Preconceituoso? Eu?


Em 2006, o portal realizou, junto com Jairo Bouer, uma grande pesquisa sobre comportamento com mais de 16 mil jovens de todo o Brasil. Quando o tema “preconceito” entrou na pauta, as respostas foram curiosas. Mais de 80% das pessoas responderam que não se consideravam preconceituosas. Por outro lado, quando confrontados com algumas situações, boa parte da galera caiu em contradição, principalmente quando as questões envolviam etnias diferentes e homossexualidade. "Às vezes, a pessoa nem sabe que é preconceituosa e, quando se depara com uma situação, percebe que carrega aquilo", diz a rapper Atiely, que, como vimos na página anterior, já foi vítima de preconceito. Mas que também já se “pegou” em alguns momentos pensando de forma preconceituosa. Aliás, é interessante ressaltar que todas as pessoas ouvidas pela reportagem do portal (pesquisadores, vítimas e agentes de discriminação), admitiram ter agido ou pensado preconceituosamente em algum momento.

Essa diferença entre o que falamos e o que fazemos é característica do que se chama preconceito moderno. “Hoje, vemos pessoas que condenam a discriminação, às vezes até trabalham em defesa de minorias, mas que continuam carregando uma grande carga de preconceito dentro de si. As pessoas camuflam suas atitudes, porque expressar o preconceito que ainda sentem não pega bem,” explica Nilton Formiga, que é mestre em Psicologia Social pela Universidade Federal da Paraíba e estuda o preconceito há quatro anos. Um dos resultados disso é o uso de eufemismos (nomes mais suaves) para designar potenciais vítimas de preconceito. Negros viram “morenos”; deficientes físicos, “portadores de necessidades especiais” e assim por diante. É uma nova forma de discriminação, mais “sutil”, mas não menos dolorosa. “Ser negra e ser chamada de morena é a pior coisa que tem”, diz Atiely. “Parece que ser negro é uma coisa ruim, e então as pessoas acham que eu vou ficar ofendida se me chamarem do que eu realmente sou.”

Outra manifestação do preconceito moderno que tem chamado a atenção dos especialistas é aquela que envolve atitudes positivas exageradas. Você já deve ter ouvido alguém dizer “Fulano é preto, mas é extremamente honesto”, “Cicrana é mulher e deficiente, mas realiza um ótimo trabalho”, ou “Beltrano é bicha, mas é uma excelente pessoa.” Percebeu o peso que tem o mas nessas frases? O fato é que Fulano, Cicrana e Beltrano podem até ser grandes vigaristas, mas, como fazem parte de grupos contra os quais as pessoas normalmente têm preconceitos, passa-se a elogiá-los exageradamente, justamente para esconder a discriminação.

Foto: Marcelo Vigneron

Cena do filme Antonia, que aborda o machismo e a homofobia.


Existe preconceito mesmo dentro de grupos que lutam contra a discriminação. Um exemplo é o movimento hip hop. O filme Antonia conta a história de quatro mulheres que lutam para vencer o machismo quando resolvem montar seu próprio grupo de rap. Quem também sofre discriminação é o irmão da personagem Bárbara, que é espancado por ser homossexual e tem o namorado assassinado.

Acesse o site do filme e ouça as músicas da trilha.

Para Formiga, esse comportamento é resultado, principalmente, da forma como aprendemos a tolerar os outros, mas não a aceitá-los como seres humanos iguais a qualquer um. Perceba que há uma grande diferença entre tolerar (suportar, agüentar) e aceitar (acolher, respeitar).

A mudança no discurso, no entanto, parece não estar fazendo grande diferença para os grupos sociais em questão. Basta pegar algumas estatísticas socioeconômicas para ver que negros, mulheres e portadores de necessidades especiais continuam defasados com relação a salários, moradia, Educação, etc. Na verdade, tanto faz a maneira como se chama alguém, desde que você trate quem é negro com respeito, não negando a ele sua amizade, um cumprimento ou um emprego simplesmente porque ele é negro. “O que vai definir se eu vou me referir a um negro respeitosamente ou chamar de neguinho safado são as relações que estabelecemos no dia-a-dia, e não uma mera mudança de discurso”, completa Formiga.

Celso Antunes concorda, mas acrescenta que o preconceito moderno pode ser um sinal de evolução. “Só o fato de as pessoas sentirem vergonha de seus preconceitos já mostra que está havendo uma tomada de consciência. Amanhã, quando olharmos para trás, veremos que antes havia uma discriminação aberta e violenta, depois uma disfarçada, até que as pessoas gradualmente conseguiram lidar bem com o preconceito.” Mas tudo indica que essa tomada de consciência definitiva não será conhecida pelas gerações atuais.

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Preconceituoso? Eu?
Dá pra acabar com o preconceito?