlomo também é aluno esforçado de suas tradições. Judeu ortodoxo, estuda a Torá 12 horas por dia. Assim, dá os primeiros passos para se tornar um rabino, líder espiritual do seu povo. Ele tem fé em Deus, acredita que a paz virá com a chegada do Messias e diz não viver em conflito com os árabes. É ao final de suas preces que os diretores filmam o instante em que o garoto israelense topa com um palestino. O que podia descambar em briga, acaba em pura molecagem. Entre a curiosidade que os atrai e a rivalidade que os separa, as crianças resolvem as desavenças em um concurso para ver quem arrota mais alto!

Em outra situação, B.Z Goldberg, fluente em árabe, conversa com um garoto palestino, que decreta: "nenhum judeu é confiável". Isso até o cineasta dizer que, ele próprio, é judeu. Surpresa, a criança reage como quem descobre algo que estava o tempo todo debaixo do nariz. Por maior que seja a rixa, ela não é forte o bastante para sobreviver ao encontro cara a cara. É como se o filme quisesse dizer: não há paz simplesmente porque os dois lados se negam a conversar e a se conhecer. As crianças representariam a paz porque se mostram capazes de perceber o quanto poderiam ganhar com essa convivência.

O israelense Daniel e o palestino Faraj: o desfecho da amizade lembra os avanços e retrocessos do processo de paz.

Mas, o encontro mais marcante é a visita dos irmãos gêmeos, judeus seculares, Yarko e Daniel, ao campo de refugiados onde mora Faraj. Daniel admite: "Se vivesse aqui também me revoltaria". Conversa vai, conversa vem, Faraj se dá conta que os israelenses não são todos truculentos como pensava, e que Daniel, tanto quanto ele, adora esportes e torce pela seleção brasileira. Brincam juntos, comem juntos, choram durante a despedida. Por um momento, nada têm a ver com a disputa ancestral de suas famílias.

O que podia ser o nascimento de uma nova amizade, porém, não tem final feliz. Meses mais tarde, Farraj se queixa das tentativas frustradas de retomar o contato com Daniel. O desfecho lembra os avanços e os retrocessos do processo de paz. Como um bolero, são dois pra lá, dois pra cá. E as crianças israelenses e palestinas aprendem a dançar conforme essa música de oportunidades de diálogo criadas e desperdiçadas entre os dois povos.

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